As raízes da situação que vive o Líbano

Beirute, manifestação em 8 de agosto

Publicamos abaixo uma contribuição sobre a atual situação no Líbano do sindicalista Mohamad Hachicho, vice-presidente da Confederação Geral dos Transportes Terrestres (CGTL) e secretário-geral adjunto da Federação dos Transportes Rodoviários, que esteve presente, como membro da delegação de seu país, à Conferência Mundial Aberta do Acordo Internacional dos Trabalhadores e Povos, realizada em Argel em outubro de 2017.

A estrutura do sistema gera crises, tensões e guerras civis
No Líbano é a própria estrutura do sistema, capitalista e comunitária, baseada em clãs, subordinada ao sistema capitalista mundial e a serviço dele, e que gera crises, tensões e guerras civis.

Após a guerra civil de 1975 a 1990 (entre muçulmanos, apoiados pela Síria, e cristãos, apoiados por Israel, NdT) o acordo de Taif (outubro de 1989) consagrou na Constituição um sistema multirreligioso (no qual o presidente da República deve ser cristão maronita, o primeiro-ministro muçulmano sunita e o presidente do parlamento muçulmano xiita, NdT) que incorporou o “comunitarismo político” existente desde a independência do Líbano em 1943.

Desde a década de 1990 foi aplicada no país uma economia neoliberal rentista, predatória e brutal. O movimento operário, os sindicatos, as instituições democráticas sociais e populares foram duramente atacados. A oligarquia consolidou a concentração do capital e do poder.

Essa situação econômica gerou distorções estruturais, sociais e financeiras, com dívidas enormes que ultrapassam 150% do PIB, níveis de vida e salários mais baixos, aumento do desemprego e o colapso dos serviços básicos como a saúde, a educação, eletricidade, água, transportes e seguridade social, somando-se a um sistema tributário injusto. Enquanto isso, o dinheiro dos grandes capitalistas e dos banqueiros foi enviado clandestinamente para paraísos fiscais fora do Líbano.

A crise desse sistema aprofundou-se e explodiu com a revolta de 17 de outubro de 2019, após o colapso do sistema bancário e a derrocada da taxa de câmbio da libra libanesa.
Essa foi uma revolta sem precedentes na história do Líbano, que atravessou todas as religiões, todas as comunidades e regiões do país, mobilizando todas as camadas da população.

A insurreição exigia a derrubada do regime e a saída de todos os corruptos. Foi um momento de confronto entre interesses políticos, econômicos e sociais contraditórios. A revolta popular demonstrou também a incapacidade do regime de enfrentar um movimento que representou, pela primeira vez, uma séria ameaça à classe dominante libanesa.

A chegada da pandemia do coronavírus exacerbou o impasse econômico e social do país. Mais trabalhadores perderam seus empregos e, portanto, seus rendimentos, totalmente ou em parte, após ter perdido seu dinheiro nos bancos.

A disseminação do vírus e a formação do governo de Hassan Diab (cujo gabinete foi apoiado pelo Hezbollah, vindo Diab a renunciar em 10 de agosto após a explosão no porto de Beirute, NdT) levaram a uma desaceleração do ímpeto das ruas, o que permitiu à classe dominante retomar a iniciativa, atacando e demonizando o movimento contra o sistema político e buscando reprimi-lo com suas milícias.

A explosão no porto de Beirute
A explosão de 4 de agosto no porto de Beirute é produto desse regime criminoso. Quer tenha sido resultado de uma ação militar ou de sabotagem sionista, ou resultado de negligência, o principal culpado por essa catástrofe é o regime assassino que tolerou, calou e encobriu o processo de armazenamento de 2.750 toneladas de material explosivo na periferia da capital e de suas áreas residenciais.

Essa catástrofe provocou uma interferência imperialista direta no Líbano, em nome de ajuda humanitária.  Aqui estão as frotas de guerra ocidentais e forças militares em solo libanês, em uma intervenção de fato, legitimada, nos assuntos internos do país.

Há uma tentativa, por parte das potências ocidentais e de seus associados locais, de acusar certos grupos de serem os responsáveis pela explosão, afirmando, sem provas, que ela ocorreu em um depósito de munições no porto de Beirute. O objetivo é tirar partido do desastre para fortalecer as divisões da comunidade, principalmente entre aqueles que participaram da revolta popular de 17 de outubro. Desta forma pressiona-se alguns partidos, quando todos são responsáveis, avivar as tensões comunitárias e religiosas, em particular entre os atingidos pela explosão que matou dezenas, feriu milhares, destruindo casas e edifícios.

A esquerda em crise
O ponto fraco do conflito no Líbano e na região é o papel da esquerda. As forças da esquerda estão em crise. Não conseguiram compreender o momento histórico do levante popular em 2019 e por isso foram incapazes de cumprir a sua missão política, que deveria ser a de dirigir, organizar e reunir as forças da insurreição.

Um programa político-social alternativo para o poder foi proposto. A identidade nacional unitária estava ausente, o que permitiu a alguns partidos políticos religiosos, marginalizar e demonizar o levante popular, e tornou mais fácil para outros surfarem na onda do movimento a fim de melhorar as condições para seu retorno ao poder.

O Líbano não é uma ilha isolada. O projeto imperialista agressivo e colonial, com todos os seus prepostos sionistas, reacionários, fascistas, está presente no Líbano. Ainda mais que aqui ocorreu um amplo movimento de resistência popular que se ramificou em todas as comunidades e que se constitui na ponta de lança do movimento de libertação nacional.

A situação no Líbano nesse momento é perigosa e encontra-se em uma encruzilhada. Tudo é possível e todas as operações em curso visam enfraquecer, senão acabar, com o movimento revolucionário e sua palavra de ordem “fora todos” e que acaba de ser retomado com a palavra de ordem “revolução!”.

As grandes potências, a começar pela França, buscam estabelecer um acordo político entre os partidos do regime para reconstituir o poder sob patrocínio internacional e regional, e estão prontas a fomentar uma escalada de tensões comunitárias e de segurança que poderá levar à guerra civil, último recurso contra a revolução, porque é ela que lhes causa medo.

Publicado no jornal francês Informações Operárias