Trabalhadores do comércio na França: “Nós falamos de vida, eles falam de negócio”

Um funcionário do Carrefour de Bercy-2, em Charenton, com 45 anos, infectado pela Covid-19 e em licença médica desde 23 de março, acaba de morrer. É a nona morte nesse setor ligada à epidemia de coronavírus.

Nesse mesmo supermercado, uma colega do falecido também foi hospitalizada em estado grave por causa do coronavírus.

“Nós falamos de vidas, eles falam de negócios (…) Diante de um governo omisso, a Federação CGT Comércio e Serviços assume suas responsabilidades”, diz comunicado da central sindical (abaixo).

“Nós queremos proteger todos os nossos trabalhadores. Todos os que se sentem preocupados pela falta de equipamento de proteção e/ou segurança a que têm direito; todos os que trabalham em comércio de carnes. Do Carrefour ao Auchan, passando por Leclerc, Monoprix, Intermarché, Franprix ou qualquer outra rede. Todos podem então escolher, a greve ou o direito de retirada(1) onde for possível”, explicou um delegado sindical.

Uma greve para salvar vidas
Em 6 de abril, a CGT Comércio e Serviços publicou o seguinte comunicado:
“Desde o começo da crise sanitária do Covid-19, a Federação CGT Comércio e Serviços nunca parou de alertar e exigir do governo e do patronato os meios de proteção necessários e vitais para os (as) funcionários (as) que estão obrigados a trabalhar.

Nós constatamos que muitas redes do comércio varejista, da segurança privada, logística, serviços de pós-venda, serviços pessoais etc., não respeitam as regras de saúde, colocando em perigo os (as) trabalhadores (as) e o público com o qual eles entram em contato diariamente.

As redes dos grandes distribuidores negam o direito de retirada exercido pelos empregados. Em outras empresas, eles sofrem ameaças e pressões quando reivindicam medidas concretas para sua segurança. Todo o arsenal de repressão é utilizado: intimidação, discriminação. É inaceitável!

O governo e o patronato têm apenas um objetivo, continuar aumentando os negócios, quaisquer que sejam as consequências dramáticas que isso traga para os (as) trabalhadores (as).

Em nosso setor de atividade há muitos contaminados, hospitalizados, e é com muita indignação que nós também temos mortos!

O Covid-19 pode ser mortal, não vamos jogar uma loteria mortífera!

Enquanto exigíamos medidas drásticas de proteção para esses trabalhadores obrigados a garantir a continuidade econômica do país, solicitando providências para permitir os cuidados de prevenção, reivindicando a restrição de abertura das lojas e dos setores de primeira necessidade, a única resposta do governo foi oferecer aos patrões decretos sob medida para atender os seus sonhos mais loucos: jornada semanal aumentada para sessenta horas, abertura aos domingos, redução do intervalo de descanso entre dois dias, retirada das restrições de trabalho noturno. Decretos dignos da Idade Média!

A Federação CGT Comércio e Serviços denuncia tais escolhas políticas que enviam todos os dias milhares de trabalhadores para engrossar as fileiras dos sacrificados do capitalismo.
Diante de um governo omisso, a Federação CGT Comércio e Serviços assume suas próprias responsabilidades.

Chegamos ao limite do tolerável e do aceitável, nós falamos de vidas, eles falam de negócios; nós falamos de dispositivos de proteção, eles falam de destruição de direitos.

A Federação anuncia que, para proteger os empregados, seu ambiente e as pessoas que eles encontram no exercício de seu trabalho, está convocando para greve a partir de quarta-feira 8 de abril até a obtenção de medidas suficientes para garantir uma verdadeira segurança dos trabalhadores em suas lojas.

Este é nosso último recurso para salvar vidas!”

Correspondente

(1)O direito de retirada, previsto no Código do Trabalho, garante ao trabalhador poder se ausentar do trabalho se houver risco de um perigo sério e iminente para sua vida ou sua saúde

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