“É orar e agir!” Funcionários da Igreja Mundial estão em greve

Trabalhadores da Igreja Mundial cruzaram os braços

Sem pagamento dos seus salários, vales, plano de saúde e depósitos do FGTS, os chamados “obreiros” da Igreja Mundial do Poder de Deus, em São Paulo, e radialistas e jornalistas da Rede Mundial (emissora de rádio e TV mantida pela igreja) estão há 3 dias em greve. Os trabalhadores haviam aprovado estado de greve em assembleia realizada no dia 21 de outubro, com indicativo de paralisação a partir do próximo atraso de salário, que deveria ter caído na segunda (8). Sem o recebimento, cruzaram os braços já no início do dia 9.

“As pessoas falam que a gente tem que orar. É orar e agir! Continuem orando, mas se não tiver atitude aqui junto com o sindicato, não vai resolver”, afirma Patrícia*, que trabalha no atendimento, diretamente com a arrecadação de doações da igreja. Ela refuta a alegação de “dificuldades financeiras” por parte da instituição. “A gente trabalha com o carnê-boleto, no meio da central de orações, e a gente sabe que as pessoas continuam contribuindo, elas mandam comprovante no Whats App, fazem PIX, mesmo com a pandemia as doações nunca pararam. E a Igreja já está lotada de novo, no último feriado não tinha nem onde sentar, foi fila de doações nas maquininhas.”

Enquanto a Igreja atrasa pagamentos dos empregados em até 15 dias pelo menos desde 2019 – ou seja, muito antes da pandemia – o seu líder Valdemiro Santiago tem um patrimônio estimado de R$ 400 milhões, segundo a revista Forbes. “Isso mexe até mesmo com a fé da gente. Eu estou com cartões de créditos bloqueados, se eu não tivesse minha mãe e minhas irmãs, eu passaria fome com uma filha adolescente. E a gente vê as viagens internacionais, as mesas fartas”, explica Patrícia.

Ela se apresenta, além de funcionária, como serva da Igreja. Trabalhou 12 anos como voluntária, fazendo trabalho social com, por exemplo, entrega de cestas básicas e com o grupo jovem da entidade religiosa. “Eu contribui com o reino de Deus”, afirma. Foi contratada há quatro anos, e há 3 convive com atrasos de salários constantes. “Mas se a gente atrasa dois minutos na volta do almoço, é descontado na folha. Eu tenho desconto de R$1,50 por causa de dois minutos que me atrasei. Agora, minha filha precisou ir no dentista e o plano não passou. Estou de férias e até agora não recebi nada! Isso não é justo, chegou no nosso limite.”

Assembleia decide a greve

Na sexta, dia 12 de novembro, haverá tentativa de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho. O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão no Estado de São Paulo (Radialistas-SP), o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), e o Sindicato dos Empregados em Instituições Beneficentes, Religiosas e Filantrópicas de São Paulo (SEIBREF-SP) têm organizado e apoiado o movimento.

“Amanhã (sexta) eu faço aniversário. Eu não tenho dinheiro para fazer um bolinho”, conclui a obreira Patrícia.

Eduardo Viné Boldt e Priscilla Chandretti

*nome fictício

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