A guerra e seus efeitos no Brasil

Lula ergue cartaz do DAP que diz "não à guerra" em evento na Bahia

Dólar cai, commodities sobem, inflação dispara, especuladores comemoram e o povo passa fome

As cenas de famílias brasileiras na “fila do osso”, que já vinham de antes, resultado do desastre econômico bolsonarista, tendem a se agravar com a invasão russa da Ucrânia.

Juntos, os dois países fornecem, dentre outros produtos, cerca de 30% do trigo, mais de 50% do óleo de girassol e 20% do milho comercializados mundialmente. Rússia e Belarus (país vizinho, envolvido indiretamente na invasão) detém 40% da produção mundial de potássio, essencial para fertilizantes.

Os combates no território da Ucrânia e as sanções impostas pelos EUA à Rússia e Belarus interrompem a produção, transporte e comercialização, provocando altas em nível mundial, num cenário em que já havia um quadro de inflação nos preços dos alimentos.

No mercado internacional, entre 24 de fevereiro, início da invasão, e a primeira quinzena de março, subiram os preços do trigo 66%, do óleo de girassol 40% e do milho 33%. Os fertilizantes aumentaram, em média, mais de 30%.

Chorando lágrimas de crocodilo, Antonio Guterres, Secretário Geral da ONU, a promotora de guerras, protetora do sistema imperialista, declarou que “nenhum país será capaz de se isolar de um colapso do sistema econômico global, do efeito dominó de acumular alimentos ou combustíveis, ou do impacto de longo prazo do aumento … da pobreza e da fome”.

Impactos no Brasil
O Brasil importa 60% do trigo e 80% do fertilizante que consome. É forte a dependência da Rússia, de onde vem cerca de 23% de todo o fertilizante aqui utilizado, sendo 90% particularmente do potássio. A maior parte do trigo vem da Argentina mas, em todos os casos, os preços de importação em dólar estão subindo porque acompanham o mercado mundial.

A queda do dólar frente ao real é resultado da entrada de dinheiro especulativo que vem se beneficiar da subida dos juros imposta pelo Bacen subordinado ao mercado financeiro. Isso compensa um pouco as altas dos preços internacionais, mas não o suficiente. Cresce, portanto, a pressão para aumentos nos produtos de primeira necessidade, agravando a insegurança alimentar que já atinge cerca de 25% das famílias brasileiras.

Em outra ponta, o preço internacional do petróleo bruto subiu 30% em duas semanas de guerra. Depois caiu e está num patamar cerca de 13% acima do que era em 24 de fevereiro. No Brasil, porém, os combustíveis subiram e permaneceram lá em cima, com aumentos recentes de 18% na gasolina, 25% no diesel, 16% no gás de cozinha, impactando toda a cadeia produtiva.

A guerra ocorre num período em que o sistema Petrobrás sofre, desde o golpe de 2016, com a política de desinvestimento de Temer-Bolsonaro e, por isso, está sem meios para evitar ou amenizar as consequências das altas internacionais.

De um lado, a empresa é hoje exportadora de óleo cru, amputada de suas refinarias – sucateadas e privatizadas – e de sua distribuidora de gasolina e gás. A política de preços acompanha o mercado internacional praticamente dolarizando o custo dos combustíveis internamente.

Sob a égide dos golpistas, o Brasil se tornou importador de derivados de petróleo: 30% de gás liquefeito, mais de 30% de diesel e 20% da gasolina, mercado altamente lucrativo operado por centenas de empresas privadas. Neste ponto é preciso lembrar que uma das razões da guerra é a pretensão dos EUA exportarem seus excedentes de Gás Natural Liquefeito, extraído de xisto, não apenas para a Europa, substituindo o gás russo, mas também para o Brasil – o porto de Santos já está sendo preparado, na mira da privatização, para recebê-lo.

Por outro lado, três fábricas de fertilizantes da Petrobrás foram fechadas ou privatizadas (na Bahia, Sergipe e Paraná) e foi paralisada a construção de outras três, no Mato Grosso, Espírito Santo e Minas Gerais. Com isso, Temer-Bolsonaro deixaram o Brasil completamente dependente sendo, hoje, o único país do mundo que possui uma extensa produção agrícola, mas não tem autonomia em fertilizantes.

E do mesmo modo que usou a pandemia para “passar a boiada” nos direitos, Bolsonaro quer usar a guerra para autorizar a exploração do potássio em terras indígenas, na Amazônia e em assentamentos da reforma agrária (ver OT 897).

Edison Cardoni

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