A palavra à militante palestina Khaleda Jarrar, libertada após três anos de prisão

Reportagem e entrevista realizadas pelos correspondentes do Comitê Internacional de Ligação e Intercambio (Cili) na Palestina. Publicado em Paris, França, por Informações Operárias de 23 de dezembro de 2021.

Após três anos de detenção arbitrária, a militante palestina Khaleda Jarrar saiu da prisão israelense de Damon, perto de Haifa, em 26 de setembro de 2021. Ela foi acusada de pertencer à Frente Popular de Libertação da Palestina, FPLP (¹), fato que sempre negou. Ela está em liberdade entre lágrimas e tristeza. Durante sua prisão, sua filha, Suha, morreu com problemas no coração em 11 de julho último. As forças de ocupação israelenses impediram que a mãe participasse do funeral. Ao sair da prisão, Khaleda foi ao cemitério e disse em frente ao túmulo da filha: “Sobre a tumba, repousa a bandeira palestina; eles me impediram de vir ao funeral e dizer adeus. Mas agora te envio beijos e rosas”.

Determinada a seguir na luta contra a ocupação, Khaleda Jarrar nos recebeu calorosamente em sua casa em Ramala, na Cisjordânia, para uma entrevista. “Eu faço parte do movimento nacional palestino, faço parte do povo palestino. Não tenho nenhum papel nem posição dirigente na FPLP”, insistiu. “Em 1998, eu decidi estudar na universidade de Birzeit, perto de Ramala. Foi quando me juntei à luta nacional contra a ocupação, às ideias progressistas de esquerda, e aderi às lutas dos povos contra o colonialismo. Participei das manifestações estudantis contra a ocupação e somos perseguidos por defender os direitos dos trabalhadores. O movimento estudantil da universidade de Birzeit foi um movimento muito ativo contra a ocupação israelense”. Assim começou o encontro.

P: Você pode falar sobre sua atividade entre as mulheres palestinas e os detentos nas prisões israelenses?

Nós começamos, eu e meus companheiros, iniciando projetos agrícolas e econômicos para mulheres palestinas em diversas regiões, inclusive nos campos de refugiados. Estes projetos contribuíram para criar oportunidades de trabalho para as mulheres palestinas e participar da construção de uma economia nacional independente das autoridades de ocupação, bem como desenvolver e afiar a consciência e convicções nacionais das mulheres na luta contra a ocupação – sempre em cooperação com a universidade de Birzeit. Este projeto durou vários anos. Mais tarde, participei da Andameer, uma associação sediada em Ramala que acompanha os prisioneiros palestinos e cuida de seus problemas. Eu era uma das diretoras. Agora, a associação foi declarada ‘ilegal’ pelos israelenses, após uma decisão de proibir seis associações palestinas que eles qualificaram como ‘terroristas’ e que acusam de serem ligadas à FPLP.

P: Você e seu marido não estão exaustos de tanta luta? Vocês foram presos várias vezes…

Não estou nenhum pouco cansada. Quem está exausto deve desistir. Ghassan, meu marido, meus companheiros, meu povo não estão nem um pouco exaustos. Meu marido foi preso quinze vezes. Meus filhos estão acostumados às prisões e à atmosfera de medo. Não tememos mais a ocupação. Após uma grande manifestação de mulheres em Ramala, em 1989, fui separada durante três meses de minha família. Fui acusada de apedrejar soldados israelenses. Fui presa e libertada um mês depois junto com outras vinte e duas mulheres.

Em 2006, após me tornar membro do Conselho Legislativo Palestino, as forças de ocupação decidiram me deportar durante seis meses de Ramala a Jericó. Em abril de 2015, o exército israelense invadiu minha casa. Nesta época, os israelenses me acusaram de pertencer à FPLP. Embora eu sempre tenha negado essa ligação, um tribunal militar me condenou a 15 meses de prisão.

Em 2017, os israelenses invadiram minha casa de novo e fui presa. Desta vez, fui condenada a dois anos de detenção. Sem nenhuma prova, o tribunal militar me acusou de ser organizadora e participante da FPLP. Só fui libertada em 26 de setembro passado.

P: A ocupação israelense teme a esse ponto a resistência?

Israel teme o povo palestino. Teme o movimento nacional palestino e os militantes deste movimento. Os israelenses temem as organizações civis palestinas; temem as organizações palestinas de defesa dos direitos humanos que denunciam as ações opressivas da ocupação. Este é o motivo da interdição de seis organizações palestinas que defendem os direitos humanos.

P: O povo palestino vê a Autoridade Palestina como uma autoridade fantoche que coopera com a ocupação? Como você encara esta questão?

A Autoridade Palestina deveria proteger o povo palestino, mas ela não faz isso. Na Cisjordânia, estabeleceu um sistema de repressão interno contra todo protesto em relação à ocupação. A cooperação é rechaçada, qualquer que seja a forma e quaisquer que sejam os argumentos. A divisão palestina criou uma situação de desespero e frustração, não apenas na Cisjordânia, mas também na autoridade do Hamas (²) na Faixa de Gaza. O Hamas ataca as liberdades democráticas, a liberdade de expressão, proíbe as manifestações por emprego, persegue as mulheres.

Vamos lutar para se libertar da ocupação israelense mas também de uma situação como a que se chegou na África do Sul? Nós queremos nos livrar do colonialismo sionista, mas queremos uma alternativa palestina que defenda as liberdades, a liberdade de expressão, a democracia e a liberdade das mulheres e dos trabalhadores. Não queremos um regime ditatorial que oprime os direitos das mulheres e dos homens.

Diante do “acordo de segurança” atual entre Israel e a Autoridade Palestina, que é rejeitado por todo o povo palestino, colocamos a seguinte questão: qual é o papel desta Autoridade?

Existe uma forte condenação da AP e da corrupção que ela estimula. O “acordo de segurança” com Israel é rejeitado pelo povo, e é muito perigoso. Em consequência, existe uma grande demanda do povo palestino exigindo o fim deste “acordo” com as forças de ocupação israelenses.

P: Agora, depois de recuperar sua liberdade, como você vê o futuro?

O que eu quero é libertar a minha pátria, libertar as mulheres. A liberdade, a justiça social e a democracia na Palestina. Nós queremos que a resistência prossiga contra a ocupação e os colonos. Nós queremos que todo o povo palestino viva sob um programa nacional unificado contra a ocupação, um programa que garanta o direito ao retorno de todos os refugiados palestinos. Nós queremos o direito para todos os palestinos participarem da luta nacional. Queremos que os trabalhadores e os filhos mais humildes do povo vivam com dignidade!

P: O que você acha da última Intifada dentro das fronteiras de 1948 (no interior do Estado de Israel)?

Eu estava presa nesta época. Esta sublevação provou que que a identidade palestina dentro das fronteiras de 1948 (³) não pode ser anulada. Os palestinos dentro das fronteiras de 1948 não aceitarão uma pseudo-coexistência, um apartheid sionista. A Intifada de maio último dentro das fronteiras de 1948, provou que nós somos um só povo com um só destino. Sem ajuda externa para a luta a juventude jogou um papel preponderante em todo o território da Palestina histórica. Ela deixou para trás os dirigentes tradicionais para ir ao confronto em Haifa, Nazaré, Acre, Jafa, Ramala, Gaza e em todas vilas e cidades palestinas de toda a Palestina histórica.

P: Do seu ponto de vista, qual é a solução?

A solução é clara, a solução de dois estados acabou. A solução que se apresenta agora aos Judeus e Árabes deste país é a de um único Estado palestino democrático sobre todo o território palestino, sem sionismo nem racismo.


Notas de O Trabalho

(¹) A Frente Popular de Libertação da Palestina surgiu em 1967, quando passou a integrar a Organização para a Libertação da Palestina, então liderada por Yasser Arafat. Em 1993, a FPLP se opôs ao “acordos de Oslo”, assinados entre a OLP e o Estado de Israel, com patrocínio do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. Com a política de “dois estados”, eles deram origem à Autoridade Nacional Palestina. A FPLP elege representantes ao Conselho Legislativo Palestino, um parlamento unicameral de 132 membros. Khaleda Jarrar é membro do Conselho desde 2006.

(²) Hamas, movimento islamista palestino, criado em 1987, atualmente governa Gaza.

(³) A Intifada (levante) deste ano se desenvolveu dentro e fora das fronteiras de Israel, Estado proclamado pelo sionismo em 1948, e que se expandiu desde então.

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