Garimpo invade e destrói terras Yanomâmis

Protesto realizado em 2019 pelo fórum de lideranças Yanomami e Ye'kwana

Bolsonaro tenta legalizar a mineração e o garimpo, através do PL 191/20 que ainda tramita no Congresso. Mas mesmo ilegal, ele avança: entre 2016 e 2020 os ataques às terras indígenas tiveram um aumento de 3.350% (!) nos registros de operações ilegais.

O garimpo na Terra Yanomâmi cresceu 46% em 2021, depois de já ter aumentado 30% em 2020. Os dados são do relatório “Yanomâmi sob Ataque!”, preparado pela Associação Hutukara, com apoio do Instituto Socioambiental (ISA).

Um cerco aos indígenas está em curso. O mesmo relatório mostra, através de fotos aéreas e de satélite, que 273 das 350 comunidades indígenas e 16 mil indivíduos estão sendo afetados.

Garimpeiros contam com transporte aéreo – aviões e helicópteros – lanchas e rede de internet (por rádio ou satélite). Armas são fornecidas pelo PCC. Instalam verdadeiras cidades nas beiras dos rios, com mercados e bordéis. Até dezembro de 2021 eram 3.272 hectares de terras destruídas, quase três vezes o registrado em 2018, quando o monitoramento do ISA começou.

Esparsas operações da Polícia Federal servem para atestar o que vem ocorrendo e são insuficientes. Ali é a ‘lógica empresarial’: “O garimpo de ouro é hoje uma atividade empresarial que depende de altos investimentos. Portanto, a lógica por trás da atividade é essencialmente econômica: enquanto os retornos forem maiores do que os riscos, sempre haverá quem queira investir” diz o relatório.

Como depende de altos investimentos, há envolvimento de grandes empresários no esquema. Ajudados pelo fato de as agências de fiscalização terem tido seus orçamentos amputados pelo governo federal no período, para deixar os latifundiários e garimpeiros livres para sangrar, literalmente, as reservas e os indígenas.

Ouro para alguns, tragédia para muitos
Além dos assassinatos e ameaças de morte constantes, a circulação dos garimpeiros aumenta a contaminação por vírus como Covid, gripe e malária, contra os quais os indígenas têm menos resistência.

O relatório mostra, também, que vários postos de saúde estão fechados na região, agravando a situação. Até o sinal de internet – importante em regiões isoladas para as escolas e postos de saúde – torna-se inviável, pois é monopolizado pelo garimpo.

O resultado é uma tragédia. Em apenas uma comunidade foram registrados, em 2020, 1800 casos de malária entre 900 indígenas: média de duas contaminações por pessoa! A devastação das terras pelo garimpo, a poluição dos rios que afeta a pesca e as doenças que tiram a capacidade de trabalho nas lavouras de subsistência, tornam a fome avassaladora: a desnutrição infantil varia de 60 a 80% entre as comunidades. Essa situação fez explodirem os estupros e casamentos forçados em troca de comida! Esse é o Brasil do ‘inominável’, seus generais e seus comparsas do latifúndio.

Tiago Maciel

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