Lula na Reunião da Comissão Executiva do PT

“Que essa reunião seja um marco da retomada” (Rui Falcão) – será?

Pode ser chocante, mas é um fato raro. Lula na reunião da Comissão Executiva Nacional (CEN) do partido não acontecia há muito tempo. Mesmo ao Diretório Nacional (DN), depois de sua eleição em 2002, o ex-presidente só voltou em 2013 para uma fala de saudação. Numa reunião de trabalho da CEN, não vinha desde antes de 2002.

Mas sinal dos tempos – a crise é grande! Oficialmente, a pedido da CEN, ele veio no último dia 30 de setembro e ficou de voltar ao DN do fim de outubro. Fato em si positivo, para um partido que precisa de coesão para se defender, o próprio Lula estando hoje ameaçado pela Lava Jato.

Convidado, Lula chegou dizendo que queria ouvir. Falou uma hora e meia.

“Partido desconectado”

O debate que se seguiu revelou elementos de consciência da situação entre as lideranças.

“É o momento mais difícil em 35 anos”. “Todos partidos, sem exceção, querem a extinção do PT”. “As pesquisas são muito ruins, vai tomar tempo para recuperar”. “Jogamos fora 90% dos 52% dos votos do 2o turno, pois há 5 meses Dilma estacionou em 7%”. “O movimento sindical é extraordinário ao defender o governo nos congressos, com criticas internas leves. Dirigente sindical não pode ser correia de transmissão do governo, senão é pelego”.

Ou ainda, “o partido está desconectado, não tem direção coletiva”. “Tem de fazer a defesa do PT, situação difícil, mas tem que enfrentar o debate”. “Não basta defender nossa história, tem que apresentar mudanças reais”.

Tudo isso, mas também cabe registrar elementos de inconsciência grave. “Precisa juntar com o ‘novo’, o novo são os congressos da Juventude do PT (JPT) em mais de 1.000 municípios” – a direção sabe a realidade esvaziada da JPT. Ou ainda, “nada é mais importante do que o mandato” – como se fosse possível para um partido como o PT defendê-lo por cima desta política econômica.

“Coalizão de verdade”?

Haveria muito mais a registrar, fora o que não foi abordado. No limite deste artigo, contudo, vale destacar dois aspectos da fala de Lula, pela responsabilidade que tem consciência de ter:

  •  “Como pode um dirigente defender essa política econômica, eu não discuto nomes, se o governo não der uma guinada para o crescimento?”. “Espero que Dilma saiba que não pode ficar com essa política econômica; se quiser ficar com Levy, que fique”.

Sem pedir a saída de Levy, como muitos no PT e na CUT, Lula parece sintonizado contra a “política econômica” (mas suas propostas não vão muito além do crédito consignado, crédito ao consumo, liberar o compulsório dos bancos, inclusive tomou distancia das propostas da Fundação Perseu Abramo (leia artigo na edição nº 774 do jornal O Trabalho).

  •  “Se Dilma construir uma maioria sólida, em um dia vota três ou quatro coisas, depois teremos paz. A coalizão, agora, é de verdade, mais compromissada. Ela está fazendo agora (a reforma ministerial anunciada no dia seguinte), o que devia ter feito em novembro!”.

Ora, por aí, Lula indicou que o seu maior problema era a distribuição do ministério, as posições de mando etc. Foi, aliás, o que a imprensa disse sobre seu papel de orientador do novo ministério.

“O PMDB não vai nos salvar, Lula”

Da minha parte, sem pretender ser um sábio por isso, com convicção alertei sobre a reforma ministerial: “o PMDB não vai nos salvar, Lula, ele hoje veicula a elite que quer acabar com o PT”.

A minha conclusão principal, que submeto a todos petistas, é que com a gravidade da situação – mais 1 milhão de desempregados, esvaziamento do Minha Casa Minha Vida, da Farmácia Popular etc. tudo pelo superávit primário – estamos chegando ao limite com o governo. Uma situação à moda grega: no governo, o partido é arrastado a aplicar o ajuste e perder sua base social.

“Daqui a pouco, nem demitir Levy resolve mais, se não vier com medidas heróicas para o povo, tamanho é o desgaste”. “Tem que chegar na Dilma e falar claro: ou muda ela, ou mudamos nós!”.

Markus Sokol

Artigo originalmente publicado na edição nº 774 de 8 de outubro de 2014 do jornal O Trabalho

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