Argentina: “Não vamos deixar de fazer protesto social”

Dora Martinez numa marcha com Pablo Micheli (sec.geral da CTA-A)

Ouvimos Dora Martinez, secretária geral adjunta da Central dos Trabalhadores da Argentina-Autônoma (CTA-A). Dora participa do Comitê Internacional de Ligação e Intercâmbio, animado pelo Acordo Internacional dos Trabalhadores e Povos.

O Trabalho: Como está a situação do movimento dos trabalhadores na Argentina neste momento de pandemia?
Dora Martinez: Vemos a situação com muita preocupação, pois há aumento do desemprego e da precarização laboral golpeando o conjunto da classe trabalhadora. O desastre econômico dos últimos quatro anos, com o governo neoliberal de Macri que atacou todas as políticas públicas, é visível. As populações mais pobres foram impactadas por políticas de ajuste e exclusão.

O novo governo de Alberto Fernández recém assumia, em meio a um debate para recuperar um modelo nacional e popular, quando veio o coronavírus. Além de decretar quarentena obrigatória, distanciamento social e fechar fronteiras, o governo tenta minorar as questões ligadas a ter o que comer e atender ao sistema de saúde, que tem mais necessitados do que se previa. O IFE (renda familiar emergencial) não alcançou toda a população, é um paliativo, mas não resolve a situação do mundo do trabalho.

Uma bandeira de campanha de Alberto foi devolver aos aposentados dignidade nas suas prestações, mas isso se atrasou porque os magros aumentos são definidos pelo governo e não se restabeleceu a fórmula que durante o governo de Cristina (Kirchner) havia favorecido os idosos. Por isso entendemos que é preciso aprofundar a disputa com os setores poderosos que tentam seguir acumulando em detrimento das classes populares. Não vamos deixar de reclamar e de fazer o protesto social

OT: Como a CTA-A avalia a decisão do governo de estatizar o grupo agro-exportador Vicentin?
Dora: É uma decisão importante a de expropriar o grupo Vicentin (maior empresa de soja do país). Apoiamos essa decisão e acreditamos que isso significa garantir os sete mil postos de trabalho existentes. Que não ocorra a fuga de dólares, como ocorreu na gestão de Macri, que é uma prática desses grupos econômicos poderosos.
É uma forma também de recuperar a confiança de mais de 2.500 produtores e algo importante para recuperar a exportação nacional de grãos, além de assegurar o interesse nacional através da YPF-Agro (estatal).

OT: Como vocês veem a situação no Brasil?
Dora: A CTA-A vê o Brasil dizimado por um governo de direita fundamentalista como é Bolsonaro, que despreza de forma cruel o povo ao dizer que as pessoas que morram pela pandemia têm que morrer, sendo a população afro-descendente a que mais sofre os efeitos do coronavírus.

Um governo que jogou pela janela tudo o que foi feito por Lula e Dilma em matéria de renda familiar para acabar com a fome, de prevenção no sistema sanitário, ingresso nas universidades, para tirar da pobreza e da miséria um universo populacional submetido a todo tipo de emergência.

Desde a nossa CTA-A mantemos um vínculo estreito de fraternidade com o povo brasileiro e queremos que se recupere a democracia para as classes populares, para as mulheres, respeitando o mosaico humano tão diverso que é o nosso querido Brasil