Declaração do Secretariado Internacional da 4ª Internacional

15 de janeiro de 2021

No Capitólio, conhecido como “templo da democracia estadunidense”, na capital federal dos Estados Unidos, Washington, em 6 de janeiro de 2021, um ataque putschista deixou cinco mortos, entre eles um policial.

Às dezenas de milhares, a pedido de Trump, manifestantes se reuniram, vindos de todo o país, para se opor à certificação da eleição de Biden pelo Congresso. Esses eleitores de Trump são geralmente desempregados, trabalhadores desclassados e membros de camadas médias empobrecidas, desesperadas e revoltadas contra as “elites” de Washington.

Trump discursou denunciando o resultado da eleição, mas também seus amigos republicanos a quem acusou de traição, convocando os manifestantes a irem ao Capitólio, e foi atendido por uma parte deles. Várias centenas, supremacistas brancos, conspiradores do QAnon, milicianos de extrema direita, ultrapassando a polícia com alguma cumplicidade, entraram à força dentro do edifício, invadindo a sessão do Congresso, forçando senadores e deputados a fugir do Capitólio. O pânico tomou conta de todas as principais cúpulas dirigentes dos Estados Unidos, todos com medo que isso possa levar ao caos.

Biden denunciou uma “insurreição”, mas Pence, o vice-presidente de Trump, também denunciou a ação, assim como muitos parlamentares republicanos, como o líder dos senadores ou como Ted Cruz, o líder da minoria radical republicana.

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Fato histórico, a Associação de Empresários, que reúne as maiores corporações dos Estados Unidos, imediatamente pediu “ao presidente e às autoridades que acabem com o caos e facilitem uma transição pacífica”. No dia anterior, dez ex-chefes do Pentágono, republicanos e democratas, incluindo Dick Cheney, o vice-presidente de Bush, e Donald Rumsfeld, o homem da Guerra do Golfo, solicitaram em conjunto ao Congresso que certificasse a vitória de Biden. Da mesma forma, 170 dos maiores empresários estadunidenses fizeram o mesmo.

Após um hiato de seis horas, o Congresso certificou em regime de urgência a vitória de Biden. Em sua declaração, Biden pediu unidade e estendeu a mão aos republicanos. Em 7 de janeiro, Trump teve que se manifestar contra a violência, admitindo sua derrota, e disse que faria parte da transição pacífica com o novo governo.

O pavor nas cúpulas dos Estados Unidos diante do salto para o desconhecido
A fratura, antiga e abertamente revelada na eleição de Trump, continua a se aprofundar. Em 2016, Trump foi eleito porque uma parte do eleitorado da classe trabalhadora, que votou nos democratas nos estados desindustrializados do “cinturão de ferrugem”, votou em Trump como uma rejeição a todas as “elites” de Washington, mas também contra a direção da AFL-CIO, que apoiou as relocalizações industriais e fechamentos de fábricas. Um terço dos empregos industriais foram destruídos nos Estados Unidos desde 1980!

É a crise em todos os níveis. Esta é a crise da classe dominante estadunidense. O Partido Democrata já havia se dividido nas eleições primárias com a candidatura de Sanders, e agora com a “esquerda” contestando as políticas de Biden, que busca um acordo com os republicanos. Aqueles que votaram em Biden o fizeram para expulsar Trump, e logo se verão confrontados com as ações que Biden irá tomar. Ele, por exemplo, já indicou que não é a favor da Seguridade Social pública para todos.

O Partido Republicano sai dilacerado pelo que aconteceu em 6 de janeiro no Capitólio. Está em vias de implodir, com a multiplicação de frações no seu interior que se opõem vigorosamente. O Estado e as instituições estadunidenses estão em crise e, em particular, o bipartidarismo, a forma clássica de dominação política nos EUA, mortalmente golpeada.

Crise democrática e social
Em 2020, após a morte de George Floyd, surgiram repentinamente mobilizações históricas de negros, latinos, jovens brancos, grandes setores sindicais. Esta não é a repetição das grandes marchas dos anos 1960. Obviamente, essas mobilizações são contra o racismo institucional, mas abrangem todas as questões da sociedade estadunidense: pobreza, precariedade, desemprego, falta de seguridade social … Essas mobilizações são produzidas em oposição às cúpulas da AFL-CIO, engajadas no apoio a Biden, mas muitos sindicatos e sindicalistas estiveram presentes com representatividade nos protestos. Essas mobilizações nos Estados Unidos são uma expressão concentrada de toda a situação mundial e colocam o lugar do proletariado dos Estados Unidos no centro da luta contra o imperialismo.

Pois a fonte desta crise mundial é, antes de tudo, a crise de todo o sistema imperialista, que se concentra nos Estados Unidos. Ele é vítima da dominação sem compartilhamento que exerce à escala global. A produção maciça e artificial do dólar como moeda de reserva mundial, sem relação com a produção de riquezas – a indústria nos Estados Unidos está sendo desmantelada – ressalta o caráter parasitário de toda a economia mundial.

O déficit comercial dos EUA está aumentando, transferindo o peso de sua dívida para todos os outros países, agravando os desequilíbrios mundiais. E, em última instância, ele pega o imperialismo estadunidense pela garganta. Este não encontra outra saída a não ser atacar todos os países, especialmente a China e a Europa, por meio de uma guerra comercial violenta, para forçar seus concorrentes a reequilibrar o comércio a seu favor e abrir mercados para seu capital. Mesmo assim, continua, goste ou não, a desertificar o tecido industrial dos próprios Estados Unidos e a jogar milhões de trabalhadores nas ruas.

Os trustes, na guerra de competição que fazem entre eles na arena mundial, atropelam alegremente os Estados nacionais, que ficam apenas com a função de manter a “ordem” e entregar centenas de bilhões a representantes de monopólios para ajudá-los a reestruturar suas cadeias de valor. É por isso que o protecionismo de Trump era uma ilusão utópica. E amanhã Biden será confrontado ao mesmo problema.

Porque o capital busca a realizar o valor permanentemente, e na fase de sua agonia, o faz principalmente na especulação, através dos capitais fictícios, e não na produção de riqueza. Não existe capitalismo bom ou mau. O capitalismo na etapa do imperialismo é o parasitismo. Essa é a base da crise fundamental nos Estados Unidos e no mundo.

Uma crise mundial
Esta situação de crise nos Estados Unidos é mundial, dado o lugar do imperialismo estadunidense. O pânico tomou todas as cúpulas e todos os governos, eles próprios em crise, porque se trata do lugar do imperialismo dominante e, portanto, da “ordem” mundial (o que não significa o desaparecimento dos imperialismos europeus, embora estejam moribundos e subservientes ao imperialismo dos EUA). Esse pânico é fortemente agravado pelo que se desenha nos Estados Unidos: a polarização com, de um lado, as milícias de extrema direita, e de outro o surgimento massivo de manifestações de jovens brancos, negros, latinos, sindicalistas.

Não vamos esquecer que em 2019, uma onda revolucionária se desdobrou no planeta. Da Argélia ao Chile passando pelo Líbano, Equador, Hong Kong, os trabalhadores e os povos – e em particular a juventude – se levantaram por sua sobrevivência contra os regimes subservientes ao imperialismo, para dizer-lhes: “Fora! Fora todos!”. É esse mesmo rechaço que começou a se expressar nas mobilizações na Europa.

Instrumentalizando a pandemia, o fechamento de escolas e universidades em particular, tornou-se uma alavanca para o imperialismo bloquear qualquer perspectiva para a juventude. O lockout econômico foi o sinal para uma política de liquidação generalizada de todos os direitos adquiridos, travando a juventude com força total com a proibição de estudar, trabalhar e viver. Surgindo das profundezas, a enorme revolta nos Estados Unidos – os jovens na liderança, com o grito de “Não consigo respirar” – em junho de 2020 mobilizou os jovens do mundo. Desde então, as manifestações da juventude que se rebelam contra esse estado de coisas – sempre que ocorrem – têm sido interpretadas, com razão, pelos governos como uma ameaça à ordem repressiva e à opressão.

E essa crise nos Estados Unidos chega de forma abrupta, quando a humanidade já se depara com uma situação complexa e difícil. Em 2020, uma pandemia se abate sobre o mundo: quase 2 milhões de mortos, 85 milhões de pessoas infectadas, um pesado tributo pago principalmente pelos mais pobres, os mais precárizados, que vivem em más condições de higiene e saúde uma vez que os hospitais sofreram cortes drásticos em todos os países do mundo e estão sobrecarregados.

A pandemia não é a causa da crise que atravessa a humanidade
A pandemia é uma expressão da crise de decomposição do capital na fase do imperialismo. Na medida em que o desenvolvimento da tecnologia e da ciência abre possibilidades para atender às necessidades de toda a humanidade, o capital afirma-se, aos olhos de bilhões de mulheres e homens como um obstáculo a qualquer desenvolvimento das forças produtivas e de progresso, e como organizador da destruição das forças produtivas da humanidade, do desenvolvimento das forças destrutivas, do parasitismo, enfim, da putrefação!

É ilustrativo o fato de que a indústria de armamentos – isto é, as forças de destruição – é uma das principais forças motrizes da economia capitalista. O montante das despesas com armamentos em 2019 foi próximo a 2 trilhões de dólares, um aumento de quase 4% em relação a 2018. Observem que os Estados Unidos representam 40% desses gastos militares. O imperialismo é militarismo e guerra. As guerras se multiplicam em todos os continentes e especialmente na África, com a intervenção das potências imperialistas direta ou indiretamente, atingindo as populações, enquanto “sanções” são impostas brutalmente aos países como a Venezuela ou o Irã, asfixiando os povos. As intervenções militares imperialistas, tanto quanto a pilhagem organizada pelos monopólios, desorganizam nações e Estados.

Para a 4ª Internacional, o capital é totalmente responsável pela situação atual e pelas consequências catastróficas da pandemia. Para ela, limitar-se a censurar governos por terem demonstrado negligência ou má gestão, ou por não terem tomado as medidas corretas, ou mesmo por não terem feito o suficiente … é evitar um fato principal: a política de todos os governos, em todo o mundo, tinha apenas um objetivo, preservar os interesses do capital financeiro, esmagando o valor da força de trabalho, da qual os sistemas de saúde são parte integrante.

Diante da raiva que ressoa em âmbito internacional, os governos em pânico instrumentalizaram a pandemia com o objetivo de aterrorizar os povos, amordaçá-los, fazer avançar suas contrarreformas destrutivas por meio de ataques ao que eles chamam de “custo do trabalho”, na tentativa de esmagar trabalhadores e a classe operária, jogando centenas de milhões de trabalhadores e jovens nas ruas em todo o mundo. Eles dão centenas de bilhões aos representantes dos monopólios imperialistas para ajudá-los a se fundir e concentrar, em detrimento do tecido das pequenas e médias empresas. Buscam acabar com o mundo pós-1945 que viu, em todos os continentes, as massas e os povos explorados, através da sua luta revolucionária, conquistar direitos e garantias. Eles precisam, portanto, hoje, para aniquilar a força de trabalho e tentar restaurar a taxa de lucro, destruir todas essas conquistas.

Os partidos que se declaram de “esquerda”, em nome da recuperação econômica e da emergência sanitária implementam a mesma política quando estão no governo, ou a apoiam quando estão na oposição. Se os “velhos partidos” que diziam falar em nome dos trabalhadores são rejeitados, sobretudo na Europa, em certos partidos de países dominados esta situação provoca crises, resistências, rupturas. As cúpulas dirigentes das confederações sindicais, em nome da crise sanitária e econômica, em muitíssimos casos, concordam em apoiar os planos do governo, pondo assim em causa a própria existência dos sindicatos, enquanto dentro deles muitos militantes e dirigentes em todos os níveis querem organizar a resistência contra os fundamentos do sistema imperialista de exploração e levantam, no seu desenvolvimento, a questão do poder. Em muitos países, os sindicatos de base ou de certos setores vão além das instruções das cúpulas burocráticas para participar da luta de classe, buscando assim preservar suas organizações ameaçadas.

O capital é responsável
Aos olhos de um número crescente de trabalhadores, ativistas e povos em todos os continentes:
O capital é responsável pelas guerras nos quatro cantos do mundo – e pelo desenvolvimento do terrorismo alimentado pelo imperialismo – que empurram dezenas de milhões de seres humanos para as estradas do exílio.

O capital é responsável pelo empobrecimento crescente da humanidade: 2,8 bilhões de pessoas, ou quase metade da população mundial, vivem com menos de 2 euros por dia. Mais de 50% dentre eles na África. 876 milhões de seres humanos são analfabetos, dois terços dos quais são mulheres.

O capital é responsável pelo desenvolvimento de doenças para as quais existe vacina, como o sarampo. Esta doença aumentou mais de 50% entre 2016 e 2019. No ano passado, 207.500 pessoas morreram de sarampo, principalmente na África. 230 milhões de pessoas estão infectadas com a malária, que mata mais de 400.000 pessoas a cada ano, 85% delas na África Subsaariana, embora existam tratamentos para esta doença. Na África Ocidental, o vírus Ebola matou 15.000 pessoas.

O capital é responsável pela morte no trabalho de 2,3 milhões de pessoas a cada ano, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho.

O capital é responsável pelas políticas destrutivas que há muito tempo atingem todos os continentes. A política de pilhagem de recursos naturais e de endividamento desagregou muitos países ao redor do mundo, especialmente na África, destruindo os serviços de saúde. Na América Latina e no Caribe, o PIB caiu quase 8% em 2020, a maior contração em 120 anos. Nos países imperialistas, a população é atingida porque a situação que prevalece nos países oprimidos os afeta. Essa política de fato prejudicou também os serviços públicos e hospitais nos países capitalistas desenvolvidos, como evidenciado pelo fato de que na França – um país outrora famoso por seu sistema de saúde – mais de 100.000 leitos foram fechados em 20 anos. Na Alemanha, 600 hospitais foram fechados no mesmo período. E hoje, em meio a uma pandemia, esses governos a serviço do capital continuam fechando leitos e cortando postos de trabalho hospitalares.

O capital é culpado pelo fato de 448 milhões de crianças sofrerem de desnutrição e fome. A fome mata 25.000 pessoas todos os dias, ou 9 milhões por ano! Contra a fome existe uma vacina: a comida. O capital é responsável por este massacre de 9 milhões de pessoas a cada ano, como atesta o diretor do Programa Alimentar Mundial da ONU que teme “uma pandemia de fome mais grave que a Covid-19”, anunciando que 270 milhões de pessoas estão caminhando perigosamente para a fome. E acrescenta: “270 milhões de nossos vizinhos estão hoje à beira da fome. Por outro lado, há 400 trilhões de dólares em riqueza no mundo (…) e só precisamos de 5 bilhões de dólares para salvar 30 milhões de vidas da fome”. Sim, mas o que domina em escala mundial são as leis do capital!

As leis do capital, é aumentar os lucros. Os 651 bilionários estadunidenses ficaram ainda mais ricos desde o início da pandemia: suas fortunas aumentaram em 1 trilhão de dólares desde meados de março. De acordo com o Institute for Policy Studies, “sua fortuna total em 7 de dezembro ultrapassou os 4 trilhões de dólares em comparação com os 2,9 trilhões em 18 de março. Nunca antes os Estados Unidos viram tal acumulação de riqueza em tão poucas mãos.”

Esta é a realidade da lei do capital. Não é o Covid-19 e a pandemia o responsável por este massacre social e humano, mas o capital!

A crise nos Estados Unidos, com todas as suas repercussões mundiais, evidencia uma vez mais o impasse ao qual o regime de propriedade privada dos meios de produção arrasta a humanidade: a barbárie.

A situação mundial que se expressa na atual crise dos Estados Unidos é marcada, por um lado, pela marcha para a barbárie engendrada pelo capital e, por outro, pela mobilização de trabalhadores e povos que querem viver e, por isso, engajam-se no caminho do combate para acabar com o sistema de opressão que os está esmagando. Para a 4ª Internacional, não há tarefa mais urgente do que pôr em contato os militantes empenhados nesta batalha na linha de frente nos Estados Unidos, com todos aqueles que, à escala mundial, estão empenhados nesta via a fim de que todos sejam informados, na hora da ação, da experiência viva de cada um.

A 4ª Internacional rejeita os apelos dos regimes subservientes ao capital para a “união nacional” aberta ou mascarada, contra a pandemia e a crise econômica, porque a sociedade está dividida em classes sociais, isto é, com interesses opostos, ou seja, irreconciliáveis ontem como hoje. A 4ª Internacional se situa no terreno da maioria explorada contra a minoria exploradora. Para a 4ª Internacional, portanto, o único caminho é a independência em relação a todos esses regimes subordinados ao capital. Para a 4ª Internacional, as coisas são claras: nenhuma confiança, nenhum apoio sob qualquer forma ao estado de emergência sanitária.

É por isso que a 4ª Internacional e suas seções estão engajadas com outros militantes, organizações, correntes, na organização de uma força política independente que se propõe a ajudar os processos da luta de classe a abrirem caminho.

A 4ª Internacional não pode avalizar subterfúgios – qualquer que seja o nome que lhes seja dado – destinados a reparar o sistema capitalista, isto é, a prolongar sua agonia. Por isso participa da luta dos trabalhadores e dos povos contra o capital e os regimes que lhe estão subordinados.

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