“A discussão da hora”, por Markus Sokol

No seu discurso, Lula descreve a situação citando a frase do escritor francês Victor Hugo

Lula, na sua fala, deu o conteúdo da independência nacional contra a subordinação de Bolsonaro aos EUA, traduzida nas condições de vida do povo, na saúde, na educação e nos serviços públicos em geral, como na economia nacional, concluindo num apelo à soberania popular. Por isso mesmo, o pronunciamento instiga uma reflexão que vai além. Resta ao PT, com a participação de Lula, desenvolver propostas práticas de:

– Como avançar na sua aposta de “vencer a pandemia e pôr fim a esse desgoverno”: como, se não alavancando a luta popular por medidas de emergência, tais como a testagem em massa (condição da volta segura às aulas), medidas como o congelamento dos preços da cesta básica de alimentos, a estabilidade no emprego com garantia de salários, e a extensão do auxílio de R$ 600 durante a pandemia?

– Como concretizar o novo “contrato social” com um “voto livre de manipulações” e “instituições democráticas”, que ele propõe: como, se não através de uma Constituinte Livre e Soberana (e um novo governo) que, para reconstruir o país, reverta as privatizações e anule as medidas de Temer-Bolsonaro?

– Como avançar neste rumo agora, desde a campanha eleitoral municipal: como, se não integrando e cobrando de todos democratas a mais ampla unidade pela restituição de plenos direitos políticos para Lula (Anula STF!), confrontando assim perseguição contra ele, o PT, a esquerda e os sindicatos?

O PT, que se prepara para apresentar um “Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil”, tem, todavia, que fazer a discussão de como ligar suas bandeiras com as necessidades urgentes da hora.

Markus Sokol

Em contundente discurso no dia da Independência, Lula se apresentou candidato à Presidência para reconstruir o país. Reproduzimos abaixo trechos da fala disponível nos sites do PT e do DAP.

“Vencer a pandemia e pôr fim a esse desgoverno. Um novo contrato social, pelo voto”

“Com 130 mil mortos e quatro milhões de pessoas contaminadas, estamos despencando em uma crise sanitária, social, econômica e ambiental nunca vista.

Os recursos que poderiam estar sendo usados para salvar vidas foram destinados a pagar juros ao sistema financeiro. O Conselho Monetário Nacional acaba de anunciar que vai sacar mais de 300 bilhões de reais dos lucros das reservas que nossos governos deixaram. Seria compreensível se essa fortuna fosse destinada a socorrer o trabalhador desempregado ou a manter o auxílio emergencial de 600 reais enquanto durar a pandemia.

O mais grave de tudo isso é que Bolsonaro aproveita o sofrimento coletivo para, sorrateiramente, cometer o maior crime que um governante pode cometer: abrir mão da soberania nacional.

A submissão do Brasil aos interesses militares de Washington foi escancarada ao nomear um oficial general das Forças Armadas para servir no Comando Militar Sul dos Estados Unidos, sob as ordens de um oficial americano.

O Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, estão sendo esquartejados – ou simplesmente vendidos a preço vil. Depois de colocar à venda por valores ridículos as reservas do Pré-Sal, o governo desmantela a Petrobrás.

A demolição das universidades, da educação e o desmonte das instituições de apoio à ciência e à tecnologia, são uma ameaça real e concreta à nossa soberania.

Decidi me concentrar, ao lado de vocês, na reconstrução do Brasil como Nação independente, com instituições democráticas, sem privilégios oligárquicos e autoritários. Um verdadeiro Estado Democrático e de Direito, com fundamento na soberania popular.

Eles nunca se conformaram em ver o Brasil como um país independente. É aí, nessas conquistas dos trabalhadores, nesse progresso dos pobres, no fim da subserviência, é aí que está a raiz do golpe de 2016.

A raiz dos processos armados, da minha prisão ilegal e da proibição da minha candidatura em 2018. Processos que – agora todo mundo sabe – contaram com a criminosa colaboração secreta de organismos de inteligência norte-americanos.

Um dado escandaloso: nos 4 primeiros meses da pandemia, 40 bilionários brasileiros aumentaram suas fortunas em 170 bilhões de reais. Enquanto isso, a massa salarial dos empregados caiu 15% em um ano, o maior tombo já registrado pelo IBGE. É inaceitável que os trabalhadores continuem sofrendo os impactos da desigualdade social.

Não podemos admitir que nossa juventude negra tenha suas vidas marcadas por uma violência que beira genocídio. Vidas negras importam, sim. Mas isso vale para os Estados Unidos e vale para o Brasil.

É intolerável que nações indígenas tenham suas terras invadidas e saqueadas e suas culturas destruídas.

Temos que combater com firmeza a violência impune contra as mulheres.

“Não acredito e não aceito os chamados pactos ‘pelo alto’, com as elites”

Para reconstruirmos o Brasil pós pandemia, precisamos de um novo contrato social entre todos os brasileiros.

O alicerce desse contrato tem que ser a base do regime democrático: o voto. É através do exercício do voto, livre de manipulações e fake news, que devem ser formados os governos e ser feitas as opções fundamentais da sociedade.

O essencial hoje é vencer a pandemia, defender a vida e a saúde do povo. É pôr fim a esse desgoverno e acabar com o teto de gastos que deixa o Estado brasileiro de joelhos diante do capital financeiro nacional e internacional.

Nessa empreitada árdua, eu me coloco à disposição do povo brasileiro, especialmente dos trabalhadores e dos excluídos.

Assim como a maioria dos brasileiros, não aceito os chamados pactos “pelo alto”, com as elites. Não contem comigo.

Estou convencido de que a luta pela igualdade social passa, sim, por um processo que obrigue os ricos a pagar impostos proporcionais às suas rendas e suas fortunas.

E esse Brasil está ao alcance das nossas mãos. Posso afirmar isso olhando nos olhos de cada um e dizer, do fundo do meu coração: estou aqui. Vamos juntos reconstruir o Brasil.”