Ucrânia: uma situação de confronto perigoso está sendo criada na Europa

Lucien Gauthier, publicado originalmente no Informations Ouvrières n°691

As ameaças continuam a aumentar na Europa. Os Estados Unidos, a OTAN e a União Europeia anunciam diariamente novas ameaças de medidas de retaliação contra a Rússia. A Rússia responde que não quer invadir a Ucrânia, mas que não vai recuar da posição contrária à integração da Ucrânia na OTAN.

Enquanto multiplicam-se as entregas de armas para a Ucrânia, as tropas da OTAN na Europa foram colocadas em estado de alerta e Biden anuncia o envio de 8.500 homens adicionais para reforçar as tropas da OTAN.

Macron anuncia que um regimento do exército francês está pronto para ser enviado à Romênia. O chefe do governo espanhol envia tropas para reforçar a OTAN. Além dos 100 mil homens concentrados na fronteira ucraniana, Putin enviou 30 mil soldados adicionais para a Bielorrússia. Uma situação de confronto perigoso está sendo criada na Europa.

Putin continua a ressaltar que após a queda da URSS, foi feito um acordo com os Estados Unidos de não expandir a OTAN para a Europa Oriental. Desde então, a OTAN cresceu de 16 para 30 países membros.

Com o colapso da URSS – de responsabilidade da burocracia stalinista – novos Estados foram formados sob a égide de frações da burocracia, que desenvolveu o nacionalismo para consolidar seu poder. A realidade é que essas frações da nomenklatura tornaram-se verdadeiras máfias, saqueando os países, em nome do imperialismo mundial e em particular dos Estados Unidos.

Essas campanhas nacionalistas não apenas dividiram os povos da antiga URSS, mas também procuraram colocá-los uns contra os outros. É o caso de todos os regimes emergentes da ex-URSS, e o de Putin, que não tem intenção de restaurar a URSS – como dizem certos “especialistas”, pelo contrário – procura, por meio dessa confrontação, defender os interesses da pequena clique oligárquica que governa a Rússia, usando o nacionalismo para desviar a atenção dos povos da Rússia da situação material degradada em que se encontram.

Putin pode se permitir uma escalada, dentro de certos limites – e ninguém sabe até onde irá – por causa da crise geral de dominação política do sistema mundial e da crise de liderança dos Estados Unidos. Biden, por sua vez – depois do Afeganistão – busca reafirmar o lugar dos Estados Unidos, mesmo se não pode mais pretender ser a polícia do mundo. Esta situação pode levar ao caos generalizado.

Sob o som das botas, o cheiro do gás
A Rússia fornece 40% do gás para a Europa, 100% para a Letônia, 98% para a Finlândia, 66% para a Alemanha, 55% para a Polônia. Hoje, o gás é transportado por um gasoduto que atravessa a Ucrânia. A Rússia construiu um novo gasoduto que evita a Ucrânia, passa pelo Norte e terminaria diretamente na Alemanha. Esse duto foi inteiramente financiado pela Rússia, em acordo com a Alemanha.

No conselho de administração da empresa do gasoduto (a Nordstream), está o ex-primeiro-ministro do SPD na Alemanha, Gerhard Schröder. O Nordstream está pronto para ser iniciado, mas ainda não está operando devido à falta de acordo das autoridades alemãs. Merkel foi a favor, mas a pressão de Trump foi tanta que ela teve que adiar sua decisão. Hoje, o governo alemão está dividido, desta vez sob pressão de Biden.

Os Estados Unidos denunciam a dependência excessiva da União Europeia do gás russo. Na FranceInfo, em 30 de janeiro, um especialista explica: “É interessante ver o estado de subordinação em que a Europa se encontra em relação aos Estados Unidos. São eles que se preocupam com o abastecimento de gás da Europa e que vão negociar com o Qatar, como se a Europa – no limite – não existisse. Poderá haver carregamentos, transportadores de GNL do Qatar, da Austrália, dos Estados Unidos chegando aos portos europeus. Simplesmente isso terá um preço”.

O preço seria realmente alto em comparação com os preços relativamente baratos do gás russo. “Os Estados Unidos são grandes produtores de gás natural liquefeito (GNL) que é transportado por via marítima antes de ser regaseificado nos terminais (…). Eles começaram a aumentar suas entregas aos europeus. Nas últimas três semanas, entre 70 e 80 navios cargueiros americanos de GNL foram redirecionados para a Europa”. (Le Monde de 31 de janeiro.)

O problema é que seria necessário construir novos portos, novos terminais de gaseificação e, sobretudo, seria necessário um aumento exponencial dos preços, no exato momento em que as populações já sofrem o peso de um aumento brutal dos preços da eletricidade, do gás e até do combustível. De qualquer forma, para os Estados Unidos, é a União Europeia que irá pagar.

L.G
Tradução Adaias Muniz

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