O que revelam as eleições de 20 de setembro na Grécia?

Cada um viu o que queria ver, mas, sem realmente acreditar

Os mesmos dirigentes europeus que, em 13 de julho, impuseram ao povo grego as exigências do capital financeiro, “felicitaram” Tsipras (primeiro ministro grego, recentemente reeleito, após renunciar e ver governo dissolvido quando assinou o acordo com com credores gregos, nota do editor) por sua reeleição e, sobretudo, incitaram-no a cumprir as promessas de respeitar o memorando, um acordo com credores. A Comissão Europeia disse-lhe para ‘não perder tempo” (jornal Les Echos, 22.09).

François Hollande Presidente da França – que ajudou ativamente a estrangular a Grécia – viu, na vitória do Syriza, “uma mensagem importante para a esquerda europeia confirmando que seu futuro está na afirmação dos seus princípios: o progresso, o crescimento, mas também o realismo”.

O vice-presidente do Partido da Esquerda Europeia (PGE) viu no resultado “uma mensagem de confiança no combate engajado contra a austeridade (…). Os gregos mostram hoje a toda Europa que eles continuam o combate. Eles têm agora clara consciência das dificuldades que vão enfrentar, mas eles querem continuar a batalha com o Syriza (Coligação da Esquerda Radical, que hoje é um partido, nota do editor)

Quem eles pensam que enganam?

Os 35% dos votos obtidos pelo Syriza fez toda essa gente esquecer os 46% de abstenção num país onde o voto é obrigatório. É a rejeição não apenas do Pasok (sigla pela qual é conhecido o Partido Socialista Pan-Helénico, ligado à Social Democracia, nota do editor), da Nova Democracia (direita) e, hoje, do Syriza, mas de todo o sistema institucional do estado grego.

A quem os representantes europeus do capital financeiro pensam que vão enganar ao fingir que acreditam que Tsipras dispõe dos meios para controlar a tempestade que a aplicação do memorando vai desencadear?

Hoje, não adianta nada condenar Tsipras por não ter rompido com a União Europeia e seus tratados. Não é seu programa. No poder desde 25 de janeiro de 2015, ele sabia que os bancos organizavam metodicamente a fuga de capitais para Londres e Berlim, a serviço dos armadores, dos capitalistas, dos latifundiários.

Ele conhecia seus nomes, os laços que os uniam ao sistema de clãs dos partidos. Ele conhecia os bens imóveis que eles dispunham no país. Ele calou sobre suas maquinações para preservá-los da cólera popular. Ele fez de tudo para que a ideia de expropriar, de neutralizá-los não germinasse no seio das massas. Ele fez de tudo para encenar sua ilusória “negociação” com o Euro grupo que excluía o confronto das massas exploradas com o capital.

Ora, é sobre esse elo – que se coloca a questão da ação concreta das massas para neutralizar os sabotadores, expropriar os expropriadores que, repetidas vezes, se concentrou a ruptura efetiva com a União Europeia.

Se há uma mensagem que a eleição grega envia aos povos da Europa é esta: a da construção no seio da classe operária da força política capaz de erguer os pontos de apoio que permitam a luta das classes se desenvolver em cada país para derrotar os governos subordinados ao capital financeiro e lançar as bases do poder da maioria, do poder dos trabalhadores.

Extraído do jornal Informações Operárias, do Partido Operário Independente da França. No Brasil, publicado originalmente na edição nº 773 do jornal O Trabalho de 23 de setembro de 2015.

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