Acordo militar com os EUA ameaça soberania nacional, democracia e Venezuela

Os governos do Brasil e Estados Unidos assinaram em 8 de março o Acordo de Pesquisa, Desenvolvimento, Teste e Avaliação (RDT&E, na sigla em inglês). Foi firmado em jantar realizado no Comando Sul (U.S. Southern Command), na Flórida, com a presença de Trump e seu vassalo Bolsonaro.

O Comando responde por ações das Forças Armadas dos Estados Unidos na América Central, América do Sul e Caribe.

Assinaram também o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Brasil, Tenente-Brigadeiro Botelho, e pelo comandante do Comando Sul dos EUA,  Craig Feller. O acordo, que começou a ser negociado logo depois do golpe de 2016 – o general Braga Neto, agora da Casa Civil, é um de seus negociadores – deverá servir de “guarda-chuva” para todas as ações militares na América do Sul. Artigo de José Luís Fiori e William Nozaki  chama a atenção para o problema.

Na ocasião da assinatura, Craig Feller declarou: “assinamos um acordo histórico hoje, que abrirá caminho para o compartilhamento ainda maior de experiências e informações. Trabalhamos muito próximos das nações aliadas”, além disso fez referências explícitas à Venezuela e à Bolívia (Valor Econômico, 8/03).

O objetivo central e imediato, claro, é a Venezuela. Mais ainda, é dentro dessa mesma ofensiva, que melhor se entende a nomeação do General Mourão para o comando unificado do Conselho da Amazônia, do qual foram excluídos todos os governadores da região, que ficarão afastados de informações e decisões, como uma eventual ação contra a Venezuela.

Uma situação que parece cada vez mais verossímil depois que o governo brasileiro retirou seus diplomatas da Venezuela e notificou vários funcionários e diplomatas venezuelanos de que devem abandonar o Brasil no prazo de 60 dias. É uma escalada, depois do acordo com os EUA de liberação do lançamento de foguetes e satélites da Base de Alcântara, e da transformação do Brasil em aliado preferencial extra-OTAN.

No cenário econômico mundial catastrófico, agravado pela pandemia, que leva os governos a crises sem precedentes, as guerras são um dos pratos preferidos do imperialismo para unificar os senhores em tempos de crise. E foi o que Trump anunciou no seu discurso sobre o “Estado da União”, em fevereiro, quando mencionou o “cerco, o bloqueio naval ou o ataque direto à Venezuela, em tempo de driblar a epidemia, a recessão e a crise de sua indústria do petróleo”, sendo aplaudido pelos congressistas republicanos e democratas. O mesmo também pode servir ao governo brasileiro, que já conta com militares nos principais cargos, e que poderia passar a governar por “decreto” e por cima do Congresso Nacional, em caso de uma “emergência de segurança nacional” desse tipo. É só o que pode oferecer o imperialismo: a destruição, a exploração, a guerra e a pilhagem.

Tiago Maciel

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