A barbárie em marcha

Lucien Gauthier, Informações Operarias, Paris, 9 de fevereiro de 2022 (tradução de Adaías Muniz)

Putin repete incansavelmente que seu objetivo é “libertar” a Ucrânia e “desnazificá-la”. É claro que existem fascistas na Ucrânia e há fascistas também na Rússia. E que esses grupos fascistas também não representam nenhum dos dois povos.

O povo ucraniano, por outro lado, recebe um dilúvio de ferro e fogo sobre ele. Civis mortos, cidades destruídas, pessoas escondidas em porões, e depois há esses milhões que tentam fugir das zonas de combate para chegar ao oeste do país. Outros dois milhões de ucranianos já cruzaram as fronteiras dos países vizinhos.


E o povo russo? Está sujeito a sanções que afetarão secundariamente os oligarcas, mas maciçamente a população. Há inflação – o rublo despencou –, há escassez de produtos básicos e, com o fechamento de muitas empresas e lojas estrangeiras, dezenas de milhares de russos ficaram sem trabalho.

Retirada das tropas russas da Ucrânia!

Parem os bombardeios!

Fraternidade entre os povos!

E ENQUANTO ISSO…
Usando a guerra na Ucrânia, os Estados Unidos da América estão manobrando para a militarização da Europa, sob seu controle.

Com a manchete “Países da OTAN despejam armas na Ucrânia”, o New York Times (2 de março) escreve: “Os holandeses fornecem lançadores de foguetes para defesa aérea. Os estonianos fornecem mísseis antitanque Javelin; os poloneses e os letões fornecem mísseis terra-ar Stinger. Os tchecos enviam metralhadoras, rifles de precisão, pistolas e munições. Mesmo países anteriormente neutros, como Suécia e Finlândia, estão enviando armas. E a Alemanha, há muito alérgica ao envio de armas para zonas de conflito, está enviando Stingers e outros foguetes lançadores de ombro.

Em 25 de fevereiro (…), a Casa Branca aprovou o envio de um conjunto de armas e equipamentos no valor de 350 milhões de dólares, incluindo Javelins e Stingers. Autoridades do Pentágono disseram que as entregas começaram a ocorrer há poucos dias, dos estoques militares na Alemanha para a Polônia e a Romênia, de onde o material foi transportado por via terrestre pela Ucrânia ocidental.

O primeiro-ministro polonês Mateusz Morawiecki prometeu fornecer à Ucrânia dezenas de milhares de ogivas e munições de artilharia, mísseis antiaéreos, morteiros leves, drones e outras armas de reconhecimento. Só os Estados Unidos enviaram 15 mil soldados adicionais para a Europa – 5.000 para a Polônia, 1.000 para a Romênia e 1.000 para os estados bálticos – podendo engajar outros 12.000 soldados, se necessário, para a Força de Reação Rápida da OTAN, ativada pela primeira vez no âmbito da defesa coletiva”.

O mito da defesa europeia viveu sua vida. São os Estados Unidos quem fornece a liderança e impõem suas exigências. Desde Obama, os sucessivos governos dos EUA têm exigido que os países da OTAN aumentem seus orçamentos militares para 2% de seu PIB. Isto é exatamente o que está acontecendo.

Como um bom aluno, o governo polonês acaba de decidir aumentar seu orçamento militar para 3%. O governo Scholz na Alemanha também se alinha ao decidir um pacote de 110 bilhões de dólares para o exército. Ele já anunciou que vai comprar aviões de combate… dos EUA. Durante a guerra, os negócios continuam.

A indústria de armamento estadunidense não tem nenhuma intenção de deixar que as empresas armamentistas europeias assumam esse mercado. Como em todas as questões, é uma luta de vida ou morte entre os trustes em acirrada competição por fatias de mercado. E a economia de armamento é um setor decisivo da economia capitalista.

Todos os dirigentes do capital estão aterrorizados com o risco de uma crise geral do sistema, muito superior à crise de 2008-2009. A disparada do preço do petróleo, gás, trigo e outras matérias primas é uma indicação de que as condições para esta crise estão se reunido; daí a necessidade para o capital de uma “fuga para a frente”, o que ameaça toda a humanidade.

IMPERIALISMO É MILITARISMO
Nesta situação, como em todo período de guerra e crise, os governos buscam realizar uma “união sagrada”. É supostamente necessário, em nome do povo ucraniano, que os povos aceitem “sacrifícios”; que as organizações sindicais coloquem as reivindicações debaixo do tapete e que todos se alinhem com a política dos governos belicistas.

Mas, de falar até fazer há uma grande diferença. Os elementos disponíveis demonstram essa resistência à guerra.
Nenhuma “união sagrada”, nem Putin nem OTAN.

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