Diretório do PT marca passo (*)

E, apesar da crise aberta, reafirma aliança com o PMDB.

Na principal votação, a reunião do Diretório Nacional de 20 de março retomou a ultra centralização inaugurada em 2012, das alianças nos Estados, dando mandato à Executiva Nacional na “ultima palavra” que antes era caso de discussão apenas no Diretório Nacional, mais amplo. Basicamente, o bloco que sustentou a eleição de Rui Falcão na presidência fez valer a sua maioria neste ponto.

A segunda votação, de resultado mais previsível, opôs o texto de conjuntura apresentado pelo novo secretário-geral deputado Geraldo Magela (PT-DF) com apoio daquele mesmo bloco mais a “Mensagem ao Partido”, contra a resolução alternativa das correntes Articulação de Esquerda e Militância Socialista.

Uma resolução nem tão alternativa assim, afinal, apesar de algumas frases à esquerda, ela reafirmava “os partidos com os quais pretendemos coligar, inclusive o PMDB”. Isso na mesma semana em que o acordo nacional com o PMDB apodrecia na seqüência de votações na Câmara dos Deputados, onde o seu líder, deputado Eduardo Cunha, alfinetava e derrotava o governo com a pauta da oposição (investigações na Petrobras etc.).

Markus Sokol, eleito pela chapa Constituinte Terra Trabalho e Soberania, absteve-se na votação dos dois textos. Em sua fala, partiu da crise com o PMDB para enfatizar a necessidade do PT, na campanha eleitoral, alçar-se e apresentar um “projeto de futuro” dialogando com o sentimento das ruas em junho, através da proposta do Plebiscito da Constituinte com um conjunto de reformas sociais e econômicas.

Sokol condenou as concessões ao “mercado” por conta do superávit primário, com o congelamento da renegociação da divida dos Estados e municípios que acentua a panela de pressão nos grandes centros, assim como o vergonhoso cortejo oficial dos ministros à enviada da Standard & Poor’s tratada como “missão de Estado”. Por fim, cobrou de ambos os textos a defesa dos dirigentes do PT presos e perseguidos na esteira da injusta sentença da Ação Penal 470. O presidente Rui Falcão acolheu esta última preocupação numa emenda ao texto de Magela.

“Desejo latente”

A Resolução final, apesar das habituais loas às ações governamentais, reconhece o caráter “inacabado da transição democrática”, o “desejo cada vez mais latente de realizarmos um conjunto de reformas estruturantes”, e “apóia a luta dos movimentos sociais e partidos democráticos pela convocação de uma Constituinte Exclusive e Soberana para realizar a reforma política”.

Mas pára aí, e não formula nenhuma recomendação ou sugestão ao governo. Na verdade, dissolve o impulso de mobilização, pois tudo se faria “através do debate político com os partidos da base aliada”, reafirmando “nossa opção pela política de alianças firmada”.

Todavia, a subordinação às instituições e às regras do Congresso que não quer mudar nada é um problema não resolvido no próprio DN.

Vários parlamentares, mesmo se não escrevem nas resoluções, falam que “com essas regras, não vai mudar o peso do PT no Congresso”. Outros quadros são conscientes da ligação da ofensiva estadunidense no continente (El Salvador, Venezuela) com as pressões do FED, o banco central dos EUA, contra a economia nacional, e alguns até questionam “a ausência de debate da política econômica, a incompreensível alta dos juros” etc.

Estes são “em cima”, alguns sinais de fumaça do fogo que consome a alma de muitos petistas, “embaixo”.

(*) Artigo publicado na edição nº 745 do jornal O Trabalho (26 de março a 9 de abril) com erro de edição no 1º parágrafo.

Artigo anteriorCinquenta dirigentes, parlamentares e sindicalistas convocam Ato Pela Constituinte
Próximo artigoAs cinquenta primeiras adesões ao Ato Nacional pela Constituinte