Espanha: as mobilizações da juventude

Publicamos abaixo o editorial de um suplemento do Jornal Información Obrera, da Espanha

Na terça-feira, 16 de fevereiro, o cantor Pablo Hasél foi detido pela polícia catalã na Universidade de Lleida, onde se refugiou. Neste mesmo dia, milhares de manifestantes, a maioria jovens, saíram às ruas de Barcelona exigindo sua liberdade. Desde então, já se passou uma semana fe manifestações em mais de 80 cidades da Catalunha e de todo o Estado, de Granada a Bilbao, passando em particular por Madrid e Valência. Em manifestações subsequentes, por exemplo em Barcelona, boa parte dos manifestantes são trabalhadores adultos e militantes.

Nessas mobilizações, a luta pela liberdade de Pablo Hasél se associou à rejeição à polícia (pela primeira vez em anos, gritos foram ouvidos pela dissolução das forças policiais), a denúncia do caráter franquista da justiça e a rejeição à Monarquia. Essas rejeições se afloraram porque é isso que a condenação de Hasél e a repressão às manifestações revelam: a natureza franquista do judiciário, da polícia, do regime como um todo.

Qual o significado dessas mobilizações, que acontecem em pleno estado de alerta (vigente até 9 de maio)? Seria errado acreditar que são apenas uma forma, por outro lado normal, de luta democrática. Elas expressam algo muito mais profundo: indignação social, revolta contra a política sem futuro imposto pelo regime monárquico e pelo capital financeiro que é aplicada pelo governo. Isso se expressou na rebelião ocorrida na vila de Linares contra a ação abusiva de dois policiais que estavam à paisana quando agiram contra um casal de cidadãos por meio de acusações excessivas e até com disparo.

Contra as manifestações seguiu uma ofensiva midiática que visa criminalizar os jovens, por conta da violência em algumas manifestações (violência, em grande parte, causada pela própria polícia ou por provocadores de origem duvidosa: são as imagens e os vídeos que circulam nas redes). De fato, vivemos uma situação de extrema violência: 44% dos jovens estão desempregados, o resto com empregos precários, cursos destruídos pelo ensino remoto e, ainda por cima, jovens, como toda a população, estão proibidos de se mover livremente… em nome de uma suposta luta contra a pandemia (que serve para proibir as manifestações populares, ao mesmo tempo que permite as dos fascistas em apoio à Divisão Azul, com slogans anti-semitas incluídos). Nunca a lei da mordaça foi aplicada com tamanha severidade (embora as promessas de sua revogação pareçam ter sido esquecidas).

Mas os jovens não estão sozinhos, da base da classe operária surge a resistência às contrarreformas que se anunciam, contra um novo corte nas aposentadorias, contra a intenção de manter ou aprofundar as reformas trabalhistas, de avançar no desmantelamento e privatização da saúde pública. A agenda do capital financeiro está completa. Anunciam que a monstruosa dívida do Estado que ultrapassa os 117% do PIB terá de ser paga e que a fantasia dos fundos europeus tem e terá um preço elevado para os trabalhadores e a população.

Estamos enfrentando uma mudança na situação

Já se completa quase um ano em que o Estado de alerta justifica todos os ataques as liberdades e medidas anti-operárias. Quando o desemprego ultrapasa 4 milhões, 900.000 trabalhadores e trabalhadoras são afetados pela flexibilização dos contratos de trabalho e mais de um milhão de autônomos estão sem nenhuma assistência, o fato de um dos setores mais oprimidos se mobilizar é um chamado a todos os demais da população oprimida e explorada.

Os panos quentes e os discursos de grandes dirigentes sindicais para contornar a situação são inúteis.
É a hora de organizar a resistência. É por isso que a coordenação estatal do Comitê pela Aliança dos Trabalhadores e dos Povos, que se reuniu neste último sábado (20), decidiu impulsionar iniciativas e ações contra as demissões nas fábricas, em defesa das aposentadorias, contra o desmonte da saúde pública, pela liberdade dos presos e a revogação da lei da mordaça.

Pelas liberdades, pelos direitos sociais e pela república

Como se vê nos gritos dos jovens nas mobilizações por Pablo Hasél, há uma relação direta entre a luta pela liberdade de expressão, contra a repressão policial, contra o judiciário franquista, e a luta pela mudança política, pela República. Assim como a luta pelas principais reivindicações e direitos sociais, pelos direitos dos povos, enfrenta os mesmos obstáculos e, é crescente na consciência de um setor da população, está cada vez mais relacionada à necessidade de acabar com esse regime.