EUA: ferroviários enfrentam Biden e Congresso

Trabalhador ferroviário nos EUA

O anúncio de uma greve nacional dos ferroviários para 9 de dezembro abalou todo o sistema político, bipartidário, dos Estados Unidos, além de ser um fato transcendental para a classe trabalhadora que, em vários setores, vem se mobilizando no último período.

Os ferroviários tiveram seu direito de greve suprimido pela lei ‘Taft-Hartley’ de 1947, que permite às empresas que contratem fura-greves, demitam grevistas, além de prisões e multas. Agora os patrões, o governo Biden e as duas casas do Congresso, alegando que a greve ferroviária na atual conjuntura levaria ao colapso todo o sistema econômico, utilizam essa lei.

As ferrovias nos EUA movem cerca de 30% da carga e a associação patronal do setor estima que uma greve nacional causaria uma perda de mais de dois bilhões de dólares diários. As empresas ferroviárias tiveram 21 bilhões em lucros nos primeiros nove meses de 2022. Para custear o seguro doença por sete dias, principal reivindicação da anunciada greve dos trabalhadores, o setor gastaria 321 milhões de dólares anuais (1,5% de seus lucros). O problema não é a reivindicação em si, mas a vontade dos patrões de dizimar a força dos sindicatos e da classe trabalhadora.

Essa greve não é uma qualquer. Ela se daria num momento em que se juntam a crise econômica – guerra comercial com a China, aumento da inflação e uma possível recessão – crise social – aumento da pobreza e decomposição social – e a crise do sistema político e institucional revelada pelas eleições de “meio de mandato” de 8 de novembro.

Um movimento que vem de baixo
Temos visto um movimento de organização de sindicatos e de greves localizadas no seio da classe trabalhadora que exerce uma pressão sobre a cúpula sindical (AFL-CIO) até agora implicada na política oficial do Partido Democrata. Esse despertar é uma ameaça para a frágil estabilidade do sistema político.

O sindicato Railroad Workers United (RWU) decidiu em janeiro de 2022 organizar a greve nacional ferroviária. Em 2 de dezembro republicanos e democratas, na Câmara e no Senado, se unificaram com a patronal contra os trabalhadores. O sindicato em sua declaração afirma: “Os democratas e os republicanos castigam os ferroviários. O RWU considera desprezível, mas não surpreendente, que ambos os partidos optassem ontem por colocar-se ao lado das grandes empresas, votando contra os interesses dos trabalhadores não uma, mas duas vezes, em questão de horas. (…) Em primeiro lugar, atendendo aos desejos do presidente Biden e da presidente da casa, Nancy Pelosi, a Câmara votou a favor de um contrato contra o qual havia votado a maioria dos ferroviários de carga dos EUA. O Senado rapidamente fez o mesmo. (…) Os ferroviários, como todos os trabalhadores, deveriam ter o direito de negociar coletivamente e participar livremente em greves se os membros dos sindicatos considerem oportuno e o decidam democraticamente. Poucas horas depois que a votação do Senado selou nosso destino na quinta-feira à tarde, sofremos uma segunda derrota, dessa vez pelas mãos do outro partido das grandes empresas, o Republicano.”

Assinale-se que os líderes do Partido Democrata manobraram contra o “caucus” (bloco) progressista que exigiu a aprovação de pagamento de sete dias por licença enfermidade, aceitando a proposta, mas numa lei separada da principal que declara a greve ilegal. Quando ambas chegaram ao Senado, passou a que proibia a greve, mas não a que obrigava os patrões a pagarem sete dias por enfermidade. Esse ponto era chave, ainda que existam muitas outras reivindicações na convenção coletiva em discussão.

Os trabalhadores ainda não deram a sua última palavra e a greve foi planejada para 9 de dezembro. A lei adotada nas duas casas do Congresso significa que essa greve é ilegal, dando ao governo o poder de militarizar o sistema ferroviário. O confronto entre os patrões apoiados pelo governo Biden e Congresso e os trabalhadores exige a mais ampla unidade de todos os trabalhadores em luta, inclusive dos desempregados e as comunidades pobres e oprimidas. Um desafio para os dirigentes da AFL-CIO e demais sindicatos e também para o “caucus” progressista do Congresso.

3 de dezembro de 2022
Rodrigo Ibarra, desde San Francisco

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