Infiltrado na Klan: um manifesto contra o racismo!

Antes mesmo de ser indicado ao Oscar, o filme de Spike Lee demonstrou sua força com um humor afiado, roteiro crítico e boa direção, abordando a questão do racismo com uma mensagem direta e pesada, ainda que preserve um ar leve em diversos momentos por mesclar comédia e o drama.

O filme é uma adaptação da história real do jovem policial negro, Ron Stanllworth (John David), que com maestria conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan (KKK), organização de supremacia branca.

Antes mesmo de Ron se tornar policial, o filme já aborda o racismo na cidade de Colorado Springs, desde a dificuldade para Ron ser aceito como policial, até a sua desqualificação profissional pelo simples fato de ser negro, refletindo o racismo institucional e as barreiras para se consolidar como policial.

Para sair de trás do balcão e se livrar de um trabalho burocrático, Ron Stanllworth propõe se infiltrar em uma atividade policial investigativa, qualquer que fosse e depois de receber negativas, ele acaba designado para investigar uma atividade organizada pela União Estudantil Negra (UEN) da Universidade do Colorado, liderada por Patrice Dumas (Laura Harrier) que convida um líder negro ligado aos Panteras Negras para palestrar.

A organização dos negros sempre foi uma ameaça

O monitoramento de toda atividade que as organizações negras realizavam, como retratado no filme, demonstra que nossas organizações sempre foram vistas como inimigas da ordem atual, e para isso precisam ser sempre monitoradas, perseguidas e em último caso, destruídas. Esse foi e ainda é o pensamento do estado baseado no modo de produção capitalista. Como dizia Steve Biko “capitalismo e racismo são duas faces da mesma moeda”.

Porém, após ver um anúncio nos classificados no jornal divulgando a KKK, Ron Stanllworth decide responder o anúncio, impulsionar sua carreira de detetive e investigar o grupo mais conhecido de supremacia branca dos EUA, conhecido por seus atos racistas. Esse é o momento que todos nós nos perguntamos: mas como assim um negro se infiltrou na KKK? A resposta para isso, deixaremos para o próprio filme.

Já infiltrado na KKK e sendo o cérebro de toda operação, Ron Stanllworth consegue o contato e a confiança de David Duke (Tropher Grace), principal líder na época. Hoje ex-lider da KKK, David Duke foi um dos apoiadores de Trump e declarou ser simpatizante de Bolsonaro, certamente pela sua postura racista e por sua política de austeridade que interessa totalmente aos EUA.

Nenhum membro da KKK, nem mesmo o seu líder, imaginaria que algum negro teria a audácia de se infiltrar na organização, quanto mais conseguir realizar um trabalho detalhado conseguindo desarticular ações terroristas e garantir prisões de seus membros. Em meio a trama investigativa, Patrice Dumas, líder da UEN, tem um papel de destaque, certamente inspirada em Angela Davis, ela é o alvo do ataque terrorista da KKK, como plano B por não terem conseguido atingir o local aonde os negros estavam reunidos.

O filme e sua atualidade

Após o fim da investigação e da desarticulação de um atentado terrorista, todos os policiais são dispensados e orientados a fingirem que nada daquilo aconteceu. Claramente por ordens que vieram “de cima” do governo dos EUA. Nas indicações dos filmes ao Oscar, “Infiltrados na Klan” está entre os mais atuais.

Ao final, Spike Lee faz um paralelo direto entre as ações da Ku Klux Klan e sua política com a situação dos negros dos EUA, o episódio da marcha da “supremacia branca” em charlotesville e a política racista de Trump.

As semelhanças com a situação no Brasil são evidentes quando analisamos os interesses políticos do governo Bolsonaro, não apenas pelas suas declarações racistas, mas sim pelas suas primeiras medidas no governo, que prevê congelar as titulações de terras quilombolas e demarcação das terras indígenas, a politica de genocídio da juventude negra com o discurso que “bandido bom é bandido morto” sendo que os jovens negros são sempre os retratos falados, a tendência do encarceramento do povo negro aumentar, com a discussão da maioridade penal. Assim como a reforma da previdência, que é a principal exigência do mercado financeiro internacional e atingirá sem dúvida cada um dos trabalhadores negros, assim como a população em geral.

Apesar de sabermos que dias difíceis estão por vir, nada está dado e apenas a luta nas ruas pode determinar o rumo de nosso país. Uma das principais conclusões que podemos tirar do filme é que precisamos estar organizados. Hoje se mantém a necessidade dos negros terem a sua própria organização, discutir suas pautas e definirem as suas ações.

Nesse intuito o livro “Questão Negra: A luta pela consciência negra e o combate pela revolução” que será lançado em fevereiro/2019 é uma modesta contribuição para o momento que estamos vivendo, partindo das elaborações do Movimento de Consciência Negra, liderado por Steve Biko na África do Sul. Que o filme de Spike Lee nos sirva de alerta para não baixarmos a guarda e nos mantermos firmes na luta

Joelson Souza, em 29/01/2019