A operação de fuga para a Bolívia

A mega operação de fuga do senador boliviano Roger Pinto, processado por corrupção e asilado na embaixada brasileira em La Paz, merece reflexão. O que significa a operação feita por um diplomata brasileiro em conexão com um senador do PMDB e a direita boliviana, às costas de ambos governos?

Em maio de 2012, o senador Roger Pinto obteve asilo diplomático do embaixador brasileiro Marcel Fortuna Biato, que só depois informou o Itamaraty. Sem salvo conduto do governo da Bolívia para sair do país, Pinto permaneceu na embaixada. No último dia 25, sob o comando do encarregado de negócios da embaixada, Eduardo Sabóia, ele entrou em território brasileiro, escoltado por fuzileiros navais destacados para a embaixada, e recebido por policiais federais, com o senador, Ricardo Ferraço (PMDB-ES) que foi buscá-lo no jatinho de um industrial “amigo”.

Dilma não sabia de nada. Mas o senador do PMDB, partido da coalizão de governo, sabia e operava. Dilma demitiu o chanceler Antonio Patriota e retirou dos seus postos Biato e Sabóia. Era o mínimo a fazer. Mas o que este episódio revela? Desde as jornadas de junho, há uma nova situação no país, marcada pelas mobilizações de massa. Mas já nas passeatas  para comemorar a vitória da redução das tarifas de transporte,setores da direita começaram a mostrar a cabeça. Foi nessa situação que Dilma chegou a propor um plebiscito pela Constituinte exclusiva para fazer a reforma política, mesmo se recuou depois.

Hoje, a situação não é a mesma daquelas mobilizações. Mas o fosso que apareceu entre as ruas e as instituições esta aí. Para os reacionários e o imperialismo, “ouvir as ruas” é uma moda que não pode pegar.

Agora, a mídia quer transformar Sabóia, o organizador visível da fuga do senador, em herói, defensor dos direitos humanos. O boliviano foi recepcionado pelo senador Ferraço, do mesmo PMDB do vicepresidente Temer que sabotou a proposta de Dilma de plebiscito pela Constituinte.

Mera coincidência?

“Os dois fuzileiros navais que foram destacados para a operação de transporte de Pinto para a fronteira, assim como os adidos militares que trabalham na Embaixada do Brasil em La Paz, informaram aos seus superiores hierárquicos no País sobre a movimentação em andamento” (OESP 26/08). Amorim, o ministro da Defesa, nada sabia, mas a cúpula das Forças Armadas,sim. A mesma que impede o acesso da Comissão da Verdade aos arquivos da ditadura e até proíbe a Comissão do Rio de Janeiro de entrar nas dependências do DOI-CODI.

E não termina aí. Segundo a revista “Carta Capital”, setores de direita e o deputado Jair Bolsonaro, de outro partido da coalizão, o Partido Progressista (PP), preparam a “Operação 7 de Setembro”, com uma ONG “Brazil! No Corrupt”. Juntando os pontos podemos chegar a uma conclusão:setores antipopulares que querem desestabilizar a situação a seu favor, estão alojados no governo de coalizão, operam e sabotam o próprio governo desde assuas posições no interior das instituições do Estado, no PMDB que controla o Congresso Nacional, no Itamaraty que não tem nada de neutro, para não falar da cúpula da Policia Federal e das Forças Armadas.

É urgente romper com a subordinação às instituições desmoralizadas nas ruas. É hora de dar a palavra ao povo para uma Constituinte que faça a reforma política do Estado de cabo-a-rabo. É hora de avançar na democracia para abrir caminho às mais profundas reivindicações da maioria oprimida do país.

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