Estados Unidos: um plano de estímulo marcado pelas tensões

A América não pode sobreviver com $7,50" diz um cartaz. "Estou em greve pelo meu futuro, pela minha família, por $15 dólares" diz o outro em referência a luta para aumentar o salário mínimo de $7,50 para 15 dólares.

Biden apresentou, já em 12 de janeiro deste ano, um plano de recuperação da economia, o “American Rescue Plan” (Plano de Resgate Americano), no contexto da Covid-19. Como havia anunciado em seu discurso de posse, ele busca situar esse plano em um quadro bipartidário, ou seja, obter o apoio de pelo menos parte dos parlamentares republicanos.

Ao mesmo tempo, a situação social é explosiva, com o desemprego maciço que perdura ao longo do tempo (10 milhões em janeiro de 2021). Preocupado com as mobilizações de 2020, Biden busca com seu plano acalmar a raiva de milhões de estadunidenses, muitos dos quais votaram nele para expulsar Trump.

Esse plano prevê 1.9 trilhões de dólares e exclui qualquer aumento de impostos, sendo esses valores liberados por meio de empréstimos. Prevê várias medidas de assistência imediata à população: um cheque de 1.400 dólares por pessoa, uma assistência mais dirigida aos pais de crianças pequenas, aos habitantes dos bairros majoritariamente negros e latinos, ajuda para inquilinos que não têm condições de pagar o aluguel, ajuda para pequenos negócios etc. Ele também contém uma série de extensões das medidas sociais para a duração da epidemia: o salário-desemprego para funcionários demitidos durante a pandemia seria estendida até setembro próximo, em vez de março nos planos anteriores; o seguro saúde que o empregador pagaria seria coberto pelo Estado.

Essas iniciativas estão muito aquém da aspiração de um verdadeiro sistema de seguro-desemprego e da criação de um verdadeiro sistema de saúde pública, mas proporcionariam uma trégua para milhões de desempregados nos Estados Unidos, especialmente os negros e latinos.

Uma medida anunciada por Biden, no entanto, vai além do alcance da epidemia: o aumento, até 2025, do salário mínimo para 15 dólares a hora (atualmente está fixado em 7,25 dólares). Esta é uma velha reivindicação dos sindicatos e de toda a esquerda. Com este anúncio, Biden procura associar a AFL-CIO à sua política.

No entanto, a maioria democrata no Congresso é frágil: dez cadeiras na Câmara dos Representantes; no Senado, a vice-presidente tem o voto de desempate entre os dois partidos. Assim, a oposição do senador democrata Joe Manchin III ao aumento foi suficiente para permitir que fosse aprovada uma emenda republicana removendo a medida do plano.

Ao argumento dos republicanos de que o aumento do salário mínimo em tempos de crise ameaçaria as pequenas empresas, Sanders respondeu que este deverá ser gradual e que está fora de questão concedê-lo durante a pandemia.

Os eleitos republicanos propuseram outro plano, no valor de 600 bilhões de dólares. Biden está negociando um acordo com eles, incluindo o aumento do salário mínimo, promessa que ele precisa cumprir para preservar seu mandato. Para fazer isso tenta se apoiar nos representantes de grandes empresas americanas, que ele encontrou pessoalmente: a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, principal associação de grandes empregadores, já lhe disse que não concorda.

A situação social é explosiva e a questão do aumento do salário mínimo concentra suas contradições. Os milhões de trabalhadores pobres esperam esse aumento imediatamente, e não em cinco anos. Mas Biden tem dificuldade até para cumprir a frágil promessa de um aumento em cinco anos para seus eleitores, enquanto o número de greves nos Estados Unidos aumenta a cada ano: 25 greves em 2019 envolveram mais de 1.000 trabalhadores, em comparação com uma média anual de 15 greves ao longo da década 2010-2019.

Devan Sohier
Publicado no jornal francês Informations Ouvrières
Tradução Adaias Muniz