“O sistema de saúde da Índia entrou em colapso”

Sistema hospitalar em crise não pode responder à Covid. Falta atendimento, leitos, médicos e cuidadores

Na Índia, o sistema público de saúde é considerado gratuito. Com um investimento público inferior a 4% do PIB a cada ano, os sucessivos governos aprofundaram o descaso que impera neste setor. Este é, assim, entregue a prestadores privados que fazem de certas regiões da Índia destinos de saúde ​​para turistas ricos.

A privatização da saúde
Como nos escreveu Surya Prakash, presidente do Sindicato dos Funcionários do Saneamento Hospitalar e dos Enfermeiros – AICCTU (Nova Déli), com essa segunda onda e as políticas de Narendra Modi, “o sistema de saúde indiano entrou em colapso”.

A partir de 1960, a concorrência dos setores público e privado foi introduzida, e depois incentivada na década de 1970 pela abertura de clínicas privadas por médicos NRI (indianos não residentes). Em 1982, o governo “reconhece não só a importância do setor privado na prestação de cuidados de saúde, mas sobretudo a importância do apoio do poder público ao desenvolvimento do setor privado. Hoje, existem 0,5 leitos para cada mil habitantes no país”.

Em abril de 2018, Modi anunciou o programa Aayushman Bharat, para cobrir cerca de quinhentos milhões de pessoas. Isso custa cerca de 1,7 bilhão de dólares por ano, principalmente para provedores privados.

Esta privatização não permite o estabelecimento de uma verdadeira política de saúde pública. A cada ano, são 600 mil mortes por doenças respiratórias, das quais 420 mil por tuberculose; uma mortalidade infantil de quarenta e três por mil; um altíssimo índice de mortalidade, triplicado, entre os trabalhadores mais pobres, para os quais o menor ferimento pode ser fatal.

Quem é responsável?
Este sistema hospitalar em crise não consegue responder à Covid.

E com a mesma arrogância, como em muitos países, o governo produz uma “comunicação” infantilizante e fora da realidade. Assim, o Ministro da Saúde ousou declarar: “Não há arma maior do que usar uma máscara, lavar as mãos regularmente com sabão e manter distanciamento social.” Uma máscara? O preço das máscaras quadruplicou em um ano. Lavar as mãos? 75% da população não tem acesso a água potável. Distanciamento social? A densidade populacional no estado de Déli ultrapassa 4.000 habitantes por km².

Modi e os capitalistas são responsáveis
Texto da AICCTU, publicado por ocasião do dia 1º de maio diz: “O país inteiro parece um cemitério. As pessoas morrem por falta de oxigênio, remédios e leitos hospitalares. Não pode mais ser chamada de morte Covid, pois as pessoas estão morrendo devido à incapacidade do governo de Modi de se preparar para a segunda onda. Não é outro senão o governo Modi o responsável pelas mortes cruéis e desumanas. Mas o governo Modi está pisando sobre os cadáveres para garantir lucros gananciosos para as corporações gigantes. A vacina é exportada à custa da vida dos indianos. As empresas são autorizadas a aumentar os preços das vacinas em meio ao empilhamento de cadáveres. É responsabilidade do governo fornecer vacinas gratuitas a todos, mas o povo está sendo empurrado para o altar dos lucros das corporações. As mortes incontáveis, a pobreza e a fome sempre crescentes, a perda de salários e empregos tornaram-se a regra”.

Governo acelera a barbárie
O governo é normalmente obrigado a fornecer oxigênio aos hospitais públicos. Mas, diante da sua omissão, um verdadeiro mercado negro está se desenvolvendo.

Como lembra Surya Prakash, é a classe trabalhadora indiana que está morrendo: “Alguns trabalhadores migrantes estão voltando para suas cidades natais. Não há trabalho ou salário… Outros nem conseguem mais regressar às suas aldeias… Todos sofrem com a fome e a pobreza”.

Extrato de artigo publicado no jornal francês Infortations Ouvrières (Informações Operárias)

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