Furação era uma tragédia anunciada
Há 21 anos, em agosto de 2005, um furacão chamado Katrina destruiu a cidade de Nova Orleans no estado da Luisiana nos EUA. Cerca de 80% da cidade ficou submersa após o rompimento dos diques de proteção, pois a cidade fica abaixo do nível do mar.

Os fatos revelaram uma intenção
Um relatório feito pela Sociedade Americana de Engenheiros Civis, em 2007, indicou que dois terços das inundações foram causadas por falhas nas barreiras da cidade e pelas comportas que não foram fechadas. Os bairros mais pobres sofreram os maiores impactos dos rompimentos dos diques. A lentidão no resgate das vítimas expôs o descaso com a comunidade negra: 200 mil casas ficaram debaixo de água, a maioria em bairros pobres. Mais de um milhão de habitantes foram evacuados, a maioria à força, enviados para ‘campos’ na Louisiana, Texas e Missouri. As forças federais e a Guarda Nacional do então presidente George W. Bush (Partido republicano), com a ajuda do prefeito Ray Nolan (Democrata) colocaram a cidade sob “lei marcial”. O prefeito declarou: “os policiais não precisam se preocupar com os direitos civis”.
O Katrina deixou mais de dois mil mortos, milhares de desaparecidos e mais de 800 mil sem abrigo, sem emprego, abandonados à própria sorte. Na maior diáspora estadunidense desde a guerra civil no século 19, a deportação massiva “esvaziou” a cidade sua população negra e pobre. Segundo o Censo de 2006, menos da metade das pessoas continuaram vivendo em Nova Orleans, com um declínio de 219.563 habitantes.
Tribunal Internacional Katrina
“Eles nos deixaram morrer”. Esta foi a acusação lançada contra o governo estadunidense. Um Tribunal Internacional foi organizado em setembro de 2007, segundo ano da tragédia, pelo Fundo Popular de Ajuda às Vítimas do Furacão (PHRF-OC) e pela Coalizão de Militantes Negros Sobre o Katrina e impulsionado pelo AcIT (Acordo Internacional dos Trabalhadores), para julgar e denunciar a negligência e violação de direitos humanos por parte dos governos federal, estadual e municipal dos Estados Unidos.
Segundo as denúncias do Tribunal, o governo concedeu contratos sem licitações para empresas com vínculos com a administração Bush; transgrediu códigos de proteção aos trabalhadores; marginalizou milhares de desabrigados; estabeleceu programa de reconstrução que excluía a população negra (majoritária), reservando extensos setores de Nova Orleans para investimentos privados, numa limpeza étnica sem precedentes, impedindo que a população negra voltasse a se instalar ali.
No Brasil
Uma extensa campanha – na qual a corrente O Trabalho atuou – foi impulsionada também pela Juventude Revolução uniu entidades como a Conen, MNU, CUT, UNE, PT, PSTU, Conlutas, SOS Racismo, Yle Ase Ya Odo Alafin ni Oyo, Fórum Estadual de Mulheres Negras-SP, Frente Parlamentar Para Promoção da Igualdade Racial-Alesp e Unegro em atos e eventos preparatórios.
A delegação brasileira que esteve no Tribunal foi coordenada pelo então deputado estadual José Cândido (PT-SP) e contou ainda com Edenice Santana (CUT-BA), Milton Barbosa (MNU), Rafael Pinto(CONEN), deputado Vicente Cândido (PT SP) e Joelson Souza (militante da JR e diretor da UEB). O deputado José Cândido e Mílton Barbosa fizeram parte do corpo de jurados no Tribunal Internacional.
Além dos brasileiros, estiveram presentes delegações Argélia, Brasil, França, Guadalupe, Martinica, México, África do Sul, Venezuela e Estados Unidos.
A sentença
“É nossa visão que o Governo dos EUA cometeu crimes contra humanidade particularmente em relação a seu fracasso em manter funcionando os diques que deveriam proteger a cidade de Nova Orleans da inundação. Foi uma gestão negligente do governo dos EUA, do Estado de Louisiana e do Município de Nova Orleans que criaram a devastação que continuamos ver ainda hoje”.
O júri internacional concluiu também que o impacto desproporcional da tragédia sobre a população afro-americana não foi um acidente, mas resultado de um histórico de segregação, falta de investimento em infraestrutura em bairros pobres e desrespeito aos direitos civis. Denunciou a limpeza étnica e despejo forçado e o impedimento do retorno de milhares de famílias negras e pobres, caracterizando um processo de gentrificação. E exigiu o direito ao retorno e reparação financeira a todas as vítimas.
Barbara Corrales



