O imperialismo contra o povo sírio

Lucien Gauthier • 

 As imagens de guerra, dos massacres e de desolação na Síria circulam pela mídia internacional. As grandes potências imperialistas servem-se da emoção legítima para validar a ideia de que não existe outra via senão a da intervenção “humanitária”  dessas grandes potências.

Em 4 de setembro de 2012, durante um discurso, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, reconheceu que “aqueles que fornecem armas a um ou a outro campo só fazem piorar o sofrimento dos sírios”. Uma das agências da ONU, responsável por questões humanitárias, já apontou, sem que isso tenha sido divulgado pela imprensa, que os massacres são feitos pelos dois lados. A situação na Síria tornou-se uma guerra civil. É um novo elo na cadeia da desagregação de nações, que, depois da intervenção imperialista, em 2011, viu a Líbia explodir, tendo como consequência imediata a desagregação do Mali, cujo norte está sob controle de milícias islâmicas. Milícias, grupos mafiosos, mercenários, todos usam a região para operações militares, sequestros, massacres, tráfico. Toda a região do Saara está ameaçada, notadamente a Argélia, sob o risco de uma nova tentativa de desagregação. Ao mesmo tempo, o Sudão – dividido, sob a égide da ONU, entre o sul e o norte – vê os dois novos países se confrontarem militarmente para controlar o petróleo. O Iraque e o Afeganistão, há muito tempo ocupados pelas tropas imperialistas, estão desagregados e entregues à violência, e, como produto desta situação, o próprio Paquistão está à beira da explosão, enquanto as guerras e conflitos se multiplicam sobre o continente africano. Com a guerra civil na Síria, a ameaça se estende a todos os países da região, e particularmente ao Líbano, onde os enfrentamentos se multiplicam. Nesta situação, o Irã está na mira e sob a ameaça de uma intervenção militar.

 

O imperialismo contra a revolução

A situação de desagregação das nações e dos povos da região é o produto direto da reação do imperialismo face aos processos revolucionários na Tunísia e no Egito, iniciados há dois anos. As potências imperialistas procuraram sustentar, a todo o custo, os regimes de Ben Ali (Tunísia) e de Mubarak (Egito). Quando, face à força revolucionária do movimento das massas, os dois ditadores caíram, foi necessário que o imperialismo, com a colaboração de todas as forças aliadas, barrassem a rota da revolução, preservando os regimes existentes e repintando-os com cores de “democracia”  , batizada de “transição democrática”. Para isso, o imperialismo teve que se apoiar nos “inimigos de ontem”, os movimentos islâmicos, para associá-los com forças “laicas” vindas dos regimes de Mubarak e de Ben Ali, montando governos nos quais a primeira tarefa é a de conter o processo revolucionário. Mas se esta condição é necessária, não é suficiente. Seria preciso indicar para todos os povos da região que o caminho da via revolucionária para varrer os regimes não podia se desenvolver. A Líbia foi o laboratório e o exemplo para o imperialismo, provocando e iniciando uma guerra civil. Em seguida, o imperialismo aproveitou-se disso para intervir militarmente, devastar a Líbia e, de passagem, assumir o controle direto pela produção petrolífera do país.

 

A Síria no olho do furacão

É por isso que o regime sírio não corresponde mais às necessidades do imperialismo, na nova situação aberta há dois anos. Hafez al-Assad, o pai do atual presidente, tomou o poder com um golpe de estado em 1970. Ele fundou então um regime policial de partido único. Os dirigentes do regime, com base em um setor minoritário da população, os alauítas (segmento dos xiitas, NdT), se aliam rapidamente com a camada comerciante, saída da maioria demográfica sunita, e aos cristãos para assentar a dominação do regime, em benefício desta minoria que vai se enriquecer. A política do regime se caracteriza por uma oscilação regular entre o imperialismo e a União Soviética. O regime joga com esta situação e preserva também certa autonomia.

Em 1974, em seguida a um acordo de desengajamento militar com os israelenses, Assad recebe em Damasco, capital do país, o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. De 1976 a 1982, uma ofensiva armada da Irmandade Muçulmana, apoiada por Jordânia e Iraque, tenta derrubar o regime, e provoca como movimento contrário uma repressão sangrenta. A Síria aproxima-se então da União Soviética. Mas, ao mesmo tempo, o país é também utilizado pelo imperialismo para manter a ordem no Líbano, seu vizinho a oeste. Depois da guerra civil que desagrega o Líbano, a Síria contribui no restabelecimento da ordem. Em 1987, as tropas sírias ocupam o Líbano e asseguram a ordem, em nome da estabilização regional, que inclui a existência do Estado de Israel, na fronteira sul dos dois países.

Durante a guerra entre Irã e Iraque, o regime sírio apoia o Irã, enquanto o imperialismo estadunidense sustenta o Iraque, encarregado de atacar o regime iraniano que, depois da queda do xá do Irã (1979), se opôs ao governo dos Estados Unidos. Mas, com a decomposição da União Soviética e sua destruição, o regime teve então de se reaproximar do imperialismo estadunidense. É assim que, em 1990, Hafez al-Assad integra a Síria na guerra estadunidense contra o Iraque, enviando 20 mil soldados. Por outro lado, recusa qualquer envolvimento nos acordos de Oslo, que marcam a criação da Autoridade Palestina. O regime que, durante décadas, usou como recurso uma fraseologia socializante e nacionalista árabe, usa a questão palestina para se apresentar como um regime anti-imperialista e anti-israelense.

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Bachar al-Assad, que acabava de suceder seu pai, morto um ano antes, colabora com os Estados Unidos em uma pretensa guerra contra a Al Qaeda (pretexto para a intervenção no Afeganistão, e, dois anos mais tarde, no Iraque). Enquanto isso, a Síria continua na lista estadunidense de países ligados ao “terrorismo”, em razão de sua oposição ao Estado de Israel, que permanece com a ocupação militar das Colinas de Golã, território sírio. Para sair da lista, os Estados Unidos exigem do regime sírio que avance mais na submissão às exigências do imperialismo. Em fevereiro de 2005, o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri permite ao imperialismo estadunidense e ao Estado de Israel acentuar a pressão, acusando Damasco de estar por trás do atentado. Nesta situação, as tropas sírias saem do Líbano, que ocupavam desde 1897, tendo como resultado a estabilização da ordem na região.

Em 2006, considerando a Síria como um elemento essencial da estabilidade regional, o relatório dos senadores estadunidenses Baker e Hamilton sobre o Oriente Médio defende a retomada do diálogo. Em 2008, o presidente Bachar al-Assad visita, na França, por ocasião do Encontro de Cúpula do Meditarrâneo, o presidente francês, Nicholas Sarkozy.

Sempre qualificando a Síria como base de sustentação do terrorismo, os Estados Unidos protelam o rompimento de relações com as organizações libanesas anti-israelenses e com o Irã. O imperialismo estadunidense multiplica os sinais de reaquecimento, considerando o regime sírio como um fator de ordem na região. Mas, depois do início das revoluções na Tunísia e no Egito, a existência de um Estado sírio centralizado, nos quais as decisões não dependem diretamente do imperialismo estadunidense, país que joga um papel essencial no Líbano e se recusa a isolar o Irã, se poderia ter sido um fator de estabilidade, tornou-se no presente contraditório com a política do imperialismo estadunidense, tal como ela se manifesta na agressão contra a Líbia.

 

O regime sírio não corresponde mais à nova situação

A reorientação da política do regime sírio, depois da ascensão ao poder de Bachar al-Assad, respondendo às exigências do FMI, agravou todas as disparidades regionais até então amenizadas pelas subvenções maciças distribuídas pelo regime. Esta reorientação tinha provocado no seio do regime fortes contradições entre aqueles que queriam ir mais longe na colaboração com os Estados Unidos e aqueles que se opunham, levando a ajustes de contas e execuções. Desde a queda de Ben Ali, em preocupação com o contágio revolucionário, o governo sírio anunciou que daria onze dólares por mês às famílias mais desfavorecidas. Rapidamente, o FMI intimou a Síria a abandonar qualquer subvenção alimentar. Recomendou igualmente que aumentasse as tarifas de eletricidade, que eram muito baixas graças às subvenções do Estado.

A privatização do sistema econômico sírio, produto da pressão dos Estados Unidos, recebeu certamente a benção de uma fração da casta dirigente do país, mas mergulhou sobretudo uma parte importante da população mais ainda na pobreza, ampliando a corrupção dos grupos ligados ao poder que procuravam se apropriar do produto das privatizações. Esta situação avivou os particularismos existentes, reforçada pela ação de grupos como a Irmandade Muçulmana, os serviços secretos estrangeiros e certas frações rompidas com o regime.

A Síria é, de fato, um mosaico de povos e religiões (sunitas, xiitas, alauítas, druzos, cristãos, curdos) “mantido”  há mais de meio século por um regime no qual os dirigentes, e claramente o Estado-Maior, vieram da comunidade alauíta e se apoiam na burguesia comerciante sunita e os cristãos. Com a marcha da revolução na região, com a desestabilização do Egito, o regime, por sua vez, reage, como sempre fez, pela repressão brutal, e procurando as negociações com os Estados Unidos. Mas, agora, os Estados Unidos não querem negociar, porque isso implicaria em reconhecer uma autonomia relativa do regime sírio. O que eles querem é um regime sob suas botas.

O regime sírio, na última década, ofereceu muitas garantias ao imperialismo. Mas a natureza deste regime, fruto de um consenso entre diferentes frações e centralizado como um regime militar e policial, não pode se “reformar” como o imperialismo gostaria. Ao se questionar os equilibríos que fundam o regime, o fazem explodir. A pressão estadunidense para tentar provocar um golpe de Estado no seio do regime e a utilização, como meio de pressão, do “Exército Sírio Livre”, resultaram numa verdadeira guerra civil, porque o núcleo central do regime não está dividido.

 

Catar, lugar-tenente do imperialismo

Uma vez mais, o Catar, como foi o caso da Líbia, teve um papel determinante na situação, financiando e armando o suposto “Exército Sírio Livre”. Os dirigentes do Catar são próximos da Irmandade Muçulmana síria, que tem um lugar central no suposto “Conselho Nacional Sírio”. A Turquia é o lugar de passagem do armamento do Exército Sírio Livre, financiado pelo Catar e pela Arábia Saudita. Entram na Síria numerosos mercenários e islamitas, vindos da Líbia e de fora dela, mas também tropas especiais dos países imperialistas. Os interesses econômicos dos círculos dos Estados Unidos e do Catar não estão ausentes. O emir do Catar foi, há muito tempo, próximo de Bachar al-Assad. Existia até o projeto de um gasoduto saindo do Catar, atravessando a Síria e chegando à Turquia. Este gasoduto teria permissão do Catar para exportar diretamente para a Europa, evitando o estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, sob controle iraniano. Em 2004, forças especiais iranianas destruíram uma plataforma de perfuração do Catar, porque o emirado avançava muito no campo de gás natural compartilhado por Catar e Irã. Na época, Bachar al-Assad tinha recusado este gasoduto, para não ir contra os interesses do Irã, seu aliado. Em revanche, um novo poder na Síria, financiado pelo Catar, poderia permitir relançar esse projeto. A Turquia e a Europa, aliás, eram favoráveis à criação desse gasoduto, para serem menos dependentes do gás russo, o que explica também, dentre outras coisas, o apoio de Moscou a Damasco.

É nessas condições que a reação do imperialismo ao processo revolucionário na Tunísia e Egito, que colocam no centro a soberania dos povos e das nações, detona uma marcha generalizada à barbárie. Nesse cenário, em que todas as aventuras são possíveis, o governo israelense ameaça de bombardear instalações nucleares do Irã. Até o presente, o governo estadunidense procurou frear os israelenses, não para defender a soberania do Irã, mas por medo de uma desestabilização ainda mais generalizada. Mas é evidente, para o governo dos EUA, que no quadro do seu projeto de “Grande Oriente Médio”, baseado na desagregação das nações, um novo recorte da região, com os regimes sob suas botas, implica que o problema do Irã seja resolvido e que uma “solução” seja encontrada na Palestina. A própria existência do povo palestino, quer dizer, não somente de populações vivendo na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, mas também no território israelense, na Jordânia, no Líbano, coloca a questão do direito do retorno para todos os refugiados, o que não podem aceitar nem os Estados Unidos nem o Estado de Israel. Há o risco de uma generalização das guerras.

 

O direito dos povos é contraditório com o imperialismo

É por isso que a 4ª Internacional, desde janeiro de 2011, tomou posição em apoio às revoluções na Tunísia e no Egito, pois é a luta dos trabalhadores e da população que pode realizar a soberania das nações, rompendo as ligações de subordinação com o imperialismo (como por exemplo o acordo de associação com a União Europeia, na Tunísia). Este combate pela ruptura dos elos de subordinação ao imperialismo, pela expropriação dos capitalistas estrangeiros das empresas que eles pilharam, constitui a base da soberania da nação. Considerando que o imperialismo mundial é o principal inimigo dos povos, a 4ª Internacional não poderia, em nenhum caso, considerar que o imperialismo poderia ajudar os povos por meio de intervenções militares. É por isso que a 4ª Internacional tomou claramente posição contra a intervenção militar na Líbia e denuncia a ameaça que pesa sobre a Síria, diferentemente da Internacional Socialista, que apoia a “ingerência humanitária”, e de numerosos partidos comunistas e do Secretariado Unificado que, sem se pronunciarem de maneira aberta por uma intervenção, defendem a queda do regime sírio por meio do armamento e do financiamento da “oposição”, o que o Catar e os Estados Unidos já estão fazendo há meses!

É significativo, na Tunísia, que o governo de união nacional “laico-islâmico” mantenha todos os acordos de associação com a União Europeia, bem como aqueles firmados com o FMI, e continue com a política econômica de Ben Ali. O processo revolucionário, que foi contido mas não foi massacrado, vê as massas procurarem as vias da soberania. Deste ponto de vista, é significativo que, desde o congresso da União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT), no final de 2011, que adotou a palavra de ordem “Nem Catar, nem Estados Unidos, Tunísia livre!”, ela está gritada em todas as manifestações. A UGTT tomou, aliás, posição contrária à ameaça de intervenção externa na Síria.

A 4ª Internacional não tem interesses distintos dos da classe trabalhadora, e a classe não tem nenhum interesse na guerra na Síria e nos bombardeios no Irã, que reforçam a submissão ao imperialismo. A classe operária precisa de sua soberania e de varrer o imperialismo.

Artigo publicado na Edição 75  (janeiro de 2013) de
A Verdade,  revista teórica da 4ª Internacional