Chile: greve geral para o país em 12 de novembro

Desde o dia 18 de outubro, quando uma manifestação de estudantes contra o aumento da tarifa de metrô em 30 pesos contagiou todo povo trabalhador, as mobilizações do povo chileno estampam o anseio de pôr fim às condições de vida que resultam das políticas e instituições criadas na ditadura militar e preservadas 30 anos depois de sua queda, pelos sucessivos governos, através da política da “Concertación”.

Um anseio que se expressa na exigência de uma Assembleia Constituinte que dê a palavra ao povo para que ele possa exercer sua soberania.

No último dia 12, como parte desse processo, ocorreu uma greve geral no país.
Publicamos nesta página um artigo de Javier Marquez, dirigente da Confederação Bancária do Chile e membro do Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos (AcIT).

“Greve geral no Chile
Transcorridos 26 dias de convulsão política no Chile, a deterioração do governo se aprofunda.

Diante da série de erros cometidos, como os militares nas ruas, o governo não têm como devolver a paz ao país.

A direita também faz infelizes intervenções e os congressistas dos partidos tradicionais disputam as telas das televisões, como ‘comentaristas da revolta social’.

O povo repudia, em geral, a saída política que tentam construir, e pede uma Assembleia Constituinte, mediante um plebiscito que cumpra com os requisitos de participação universal e que os eleitos nessa Assembleia o sejam pelo voto popular com o único fim de fazer a nova Constituição.

O governo, respondendo à pressão da direita e do grande empresariado, dá respostas que, na aparência, dialogam com esta demanda, mas com a intenção de manter a institucionalidade atual.

Piñera fala em Congresso Constituinte e apresenta uma série de medidas que supostamente solucionariam, em parte, os problemas que o povo reclama: aposentadorias, saúde, tarifas elétricas, impostos maiores para os setores com maiores rendas, entre outras.

A que mais ruído faz é a proposta de um Congresso Constituinte na qual o Congresso faria uma nova Constituição que seria submetida a um plebiscito.

Os trabalhadores e o povo rechaçam esta via e exigem um plebiscito para que seja eleita Assembleia Constituinte Soberana.

O povo quer exercer sua soberania
Em todo o país se realizam centenas de cabildos [assembleias que reúnem o povo, NdT] e debates sobre um processo constituinte que permita gerar uma nova Constituição. Só a Assembleia Constituinte permite reintegrar a legítima soberania do povo. O Congresso e o Executivo não são portadores da soberania que só cabe ao povo.

Nas segundas-feiras os congressistas têm sessão em Santiago, no ex-Congresso [antiga sede do Congresso Nacional que hoje situa-se na cidade de Valparaíso, NdT].

Na segunda, dia 11, repetiu-se a ação da semana anterior. Manifestantes, em marcha, rodearam o edifício, dizendo aos deputados não legislarem às costas do povo. Em um momento foi possível entrar no jardim do prédio, onde estavam alguns congressistas, aos quais foi dado conhecimento desses anseios. A bancada de oposição se mostrou disposta a escutar as demandas mais sentidas, mas a direita se negou rotundamente.

Terça-feira dia 12
Foi neste contexto que se desenvolveu na terça-feira, dia 12, a jornada da greve geral que teve muitos pontos fortes.

Em várias cidades houve marchas históricas quanto ao número de participantes. Em todo o país foram cerca de dois milhões e, segundo a polícia, desde o início do movimento foram quatro milhões de pessoas que se manifestaram com a Unidade Social que congrega mais de 200 organizações de todo o tipo, algumas nacionais e outras setoriais.

O eixo sindical cumpriu em grande parte as expectativas. Os portuários paralisaram 20 portos, os mineiros fizeram sua parte, os bancos funcionaram a “meia bomba”, caminhoneiros bloquearam estradas etc.

As diferentes marchas foram massivas em todo o país e as demandas se repetem com mais força,como resposta às propostas do governo.

A exigência é de pronta resposta do governo, caso contrário será avaliada a convocação de uma greve geral por tempo indeterminado.

Polícia reprime e monitora dirigentes
Em coletiva de imprensa ocorrida depois da avaliação das mobilizações do dia 12, foi novamente denunciado o uso criminoso de balas de borracha que deixaram duas pessoas, que circulavam no local, feridas.

O tema que cruza as mobilizações e é motivo de condenação mundial é a repressão desencadeada pela polícia, que apesar das denúncias não cessa.

Chegam a 200 os que tiveram os olhos furados por balas de borracha disparadas no rosto. Muitos vídeos demonstram a intencionalidade para causar danos irreparáveis.

É preciso dizer que quando se desenvolvem manifestações pacíficas, as forças policiais desaparecem e deixam que atuem grupos estranhos às organizações e ao povo que se manifesta. Quando a polícia atua, é sempre contra os manifestantes, reprimindo com gases, água com produtos químicos e disparos de bala de borracha, deixando muitos feridos. Há agentes da polícia que se infiltram nas marchas vestidos de civis e encapuçados provocando o caos.

Acrescente-se a isso documentos que comprovam que a polícia está vigiando dirigentes sindicais e do movimento social. Em fichas encontradas figuram, entre outros, como objeto de monitoramento pela polícia, Luís Mesina, porta-voz da Coordenação do Movimento “Não mais AFP” [Fundos privados de aposentadoria, NdT]. Mesina é também membro do AcIT. Diante dessa situação foram apresentados, em tribunais, recursos para a proteção desses dirigentes.

Ficha Luis Mesina

O povo segue em luta
Ao cair da tarde do dia 12, o presidente Piñera reuniu-se com o Ministro do interior e outras autoridades para avaliar a situação do país. Temia-se por um novo estado de exceção que devido ao rechaço da oposição e deferências de setores da direita, foi finalmente descartado.

O presidente propõe três acordos para superar a crise: pela paz, pela justiça e uma nova Constituição. Mas não apresenta soluções concretas.

A oposição qualifica a situação como falta de vontade do presidente já que não oferece nada de novo.

A nova Constituição seria sob o controle do Congresso com um plebiscito posterior para validá-la. Muito longe do que o povo quer.

Na questão da justiça são reformas que na realidade eram parte de seu programa e não solucionaram os problemas, são apenas para salvar o atual modelo. Em relação à paz social propõe um acordo entre os partidos, um pacto social.

Finalmente, as mobilizações prosseguem e o gás lacrimogêneo já é habitual nas cidades, o transporte escasseia, os serviços não funcionam, os bancos estão a “meia bomba” e a jornada de trabalho é cada vez mais curta.

Javier Marquez, Santiago, 13 de novembro!”