77 anos da Revolução Chinesa

A questão da organização independente da classe trabalhadora

Há 77 anos, a China vivia um momento maior na história do século XX: em 1° de outubro de 1949 era proclamada a República Popular da China. Como em outros países, a luta contra a ocupação estrangeira, no caso, do Japão, que integrava o Eixo ao lado da Alemanha nazista e da Itália fascista, se combinou com o combate contra a própria burguesia chinesa, uma classe dominante prostrada aos pés do imperialismo e incapaz de liderar a luta nacional.

Ao cabo do esforço que expulsou os japoneses da China e da Manchúria, o exército popular que seguiu Mao Tse Tung e o Partido Comunista Chinês foi levado a expropriar o capital e estabelecer um regime de economia planificada no país. O fato ganha maior relevância quando se recorda que a ação das massas chinesas desafiou a política de coexistência pacífica com o imperialismo que Stálin, a frente da União Soviética, sustentou no pós-guerra. A Revolução Chinesa representou um abalo no pacto de repartição do mundo entre Stálin e as potências imperialistas, em particular os EUA. E por isso, enquanto pôde, a burocracia soviética se opôs a ela.

Comemoração da vitória da revolução em Pequim, 1949

A revolução proletária na China se gestou ao longo de décadas. Ela remonta ao processo de luta pela independência do país, em particular aos acontecimentos de 1911. Ao longo de todo o século XIX a China foi integrada à força das armas ao mercado mundial, a partir do episódio conhecido como a Guerra do Ópio, que expôs as riquezas nacionais à pilhagem de diferentes potências ocidentais, particularmente a Inglaterra. Em 1911, grandes lutas populares são encabeçadas pelo dirigente nacionalista Sun Yat-Sen que culmina na Proclamação da República que, contudo, termina nas mãos de um fantoche das potências estrangeiras, o general Yuan Shikai, sob o qual o país passa pela 1ª Guerra Mundial, que tem como efeito uma profunda desorganização da economia nacional.

Em 1924, Sun Yat-Sen reorganiza as forças populares no partido nacionalista, o Kuomitang, e, a seguir, entrega seu efetivo militar a Chiang-Kai-Chek. Fundado em 1921, na onda revolucionária iniciada com a Revolução Russa, o Partido Comunista Chinês (PCC) adota uma correta política de frente única com os nacionalistas, orientado pela Internacional Comunista (IC), ainda orientada pelas Teses sobre o Oriente, adotadas em seu 4° Congresso.

A orientação de Frente Única Anti-imperialista contida nas Teses, entretanto, exigia uma completa independência política dos operários e camponeses em relação à burguesia nacionalista que, ainda que com contradições significativas com o imperialismo, tinha, ao fim e ao cabo, seu destino ligado a ele. Com a morte de Sun em 1925, Chiang-Kai-Shek passa a ser o chefe do Kuomintang e chega a ser eleito como membro honorário do Presídium da Internacional Comunista, dentro da política de Stálin de controlar a revolução chinesa no marco do capitalismo. O Partido Comunista Chinês, nesta lógica, praticamente abandona a vida independente, se dissolvendo no Kuomitang nacionalista em nome da unidade contra o imperialismo. No momento crucial da luta, em 1927, o Partido Comunista lidera uma rebelião popular na importante cidade de Xangai, o que permitiu o êxito da entrada do exército nacionalista de Chiang-Kai-Shek.
Incontinente, diante do desarme político da militância em função do enfeudamento do partido à orientação da cúpula da Internacional Comunista nos primeiros tempos da stalinização, Chiang-Kai-Shek desencadeia uma onda repressiva contra os comunistas em abril de 1927.

Depois do massacre de Xangai, em abril de 1927, Stalin tentou um novo giro, passando da subordinação a Chiang Kai-shek à submissão à esquerda do Kuomintang, identificada com Wang Ching-wei. Depois disto, o levantamento de Pequim e, em especial o de Cantão, foram reações espontâneas à política anterior de capitulação a Chiang Kai-shek. Não tinham, entretanto, chance de vitória e por isso Trotsky defendeu um recuo organizado para preservar o partido para o próximo período das lutas.

A burocracia stalinista à testa da Internacional Comunista, ao contrário, usou a ação desesperada em Pequim e Cantão como ato inaugural da política sectária do “3º Período”, cujos resultados trágicos se mostrariam na Alemanha de 1932-33. Com efeito, Pequim e principalmente Cantão assistiram a novos massacres de comunistas. A orientação sectária já no período de descenso da revolução foi uma continuação da orientação oportunista de submissão à direção do Kuomintang, resultando, no conjunto, na derrota do proletariado chinês.

A política da burocracia dirigente da Internacional Comunista teve, assim, uma coerência nas várias etapas da revolução, o que levou Trotsky a cognominar Stalin de “o grande organizador de derrotas” (A Internacional Comunista Depois de Lenin, 1928). O fato marcou o movimento operário e camponês Chinês por muitos anos, obrigando a uma longa retirada de milhares de quilômetros conhecida como a Grande Marcha, que arrastou atrás de si centenas de milhares de trabalhadores do campo e das cidades.

A marcha se fortalece pelo lugar que ocupa na luta contra a ocupação japonesa durante a 2ª Guerra, em face do nacionalismo impotente de Chiang-Kai-Shek que, entretanto, é colocado no poder pelos “4 Grandes” (EUA, França, Inglaterra e URSS) depois da derrota do Japão. O movimento liderado pelo Partido Comunista, contudo, já se tornara majoritário no país. A situação revolucionária aberta com a expulsão dos japoneses culminará na entrada de Mao Tse Tung e Chu Enlai, principais dirigentes do Partido Comunista, em Pequim em 1° de outubro de 1949, depois de seu exército já controlar todo o Norte da China.

Esse novo regime, fruto direto da pressão das massas armadas, não origina, porém, órgãos de poder próprios dos operários e camponeses que de fato asseguraram a vitória sobre Chiang-Kai-Shek e o imperialismo. O poder se identificará imediatamente com a cúpula do Partido, o qual vai ocupar todos os níveis do poder de Estado, sem jamais permitir à classe trabalhadora constituir as suas próprias instituições.

Mas um movimento de centenas de milhões não poderia deixar de realizar transformações profundas: a nacionalização da economia na base da expropriação do capital, a planificação econômica, autênticas conquistas da revolução, permitirão um salto de séculos num país ainda firmado na hegemonia de uma economia oligárquica, ainda mantida no século XX pelas potências imperialistas interessadas no atraso Chinês. A burocracia soviética, depois de se opor à tomada do poder, foi obrigada a dar apoio ao plano quinquenal chinês, mas, já nos anos 50, abandonou a China à própria sorte, como parte dos acordos com o imperialismo. Mao, que expressava uma política de apoio a Stálin (apoio expresso num tratado de amizade entre os dois países assinado em 1950), se verá frente a este paradoxo.

Ao longo de décadas, se desenvolveu uma guerra interna no aparelho do Partido Comunista entre diferentes facções na qual as massas foram usadas hora contra uma, hora contra outra fração, sem que nenhuma delas abrisse espaço para seu protagonismo. Ao contrário, o regime de partido único levou parte importante dos que lutavam pelo Direito à livre organização, especialmente jovens, aos enfrentamentos de 1989 que terminaram no massacre da Praça da Paz Celestial. Desde meados dos anos 70, ainda sob Mao, mas sobretudo sob Deng Xiao-Ping, se iniciará uma política de abertura ao capitalismo.

Taxas de juros altas e a criação de zonas livres da legislação revolucionária de 1949, as Zonas Econômicas Especiais, onde não vigoram as proteções aos trabalhadores, atraíram milhares de investidores estrangeiros, explorando o baixo custo da mão de obra chinesa, disciplinada pelo regime de partido único e controle estatal dos sindicatos (o direito de greve foi proibido em 1982).

O resultado foi um ciclo de produção e prosperidade, na base de uma profunda violação dos direitos conquistados na Revolução, que resultou num produto nacional bruto que, contraditoriamente se baseando numa outra conquista da revolução, a planificação econômica, permitiu à burocracia dirigente associar setores de uma nova burguesia, bem como o próprio capital transnacional, num movimento de conquista de mercados mundo afora.

Nos últimos 40 anos, o PIB chinês cresceu à taxa média de cerca de 10% ao ano. Esse crescimento criou “milionários”, aumentou os privilégios da casta burocrática e a desigualdade social no país, tendo como efeito o surgimento de novas lutas internas na cúpula do poder e fenômenos de resistência popular. Mas também abalou o mercado mundial, no qual a economia capitalista anárquica precisa enfrentar a ameaça centralizada chinesa, levando à brutal guerra comercial em curso, especialmente sob o governo de Trump nos EUA.

A “milagrosa” economia chinesa se enfrenta e se enfrentará com a estagnação do mercado e da economia mundial, onde a produtividade cresce em progressão geométrica, mas o consumo se desenvolve o máximo em progressão aritmética. Novos sacrifícios em nome da produtividade serão exigidos do proletariado chinês.

Passados 77 anos da vitória da revolução chinesa, as massas exigirão a parte que lhe cabe na prosperidade nacional. E isto recolocará fatalmente o problema de seu direito à própria organização independente. A classe trabalhadora, há 77 anos, assaltou os céus da gigantesca China, onde, por sua importância, em boa parte se joga o futuro da humanidade. Ela, a classe trabalhadora, dará a última palavra.

Eudes Baima

Trabalhadores da Chuangyue Fashion Co. Durante paralisação

No último 9 de setembro, trabalhadores reivindicaram salários atrasados e ​​estenderam uma faixa com os dizeres: “Paguem-nos o que nos é devido! Devolvam-nos nosso dinheiro duramente ganho!”, sobre o logotipo gigante da MixC, na parede externa do shopping center Nanjing Chengbei, na província de Jiangsu. Os funcionários da Chuangyue Fashion Co., uma subsidiária do grupo Zhejiang Huading, entraram em greve por dois dias consecutivos, nos dias 31 de agosto e 1º de setembro, para protestar em frente aos portões da empresa depois que cortes salariais.

Os trabalhadores da fábrica China Ting-Concept Creator, em Hangzhou, também entram em greve por dois dias consecutivos (31 de agosto – 1º de setembro) em função de uma redução salarial mensal de mais de 1.000 yuans. Centenas de trabalhadores do grupo Shanghai Huate entram em greve por vários dias para reivindicar salários atrasados.

De 18 a 21 de agosto, centenas de trabalhadores das fábricas Huagu, Ziyuan e Huate – três unidades do grupo Huate localizadas no distrito de Jiading, em Xangai – iniciaram uma greve geral. Eles se reuniram em frente ao Instituto de Arbitragem de Conflitos Trabalhistas e de Pessoal do distrito de Jiading, na sede do grupo Huate e em outros locais, reivindicando quatro meses de salários atrasados.

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