Situação crítica na cúpula do PT

Diretório Nacional do PT se reuniu nesta segunda-feira, em São Paulo (Fotos: Luciana Santos/PT)

Da crise de regime à crise de direção

A “crise de regime” aberta em junho corresponde a uma crise de direção no PT. A reunião extraordinária do Diretório Nacional, dia 29, examinou três recursos de Valter Pomar, Markus Sokol e Renato Simões, feitos contra o desmantelamento das regras do PED, decidido pela maioria do mesmo DN no dia 20. A discussão sobre o PED terminou por um acordo.

Gleber Naime (da corrente Construindo um Novo Brasil – CNB/MG) propôs interromper o debate, com apoio do presidente Rui Falcão – ambos em dissonância com outros que reafirmavam as decisões , como Florisvaldo, Paulo Ferreira, deputado Devanir e Jorge Coelho –, para construir um acordo entre as chapas em reunião com a presidência. Entre as decisões, se destaca a revogação da dispensa do “registro de pelo menos uma atividade partidária” como condição de participação no PED, dando-lhe maior abrangência (todos inscritos em chapa que pagaram o partido no prazo de 30 de agosto são aptos, além dos que assinam o abaixo-assinado da reforma política, já que a exigência de pelo menos uma reunião do PT no último ano já havia sido “flexibilizada”). O fundo eleitoral interno foi redividido: 35% em partes iguais para as várias chapas. A reunião do DN anterior havia rebaixado esse total de 50% para 20% do fundo (o resto é proporcional às vagas no diretório correspondente). O acordo é o recuo obrigado da cúpula do CNB que “passou o trator” no DN passado.

Na nova situação, a ameaça do PED ser questionado em sua legitimidade por várias forças foi o fator expresso para o recuo. Mas justamente a pressão da situação das ruas é um dos fatores que levou o CNB a abrir as porteiras do PED e endurecer no financiamento. Buscavam uma “participação” ainda maior que os 500 mil votantes do PED de 2009, através do carregamento de eleitores, sem debate partidário, quando a sua política agora é contestada nas ruas. Tudo se resumiria a demonstrar a “força” inflada de eleitores.

O “PMDB interno”

Não há muito a comemorar no acordo. O PED é irreformável. Regras adotadas no Congresso do PT para “moralizar e revitalizar o PED” (várias cotas, etc.) são inócuas ou inaplicáveis, daí as sucessivas “flexibilizações”.

Boa parte dos eleitores continuará indo votar sem conhecer as posições e 35%, ao invés de 20% , não reverte a estrondosa desigualdade dos meios. Por isso, Markus Sokol insistiu que “a melhor solução é adiar o PED e convocar um Encontro extraodinário para discutir a nova situação e, inclusive, uma reforma política no próprio partido, voltando aos encontros de base”, e questionou “o nosso PMDB interno que também parece que não quer mudar nada”.

Um diagnóstico, nenhuma solução A resolução de conjuntura adotada, após idas e vindas do texto-base de Valter Pomar e do jornalista Breno Altman, emendado especialmente por Árabe, da Mensagem, e pelo deputado Berzoini, do CNB, produziu um resultado estranho.

Inova ao dizer que “a principal indicação das ruas em junho foi a rejeição popular às instituições herdadas da transição conservadora que deixou intocados muitos dos mecanismos concebidos para preservar o poder das oligarquias”. Reconhece que “o PT e o governo executaram uma política de alianças com parceiros que não se dispunham – nem se dispõem – a romper os limites da institucionalidade conservadora”, ligada à “dependência do capital financeiro, dos juros da dívida e dos lucros corporativos”.

Mas do diagnóstico “crítico” – em temas que O Trabalho e o Diálogo Petista batiam quase isolados! – não se chega a uma conclusão concreta para além do apoio ao Dia de Paralisação da CUT de 30 de agosto. O emblema da paralisia da direção do PT foi a rejeição da emenda de Sokol de “colocar na agenda a revisão da política de alianças”, conclusão lógica para “ouvir as ruas” num “processo constituinte”, como propõe o texto.

Mas Rui Falcão, sem nenhuma política nova a propor, argumentou contra “as conhecidas intenções de Sokol”! Sim, com a sua chapa “Constituinte, por Terra, Trabalho e Soberania”, Sokol defende a ruptura do “acordo nacional do PMDB” que sabota o plebiscito, a Constituinte e a reforma política. A maioria propõe continuar a crise de regime?

Votaram na emenda Sokol e Sheila (da corrente Esquerda Popular e Socialista – EPS), três membros da Articulação de Esquerda se abstiveram. Após o voto, o deputado Raul Pont, como que se desculpando, propôs discutir as alianças sem escrever nada, o que o presidente remeteu a uma futura reunião trimestral do DN…

Assim, agora, é hora de dirigir-se ao conjunto da militância, dos trabalhadores e da juventude, nas ruas como no PED, com as propostas das chapas “Constituinte, por Terra, Trabalho e Soberania”.

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