O capitalismo: um caos mais perigoso que o próprio coronavírus

Reproduzimos artigo de Stephane Marati, publicado no jornal francês Informations Ouvrières do Partido Operário Independente em 11 de março de 2020

A humanidade descobre, com espanto, que um vírus, na maioria dos casos benigno, acaba de desencadear um choque econômico fenomenal no mundo

A produção industrial na China desabou em proporções jamais vistas. As companhias aéreas mundiais enfrentam a pior crise de sua história: a Cathay Pacific reduziu seu programa de vôos em 75% e colocou 25.000 funcionários em licença sem remuneração, isto é, sem salário. A Korean Air reduziu sua capacidade em 80%. American Airlines anuncia uma queda nas viagens para a Ásia da ordem de 75% a 100%.

As reservas de passagens aéreas com destino à Europa a partir dos continentes americano, asiático e africano caíram 79% na última semana de fevereiro. A companhia alemã Lufthansa decidiu manter em solo 150 aviões. Muitas empresas estão prevendo demissões, e até mesmo declarar insolvência. Os mercados de bolsas entram em pânico. Toda a economia é golpeada, em toda parte.

Atordoado com a violência do choque, o ex-economista-chefe do FMI Kenneth Rogoff teme o momento onde “as cadeias globais de valor se quebrarão” e preocupa-se que “a probabilidade de uma recessão mundial aumentou consideravelmente, muito além do que querem admitir os investidores e instituições internacionais em suas projeções habituais”.

Sem dúvida, a China abriga hoje mais de 20% da indústria mundial. Mas, nem o lugar ocupado pela China na produção e no comércio internacional nem a propagação do vírus no mundo podem explicar por si só a amplitude do desastre. Na verdade, o coronavírus revelou a fragilidade, e principalmente, a periculosidade de todo um sistema.

Em 1976, o economista americano Hyman Minsky explicou que uma crise pode se desenvolver quando o sistema financeiro amplifica os choques, em vez de absorvê-los. Ora, o sistema financeiro conheceu inúmeras evoluções no curso da história, que o tornaram cada vez mais instável ao ponto de amplificar infinitamente, até o crash e à crise sistêmica, o fato mais banal e mais imprevisível. Não importa onde, não importa quando.

Em 1944, os acordos de Bretton Woods impuseram ao mundo o dólar como moeda de referência e meio de pagamento internacional. Depois, em 15 de agosto de 1971, o representante de Wall Street na Casa Branca decidiu o fim da convertibilidade do dólar em ouro. Assim, ele impôs, em nome da manutenção da ordem capitalista mundial, o regime das taxas de câmbio flutuantes entre as moedas, estabelecidas em função das relações de força econômicas e militares, para obrigar os outros Estados a agir na direção dos interesses estadunidenses.

Esse giro histórico permitiu que se desenvolvesse um sistema de produtos financeiros complexos, desconectados da produção e do comércio real de mercadorias, que alimenta, em proporções monstruosas, a especulação e o parasitismo, dos quais a crise financeira de 2008 foi a última e espetacular expressão.

Já em 2018, o Fórum Econômico Mundial inquietava-se: “Os bancos centrais compraram 21 trilhões de dólares em dívida pública no mundo desde 2008, empurrando os investidores a buscar rendimentos nos mercados mais arriscados (…) (Isso) nos salvou do crash de 2008 e acelerou a recuperação, mas (…) também encorajou uma acumulação de riscos no sistema financeiro. Os mercados e a economia estão prontos para assumir as consequências?”

A começar pela liquidação dos sistemas de proteção social, das pensões, dos serviços públicos e dos hospitais para reembolsar os gigantescos créditos subscritos pelos sucessivos governos a fim de salvar os bancos e os ricos patrocinadores de Macron?

A extrema instabilidade do sistema financeiro internacional, que resulta desse encadeamento histórico e do impasse ao qual nos leva esse sistema, mergulha o mundo em um caos muito mais perigoso, para a humanidade, que o próprio coronavírus.