Lula no Diretório Nacional do PT

Quer resistir, mas apóia o ajuste!

Foi quase um ato público: dia 30 ocorreu a primeira reunião do Diretório Nacional do PT após o congresso do partido de junho e sem se aprofundar sobre a situação. Em parte, pelo show do discurso de Lula, com imprensa na sala, transmissão por internet, etc.

É positivo que Lula tenha vindo e desafiado os ataques: “Aprendi com a vida a enfrentar adversidade. Se o objetivo é truncar qualquer perspectiva de futuro, então vão ser três anos de muita pancadaria. E, podem ficar certos, eu vou sobreviver”, disse.

Mas o que chocou foi Lula defender o ajuste fiscal. Ajuste que, 15 dias antes, no Congresso Nacional da CUT, Lula tinha criticado: “nem mais uma semana discutindo cortes … “tivemos que fazer o que dizíamos que não íamos fazer”, chegou a dizer que hoje a “prioridade no Congresso é votar as medidas do ajuste”, defendeu também a coalizão “com partidos de direita, “é com essa gente que temos que governar”. Chegou ao ponto de sugerir que mexer com Cunha, presidente da Câmara, atrapalharia a urgência das votações do ajuste. Necessária para “ganhar a confiança dos investidores”. O que viria depois seriam “medidas de crédito”.

Após falar mais de uma hora, Lula saiu para “compromissos” e o Diretório começou aprovando quatro resoluções – “Eleições de 2016”, rejeição do “Projeto de Lei sobre o terrorismo”, vindas da Executiva da véspera, e uma de “Conjuntura” de Rui Falcão, além do fim do financiamento privado no PT.

“É grave, ou Dilma muda, ou temos que rediscutir”  

No debate antes das votações, Markus Sokol apresentou as idéias do Manifesto de Alarme do Diálogo e Ação Petista.

Solidarizou-se com o presidente do partido frente “à grosseria de Dilma em Estocolmo, destratando Rui e assim o PT, quando ele vocalizou com muita moderação o sentimento dos petistas contra a política do ministro Levy, que Dilma disse que apóia”. Acrescentou ainda mais que “ontem, o governo quis aprovar a lei-antiterror recomendada por Levy que ataca os movimentos populares, contra o voto da bancada do PT no Senado”, e propôs uma reflexão:

“A situação é muito grave. Já há 1,3 milhão de desempregados mais que há um ano. Dilma tem que mudar a política econômica e demitir Levy. Se insistir em não mudar”, avaliou, “então, o PT é que terá que rediscutir a relação com ela”.

“Confiança dos investidores ou confiança dos trabalhadores”?

Sokol lamentou que Lula “busque a confiança dos investidores, quando está perdendo a confiança dos trabalhadores… Não sou eu quem diz. O PT perdeu as eleições no primeiro turno nas cidades operárias”.

E insistiu na “outra política” alternativa que o DAP opõe ao ajuste – “derrubada dos juros, centralização do câmbio e fim do superávit primário; livre da ditadura do superávit, o governo poderia finalmente avançar nas reformas populares e se recuperar”.

Quanto às medidas de crédito questionou: “se, com ameaça de desemprego, alguém vai querer se endividar mais. Com a baixa lucratividade, as empresas também não se animam. É o investimento público somado à baixa dos juros que pode fazer a diferença”.

O senador Lindbergh (criticado quatro vezes por Lula), Bruno Elias e outros, também fizeram propostas de correção de rumo. Mas Lula tinha sinalizado, e nada de novo seria decidido pela maioria nesse dia.

O problema é que quanto mais defendem o ajuste, Dilma e agora Lula, mais fragilizados ficam na sua base social, ameaçando arrastar o PT ao abismo.


 

Sobre a resolução política do Diretório Nacional do PT:

O texto de Conjuntura foi adotado por 46 votos contra 27 o projeto dos grupos Mensagem, Articulação de Esquerda, Militância, Avante e Esquerda Popular Socialista.

Ele denuncia os “cortes nos gastos sociais ou nos investimentos públicos, posição defendida pelos porta-vozes da capital financeiro” e:“saúda o documento da Fundação Perseu Abramo” como “referencial para a formulação de uma nova agenda de desenvolvimento”.

Portanto, diverso da fala de Lula.

A resolução aprovada registra “a predominância (sic), dentro da bancada do PMDB na Câmara, de sua ala mais reacionária”. E sugere sua ligação com “núcleos da Policia Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário (…), que atuam com o intuito de extinguir o PT e difamar Lula”.

Contudo, a resolução não tira as consequências pratica de ação, para além da correta apresentação do máximo de candidatos (Resolução Eleições 2016). Mas não traz nada sobre Levy nem sobre as alianças, ou ações imediatas em defesa do partido.

Ao contrário, a mesma maioria rejeitou a emenda por uma “nova política econômica, uma nova equipe econômica”.

Rui acolheu a emenda de Sokol destacando o “intuito de extinguir o PT”, mas não os ítens de “outra política” (veja acima).

Três diferenças

Em nota prévia, Sokol, o membro de O Trabalho no DN que votou o texto alternativo, explicou aos proponentes que não o assinaria:

“Tem várias idéias que concordamos, mas algumas diferenças ainda importantes:

  • O ataque a Lula, para nós, é a ponta da escalada contra o PT que inclui a Lava Jato – Vaccari condenado a 15 anos!
  •  A ‘prioridade’ aos setores democrático-populares nas alianças, já foi votada antes e continua a aliança com o PMDB.
  • O fim do superávit fiscal primário como critério de política econômica.

“Como vocês sabem, por razões aparentadas não nos associávamos ao manifesto de deputados ao 5º Congresso”, explicou Sokol.

A discussão pode continuar, inclusive no Diretório hoje, podemos votar neste texto, se for o caso ainda construir emendas a critério dos companheiros”. Não houve disposição para estas emendas.


 

Abandonos no PT

Tendo em vista das eleições municipais de 2016, pressões eleitorais oportunistas levam parlamentares e prefeitos a sair do PT. Como a lei estendeu o prazo para filiar-se a partidos até abril de 2016, o processo ainda não acabou.

Saíram para se candidatar a prefeitos, a senadora Marta Suplicy, pelo PMDB de Cunha-Temer, em São Paulo, e o atual prefeito Cartaxo, pelo PSD de Kassab, em João Pessoa (PB). E também o deputado federal Molón, pela Rede de Marina, no Rio.

Marta e Cartaxo, tiveram a cara-de-pau de invocar a ética para justificar a nova opção. Molón se diz decepcionado com o Congresso do PT de junho: Cá entre nós, ele e a torcida do Flamengo… A verdade é que busca legenda “melhor” para disputar a prefeitura, apesar das suas conexões com os bancos e ONGs pró-imperialistas.

Mas, o problema é maior. Segundo O Estado de S. Paulo, 69 dos 632 prefeitos eleitos pelo em 2012 já saíram.

É verdade que muitos vieram do PMDB, PTB e até do PSDB e DEM – resta saber se o partido aprenderá a lição.

Entre os abandonos, pode até haver gente boa, desanimada com Dilma e o PT. Mas estão fazendo a coisa errada. É ainda pior se têm uma percepção crítica da política do PT.

Pois, por interesse individual e frente à sanha destruidora do juiz Moro, dos barões da mídia e dos agentes do imperialismo se dispersam e abandonam o principal partido operário no país.

O povo vai se lembrar.

Artigos originalmente publicados na edição nº 776 do jornal O Trabalho, de 5 de novembro de 2015.

 

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