Ford: a lógica implacável do capital

Trabalhadores protestam contra o fechamento da fábrica em Taubaté (SP). Foto: Edilson Dantas

O fechamento das plantas da Ford no Brasil não é um “raio no céu azul”. De presença centenária no país, a Ford obtinha uma bela fatia de seus lucros mundiais explorando a mão de obra mais barata aqui existente e com benesses (isenções, subsídios, incentivos) bilionárias dos cofres públicos da União, Estados e municípios.

Não faltaram notas de repúdio de centrais sindicais, denúncias de falta de uma política industrial no país, agitação de governadores e prefeitos para encontrar alguma solução. Houve até quem dissesse, diante do deboche do presidente – “saiu porque num ambiente de negócios, quando você não tem lucro, você fecha” – que a “Ford fugiu do Brasil por causa do Bolsonaro”.

Na verdade, a decisão foi tomada fora do Brasil, como sempre ocorre com o capital imperialista, como parte de um plano de reestruturação da Ford e de toda a indústria automotiva mundial, num cenário de crise do setor, combinada com a maior crise do sistema capitalista mundial já vivida.

Em fevereiro de 2019, bem antes de se falar em Covid-19, foi fechada a Ford de São Bernardo. Os metalúrgicos perderam seus empregos e as instalações foram vendidas para uma construtora. As gestões de Dória e do próprio sindicato do ABC para encontrar alguma montadora que comprasse a planta foram em vão. É preciso aprender com isso, pois outras montadoras podem “arrumar as malas” e sair do Brasil a qualquer momento por decisão de suas matrizes.

O que fazer?
“Abrimos mão de direitos para que essa fábrica continuasse aqui”, disse o dirigente sindical Sidivaldo Borges dos metalúrgicos de Taubaté (FSP, 13/01). É fato, e isso ocorreu em quase todas montadoras da base de várias centrais sindicais. Outra lição a tirar: a lógica do capital imperialista é implacável, abrir mão de direitos não garante empregos!

Num passado não tão distante, a CUT levantou a palavra de ordem “fábrica fechada é fábrica ocupada”. Não seria o caso de aplicá-la agora, e exigir, como propõe o ex-deputado petista José Genoíno e começa a ser discutido entre sindicalistas, que o poder público as encampe, garantindo os empregos e a produção?

Em São Paulo, Dória fala em “trabalhar em qualificação e recolocação no mercado” dos metalúrgicos de Taubaté. Claudião, presidente do sindicato (CUT) respondeu: “Os trabalhadores querem a fábrica aberta e os empregos mantidos” (FSP 15/01).

Tanto na Bahia, como no Ceará os governadores são do PT e os recursos públicos dados à Ford, por si só, justificariam a encampação de suas instalações.

O Brasil tem recursos humanos e tecnológicos para manter e inovar a produção de veículos, o que não tem é um governo que o faça, mais uma razão para botar para fora o governo Bolsonaro o quanto antes. Mas o urgente agora é manter os empregos e as fábricas abertas, a partir da ação dos trabalhadores.

Em 21 de janeiro agências da Ford devem ser ocupadas em todo país, numa iniciativa da CNM-CUT. É preciso avançar na ocupação das fábricas e na exigência de que sejam assumidas pelo poder público.

Julio Turra

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