Guerra na Ucrânia eleva a pobreza e a fome

Os ataques russos obrigam civis ucranianos a se deslocarem para outras regiões

Em pouco mais de um mês, a guerra na Ucrânia já causou mortes e destruição de infraestruturas em níveis gigantescos. Além do horror atual, os reflexos da ofensiva russa sobre a vida das populações poderão se estender por muitos anos.

De acordo com estimativas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), 90% dos ucranianos poderão ir para baixo da linha da pobreza se o conflito se mantiver. O país sofreria um atraso de décadas, “deixando profundas cicatrizes sociais e econômicas para as gerações futuras”, segundo o organismo (UOL, 16/3).

No pior cenário projetado pelo PNUD, a queda do produto interno bruto (PIB) ucraniano em decorrência da guerra pode ser comparada à registrada na Líbia, onde a intervenção imperialista (disfarçada de combate de “rebeldes” contra o regime de Kadafi) levou ao virtual esfacelamento do país.

A guerra já causou o fechamento de pelo menos metade das empresas ucranianas, com a outra metade tendo de trabalhar bem abaixo de sua capacidade. O fim dos combates é uma necessidade para a própria sobrevivência, em condições dignas, da população.

Deslocamentos forçados
Um efeito bem visível do conflito é a fuga de pessoas para outros pontos da Ucrânia ou para países vizinhos. Em um mês, 3,7 milhões de ucranianos foram para outras nações, naquela que é considerada a maior onda de migração na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Os deslocados internos são mais de 6 milhões.

Se os deslocamentos forçados já trazem em si vários riscos, a situação afeta particularmente as crianças. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) calcula que 4,3 milhões de crianças, mais da metade da população infantil de 7,5 milhões na Ucrânia, teve de se deslocar (Estadão, 27/3). Os que saíram de seus locais de moradia se dividiram entre outros pontos do país (2,5 milhões) e países vizinhos (1,8 milhão). Para muitas dessas crianças, os traumas são de difícil recuperação.
A essas consequências sociais graves soma-se o custo econômico para a recuperação da situação, que será gigantesco.

Efeitos das sanções
Na Rússia, as sanções decididas pelas potências ocidentais levaram à queda da cotação da moeda (rublo) e à alta das taxas de juros. Os produtos provenientes do exterior que ainda estão disponíveis são vendidos até 40% mais caros. É o caso do material médico, por exemplo. Além disso, grandes empresas estrangeiras fecharam as portas no país, o que causou dezenas de milhares de demissões e o agravamento de problemas sociais.

As sanções poderão causar também, em médio prazo, uma crise global, com o aumento da fome, em razão do abalo nas vendas de grãos. Rússia e Ucrânia responderam, nos últimos cinco anos, por 30% das exportações mundiais de trigo e 75% das exportações de óleo de girassol, para ficar em dois exemplos. Com a guerra, essas vendas estão comprometidas, o que provoca escassez dos alimentos e alta de preços.

Cláudio Soares

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