Direto da França: análise das eleições, por Markus Sokol

Publicamos abaixo os relatos compilados em “Meu querido Diário”, uma publicação especial feita por Markus Sokol, observador do PT nas eleições francesas, cujo primeiro turno ocorre neste domingo, 10 de abril.

DIA UM – Os jornalões do Brasil continuam em geral em silêncio sobre o 1º turno das eleições presidenciais francesas deste domingo, tal como os noticiários das grandes redes de TV. O que era a notícia das “eleições na França” – a fulgurante ascensão de um novo rosto de extrema-direita – três meses depois já tinha desaparecido junto com essas próprias “eleições”, antes do fato maior da guerra de Putin na Ucrânia, e não por isso.

Virou uma não-notícia, mas nos próximos dias toneladas de tinta e de pixels serão derramadas pelos correspondentes do Jardim Botânico, no Rio; da avenida Marginal ou da rua Barão de Limeira, em São Paulo; entre outros, como os “especialistas” viajados de vários blogs de direita, de esquerda etc.

A não-notícia de quase todos eles, ao longo destes três meses, era a ascensão lenta e regular de Jean-Luc Mélenchon, candidato da França Insubmissa, pela coalizão União Popular, que criou nestes meses um Parlamento da União Popular.

O outro lado da não-notícia era a crise dos candidatos da esquerda tradicional:

  • Taubira (ex-ministra do “socialista” Hollande) que se retirou há um mês;
  • Jadot (ecologista) que caiu para 5% nas pesquisas;
  • Roussel (PCF) oscilando nos 3%;
  • Anne Hidalgo (PS oficial), prefeita de Paris, que não sai dos 2%.


  • Por outro lado, Macron, presidente de direita e presidente de turno da União Europeia (bom-rapaz das sanções e armas contra o mau Putin), liderava com 25-30% as pesquisas. E Le Pen, extrema-direita, teve o tempo sair da crise e recuperar o eleitorado do extremista e ex-fulgurante Zemmour para oscilar ao redor dos 20% nas pesquisas.

    Ex-deputado socialista, Mélenchon, com 16% nesta pesquisa, 17% ou 17,5% em outras, não é um novato, concorre pela terceira vez à Presidência, e foi a principal personalidade europeia a visitar Lula na injusta prisão de 580 dias em Curitiba, o que explica quase tudo para as brasileiras e brasileiros.

    Mélenchon se apresenta como candidato de “ruptura”, como ele mesmo diz, é o único contra a guerra na Ucrânia, e propõe uma Assembleia Constituinte Soberana para fundar uma 6ª República com um conjunto de medidas sociais, econômicas, ambientais e políticas no programa “O futuro em comum”, o que retomaremos. A atual 5ª República emana de um tipo de golpe do general De Gaulle em 1958, e suas instituições anti-democráticas estão esgotadas.

Amanhã, DIA DOIS, continuaremos Meu Querido Diário, diretamente de Paris. Até amanhã.


DIA DOIS: O clima estes dias na França inteira é de mobilização na campanha de Jean-Luc Mélenchon, candidato da França Insubmissa à presidência, na véspera do pleito em menos de 48 horas.

Ele vem de um comício impressionante, domingo, com 25 mil em Touluse, cidade de 475 mil habitantes.

Passou, na segunda-feira, por um encerramento original da candidatura pela coalizão União Popular, em Lille, o grande centro do norte, onde o tribuno, Mélenchon, foi reproduzido de forma holográfica, presente, portanto, num conjunto de atos em 12 cidades-polo do país. Um dos pontos altos, foi o anúncio dos apoios internacionais de Lula e Dilma, em nome do PT; e do cineasta inglês Ken Loach, aplaudidos pela audiência.

Daí, a campanha desembocou na quarta e quinta-feira, em mais de 90 encontros locais de discussão e remobilização para o trabalho de formiguinha ampliado que está em curso. No país, há uma enorme pressão social. Há lutas e greves – relativas à grande alta de preços, enorme para o padrão europeu, em curso desde antes e agravada pela guerra na Ucrânia.

No último trimestre de 2021 antes da guerra, os salários subiram 1,5%, enquanto a inflação foi 4,6%, resultando num recuo do salário-hora de 3,0%, o que aqui é “histórico” (Editorial do conservador Le Figaro, dia 5 de abril). E como tudo é relativo na vida social, a impressão de insegurança e revolta é muito forte na população em geral.


A questão dos preços, inclusive, foi para o centro do discurso da candidata da extrema-direita Le Pen, em quem Mélenchon encostou na última pesquisa.

Desde Touluse, Mélenchon que segue sendo o candidato contra a guerra, ligou as coisas, propondo no governo o congelamento dos preços: Macron segue impávido no discurso de ordem à direita. Anunciou a retomada da Reforma da Previdência – para elevar a idade para 65 anos –, suspensa de fato após dois meses e meio de greves das centrais sindicais CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores), FO (Força Operária) e outras, em 2019. Provavelmente, as despesas da política de guerra não lhe deixam alternativa senão partir para a guerra interna. Nem Le Pen, nem o outro da extrema-direita, Zemmour, lutam contra a reforma. Lutam contra árabes, imigrantes, o excesso de liberdades e outros “demônios” que seriam a causa da inflação e do desemprego. Mélenchon propõe retornar a idade de 60 anos para se aposentar.

Mas é difícil, a abstenção indicada é alta (30%). A grande mídia, todos os candidatos da classe dominante, inclusive os que não tem mais chance de 2º turno e certas forças políticas da velha esquerda em crise aberta, atacam Mélenchon para favorecer Macron “antifascista” no 2º turno contra Le Pen. Com a exceção de líderes verdes que abandonaram o hoje inviável Jadot, e Taubira, ex-ministra de Hollande (PS), que havia se retirado há um mês e também anunciou apoio a Mélenchon.

O candidato da França Insubmissa avança. Quem viver verá. Nos falamos amanhã. Até.


DIA 3

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