Revolução digital, inovação e superexploração capitalista

Artigo originalmente publicado na Revista A Verdade, n° 93

Em 1966, há mais de 50 anos, Pierre Lambert publicou uma brochura sob o título “Automação e revolução” (1). Depois de analisar o lugar da automação na evolução técnica do capitalismo, ele assinalava então suas consequências: desqualificação profissional, desemprego que atinge a juventude, e sua introdução nas grandes empresas automobilísticas, como a Renault. Em uma passagem que tinha como intertítulo “O caráter de classe da automação”, Pierre Lambert indicava:

“As consequências da automação para os trabalhadores são apontadas num relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Operários, técnicos e gerentes levaram uma vida para adquirir uma especialização. Agora, encontrarão muita dificuldade para se adaptar às modificações brutais do mercado de trabalho e serão reduzidos a uma vida miserável. Seus filhos também serão duramente afetados. A automação destruiu as antigas especialidades. É possível que uma pequena minoria de analistas, de programadores e de técnicos em eletrônica vejam sua condição melhorar, mas a esmagadora maioria dos trabalhadores de todas as categorias assistirão sua sorte se deteriorar e o futuro se fechar.

As máquinas eletrônicas poderiam livrar mestres e alunos do trabalho necessário à assimilação dos hoje indispensáveis conhecimentos de base, permitindo o florescimento da época da verdadeira cultura total. Mas, nas mãos do capital, o ensino automatizado será usado para segmentar ainda mais o conhecimento e ensinar ao trabalhador apenas aqueles movimentos indispensáveis à produção das mercadorias, ou seja, à obtenção do lucro. O surgimento da automação deve introduzir profundas modificações na organização do trabalho e nas relações que se estabelecem, na indústria, entre o capital e o operário. A indústria automatizada não pode tolerar conflitos trabalhistas, pois qualquer interrupção na produção acarreta imediatamente consideráveis perdas para o capital. Se este se encontra aparentemente numa posição bastante vulnerável, visto que uma greve de um pequeno grupo de homens é suficiente para imobilizar tudo, a própria natureza da produção lhe oferece uma série de vantagens para criar a disciplina totalitária indispensável ao bom funcionamento da indústria. Não se encontra mais diante de uma vasta concentração operária; necessita apenas de um número mais reduzido de operários qualificados, trabalhando de maneira isolada, em condições psicológicas e mentais extremamente penosas. A automação deu um novo passo rumo à degradação do trabalho. O trabalhador tem apenas que monitorar alguns botões e monitores sobre uma placa luminosa. Esse trabalho é realizado em salas de controle isoladas e demanda uma tensão nervosa extrema, que provoca no operário ‘uma debilidade intelectual e psíquica, uma irritabilidade, bem como outros distúrbios funcionais análogos’ (relatório OCDE). Por meio da máquina eletrônica, a dominação do capital exerce sobre o operário uma pressão extrema.”

A análise de Pierre Lambert se confirmou totalmente. Lembremos que, na época, os pensadores de “esquerda” previam um desenvolvimento tempestuoso das ciências e das técnicas, e o desaparecimento das contradições do capitalismo. Se, em 1968, a greve geral bloqueou por anos – 20 anos, segundo um representante da burguesia francesa – as reformas e as tendências destrutivas do capital, a crise atual reforça a necessidade, para o capital, de empurrar ainda mais longe a sua ofensiva.

É preciso assinalar a resistência de classe que se exerce plenamente e retoma o que dizia Lênin em “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”:

“(…) se as forças do imperialismo não enfrentassem resistência, desaguariam inevitavelmente nisso mesmo. (…) Não se deve, contudo, esquecer as forças que se opõem ao imperialismo, em geral, e ao oportunismo, em particular, e que, naturalmente, o social-liberal Hobson não pode ver” (2).

Com esse mesmo método de análise de 1966, publicamos duas contribuições de Stéphane Marati: a primeira sobre a “revolução” digital, e a segunda sobre o futuro da inovação, acompanhadas de dois boxes, um sobre “Google Car e Siri… invenções financiadas pelo Departamento de Defesa estadunidense” e outro sobre “A mais-valia segundo Marx”. Com essas contribuições sobre o digital e a inovação, desejamos fornecer elementos úteis à reflexão e à análise de cada um, e sobretudo à organização prática do combate contra as formas atuais da exploração capitalista.

A redação de “A Verdade”

I. Digital: uma revolução?

por Stéphane Marati

Algumas pessoas começam a se desesperar com este velho mundo, incapaz de oferecer um futuro e perspectivas a sua juventude e afundando cada dia um pouco mais na regressão. Felizmente para nós, o messias chegou.

O novo salvador do capitalismo fez uma entrada estrondosa no século 21, da qual é impossível escapar. Eis que chegou a nova “revolução digital”, tão importante, dizem, quanto a invenção da máquina a vapor ou da eletricidade. A humanidade estaria às vésperas de uma nova era. Não haveria mais necessidade de revolução social, pois o regime da propriedade privada dos meios de produção descobriu um novo eldorado. Deixemos de lado o velho mundo das conquistas, é preciso agora se adaptar à “nova economia”! Isso é, em substância, o que se ouve sem parar dia e noite.

“Não inventamos nada”

Os presidentes das startups (3) que pretensamente revolucionaram o mundo contemporâneo, no entanto, dizem outra coisa. Durante uma conferência em Vancouver, no Canadá, no início de 2016 (4), os dirigentes de Airbnb e do Uber declararam: “Nós não inventamos nada”. Estupor e tremores entre os bem pensantes…

Mas é verdade. Como indica um recente relatório, “Uber não é particularmente criador de uma inovação importante, mas de uma evolução tecnológica (acompanhada de uma estratégia de contornar a regulamentação sobre o transporte público de passageiros em proveito da relação privada). O agrupamento de táxis G7 criou em 1964, em Paris, a primeira central de rádio, que tinha por função colocar um cliente em contato com um carro via uma operadora. G7 e sua sociedade irmã Taxis Bleus (Grupo 7) dispõem de aplicativos na internet com a localização do carro reservado e utilizáveis em smartphone (…). Airbnb coloca particulares em contato para a locação de toda ou de uma parte de uma habitação privada, cuja vocação inicial não é destinada a uma acolhida hoteleira. Ainda dessa vez, o modelo não é nada inovador. Os modelos de Bed and Breakfast anglo-saxão ou de turismo rural são amplamente pré-existentes. O site simplesmente intensificou a prática ampliando a possibilidade de alojamento em qualquer lugar inicialmente não previsto para esse uso” (5).

Por trás dos discursos mirabolantes, e muitas vezes delirantes, sobre a nova época da civilização humana, após a entrada na era do digital, a realidade é mais prosaica. De um lado, as empresas, tendo acolhido a virada digital, tiveram a sua lucratividade aumentada em 25%, com a lucratividade das demais afundando na proporção inversa. De outro lado, 65% das destruições de empregos na indústria são devidas aos ganhos de produtividade, em grande parte ligados a evoluções digitais: redes e programas informatizados, desmaterialização, robótica, automação.

E-mails noturnos

A chegada do digital foi acompanhada de uma mudança radical nos modos de organização e de gerenciamento das empresas. Os computadores portáteis substituíram os computadores de mesa; os assalariados podem se manter conectados a sua empresa 24 horas por dia graças a redes seguras; a disponibilidade de smartphones se generalizou. Receber e-mails de seu superior hierárquico ou de seus colegas em plena noite ou no fim de semana tornou-se moeda corrente. As redes sociais de empresas se multiplicaram, com a possibilidade de marcar ou de “curtir” seu colega sentado em frente ou em um escritório situado a milhares de quilômetros. O patronato se aproveitou disso para generalizar o funcionamento no modo projeto, com equipes constituídas especificamente para uma duração determinada, o desaparecimento de linhas hierárquicas e a introdução de métodos ditos “ágeis” e do “lean IT” (6). Está fora de questão haver assalariados qualificados e especializados, inclusive para tarefas particularmente complexas que demandam conhecimento, experiência e perícia, exceto por um núcleo extremamente limitado que dá as diretivas para as equipes, às quais todos deverão se conformar.

É o reino da standardização e da polivalência, inclusive nas atividades de informática, nas quais se encontram exércitos de engenheiros saídos das grandes escolas.

“Avaliação por seus pares”

Os assalariados são chamados a marcar o desempenho e a contribuição de seus colegas para a realização de objetivos da equipe por meio de métodos de avaliação a 180º ou a 360º, inclusive nas equipes em que os trabalhadores estão espalhados por vários países. Em setembro de 2015, o relatório de um “think tank” (centro de estudo) destinado a “antecipar as mutações ligadas às tecnologias e a seus usos” (7) explicava:

“Toda uma série de atividades apoia-se na avaliação da atividade por seus pares. Não é mais somente o gerente que avalia o trabalho, são também os colegas, os colaboradores. Não é mais o indivíduo que define com o seu gerente os objetivos a atingir, é a equipe inteira que o faz, e define um contrato de compromisso. Na Poult (produtora de biscoitos), na França, ou na Figure53 (empresa de softwares), nos Estados Unidos, os salários são fixados pelas equipes. Na Valve (empresa de jogos eletrônicos), os empregados estabelecem uma classificação dos colaboradores para determinar aqueles que merecem o melhor salário. Ou ainda na Forbes (imprensa econômica), as gratificações são atribuídas pelos colegas. Na Morning Star (Estados Unidos), fabricante de molho de tomate que emprega mais de 700 pessoas, os empregados negociam coletivamente seus objetivos em função do que estimam ser bom para a produção e para a empresa. Essas negociações conduziram a contratos de compromisso que os colaboradores têm então a obrigação de honrar”.

É de dar arrepios… Nas empresas em que trabalhamos, combatemos há anos a introdução desses novos métodos. É, portanto, com certa surpresa que vimos as federações FAPT-CGT, FO-COM e CFDT assinar em setembro último um “primeiro acordo relativo ao acompanhamento da transformação digital na Orange”, que prevê, em seu artigo 2.3, “testar, antes do fim do ano de 2017, um novo dispositivo de entrevista individual que permita uma avaliação mais colaborativa (por exemplo: avaliação por seus pares)”.

Sob a pressão de uma exigência permanente de rentabilidade

Em nome da autonomia e com a ajuda das ferramentas digitais, os assalariados passam de uma lógica de obrigação de meios (o assalariado coloca a sua atividade à disposição de seu empregador, sob a subordinação do qual se coloca em termos de duração da jornada, lugar de trabalho e meios, em contrapartida da qual recebe um salário) para uma obrigação de resultados a partir de seus compromissos. O assalariado torna-se responsável pela realização ou não de seu compromisso por objetivo. Sob a pressão de uma exigência permanente de rentabilidade, de desempenho e de avaliação, cada vez mais assalariados são submetidos ao regime do “forfait jour” (7) para obrigá-los a estender seus ritmos de produção e seus horários a até 13 horas por dia, sem nenhum complemento de salário.

O digital deu a esses métodos uma formidável aceleração. Empresas como Airbnb, Uber, Taxis G7 ou inúmeras lojas na internet demandam sistematicamente uma avaliação ou “uma nota sobre a experiência realizada”. Sem falar da geolocalização ou dos chips RFID, que permitem às empresas seguir e avaliar ao vivo os deslocamentos e o desempenho dos assalariados, quer estejam no escritório ou em estradas a milhares de quilômetros. A pressão sobre os assalariados, obrigados a aceitar esse clima de avaliação e de vigilância profissional e comportamental permanentes, tornou-se a origem de uma alienação fenomenal.

Dança das cadeiras em “open-space”

Em inúmeras empresas, inclusive na França, os empregados não têm mais uma sala específica. Cada um “escolhe” seu escritório ao chegar de manhã e ali coloca o seu computador portátil, ou seja, um escritório em “open-space” (e não há economia, nem pequena). Ele deve liberá-lo e deixá-lo completamente vazio ao sair à noite. Acabou o vasinho de planta no escritório, a foto dos filhos, os livros… Você não sabe mais onde estará sentado amanhã, nem mesmo se estará sentado ou ainda fazendo parte dos efetivos da empresa. Além disso, há menos escritórios do que funcionários, porque os departamentos de recursos humanos fazem cálculos e os cálculos dizem que há sempre assalariados ausentes por doença, transferência, férias etc. Felizmente, os patrões e os “experts” pensam em nós: há os “flying desks”, ou “mesas voadoras”…

“Uma empresa é dita liberada quando se alforria de modelos de gerenciamento tradicionais (vertical, hierárquico, autoritário, paternalista) para ir em direção a um modelo mais flexível e participativo (supressão de níveis hierárquicos e de sistemas de controle, responsabilização e autonomização do pessoal, confiança, abertura)” (9).

Sob o pretexto sedutor de autonomia, de independência, de liberdade e de inteligência coletiva (o patronato, como é bem conhecido, jamais chama o lucro por seu nome), e à força de discursos midiáticos sobre a capacidade de adaptação e a reatividade necessária à “nova” empresa, o digital tornou-se o álibi principal dos defensores da desregulamentação e da inversão da hierarquia de normas promovidas na Lei El Khomri, do governo Hollande-Valls (10).

“Como o monsenhor é bom!”

A Lei El Khomri pretende instituir um direito à desconexão “com vistas a assegurar o respeito ao tempo de repouso e de férias, assim como à vida pessoal e familiar” (“Como o monsenhor é bom!”, dizia Voltaire), apoiando-se no acordo assinado em 1º de abril de 2014 (eles escolheram a data) pelas confederações sindicais CFDT e CFE-CGC e as organizações patronais do ramo dos escritórios de estudos técnicos, gabinetes de engenheiros-conselhos e sociedades de conselho, instituindo uma “obrigação de desconexão das ferramentas de comunicação à distância”. Grande momento, quando se viu nos departamentos de recursos humanos a explosão de risos ao se falar do direito à desconexão. De fato, o acordo visava sobretudo a assegurar o “forfait jour” para os patrões do ramo. Como escreveu Magali Prost, especialista em psicologia ergonômica e mestre na Universidade de Nanterre:

“As empresas não dominam a hiperconexão de seus quadros. Elas se dão conta de que seus assalariados vão mal. Mas atacar o problema é atacar a organização do trabalho, a carga de trabalho, e elas não estão dispostas a isso. Algumas empresas ‘oferecem’ smartphones de última geração a seus quadros desde a sua chegada ao posto de trabalho, o que lhes permite estar constantemente alcançáveis e reativos, e, ao mesmo tempo, pede-se a eles que saibam se desconectar. São injunções paradoxais” (11).

A sociedade sonhada pelos partidários da uberização

Hoje, o salariado não é mais considerado pelos patrões nem pelos acionistas o modo de organização mais eficaz e mais rentável. Ao menos, para uma fração do patronato que tem a possibilidade – em virtude da própria natureza de suas atividades permitidas pelos meios digitais e das possibilidades que lhe são oferecidas pelos governos a serviço dos interesses gerais dos capitalistas – de contornar o conjunto das relações sociais impostas pelo combate secular da classe operária contra a exploração.

É muito mais lucrativo para um patrão substituir um assalariado, com o conjunto das obrigações ligadas à existência de um contrato de trabalho por tempo indeterminado, ou mesmo de um contrato de trabalho por tempo determinado, por uma simples atividade que varia ao sabor das flutuações do mercado e da carteira de pedidos. Sem férias remuneradas, sem contribuições previdenciárias nem proteção social, sem bônus a pagar, sem Código de Trabalho a respeitar, sem direito ao seguro-desemprego: essa é a sociedade sonhada pelos partidários da uberização, da subcontratação em cascata e dos autoempreendedores.

Como indica um recente relatório (12), cerca de metade dos pilotos da Ryanair que trabalham exclusivamente para a companhia aérea de baixo custo foram obrigados a criar a sua própria empresa de prestação de serviços, registrada na Irlanda. Eles não eram assalariados.

Restaurantes obrigaram alguns “maîtres” a adotar um estatuto de autoempreendedor. A mesma coisa ocorreu nos bancos e provavelmente em inúmeros outros setores. Paralelamente, a subcontratação on-line de atividades informáticas realizáveis em qualquer parte do mundo, 24 horas por dia, que vai de um projeto completo a microtarefas pagas a um valor de 3 a 20 dólares por hora, tornou-se hoje uma opção diante do salariado clássico.

As máquinas nunca estão de mau humor

A generalização do modo digital na produção de mercadorias e de serviços engendra uma destruição maciça de empregos. A gigante da indústria eletrônica Foxconn, que fabrica cerca de 40% dos aparelhos eletrônicos vendidos em escala mundial, anunciou há alguns anos a sua intenção de substituir 1 milhão de operários, ou seja, a esmagadora maioria de seus 1,3 milhão de empregados, por 1 milhão de robôs em suas fábricas. Evidentemente, a substituição do homem pela máquina não é algo novo. Um industrial chinês, primeiro fabricante mundial de painéis solares, lembrou recentemente:

“Havia a necessidade de muitos homens. O custo da mão de obra era muito elevado, sua eficácia muito baixa (…). As máquinas permitem fabricar um produto mais de acordo com as normas, a qualidade é mais estável. Além disso, elas não ficam cansadas e não têm mau humor” (13).

Destruição de empregos de alta intensidade

A era digital deu também um enorme impulso à robotização e à automatização da produção. E cuidado, para aqueles que não pegarem essa virada, pois estarão ameaçados de desclassificação industrial. No fim de 2011, de acordo com a Federação Internacional de Robótica, a França tinha 34 mil robôs. Uma cifra apenas pouco mais elevada que a da Espanha (29 mil) e bem inferior à da Itália (61 mil) ou da Alemanha (163 mil).

“A diferença em relação a nossos concorrentes se aprofunda, declara um analista financeiro. A indústria francesa instalou pouco mais de 3 mil novos robôs em 2011, os alemães cerca de sete vezes mais (…)! A indústria francesa está verdadeiramente em via de obsolescência” (14).

Ora, as supressões de empregos não visam somente a indústria. O Instituto Roland Berger avaliou o ganho ligado à automatização do trabalho humano em 20% na indústria e no setor primário, e em 40% nas empresas de serviços, nas quais as supressões de postos de trabalho vão se acelerar.

A Forrester Research previu a destruição de 23 milhões de empregos nos Estados Unidos nos próximos dez anos. Na França, o escritório Roland Berger estimou que 42% dos ofícios apresentam um risco elevado de automatização, em virtude da digitalização (15).

Ele estima em 3 milhões o número de empregos que poderiam ser destruídos até 2025, e os vários estudos publicados a esse respeito demonstram que os “empregos qualificados com forte conteúdo intelectual estão agora concernidos”. Lembremos, por exemplo, que os bancos Barclays e HSBC anunciaram respectivamente 30 mil e 25 mil supressões de empregos ligadas à automação. Enquanto isso, paralelamente, a informatização aumentou de maneira inédita os meios e a rapidez das trocas financeiras mundiais, dando uma amplitude inédita aos mercados especulativos e parasitários (desmaterialização dos locais de trabalho, especulação de alta intensidade, algoritmos financeiros etc.).

Desqualificação

Inúmeros estudos mostram que a informatização produziu uma polarização particularmente forte de empregos entre, de um lado, os empregos pouco qualificados não automatizáveis e, de outro lado, os empregos altamente qualificados. A tal ponto que, segundo os próprios estadunidenses, “o país parou de formar pessoas com nível de competência intermediária, aquelas das quais as fábricas têm necessidade” (14).

Para evitar a agitação, o escritório Roland Berger escreveu:

“Consideradas tal e qual, essas perdas de empregos significariam um crescimento insustentável do nível de desemprego na França. Entretanto, trata-se de uma perda ‘bruta’, que não leva em conta a emergência de novas atividades e de novos ofícios, assim como o efeito de retorno em ligação com os ganhos de produtividade. Toda a questão reside, então, na capacidade da economia francesa de produzir as novas atividades que substituirão aquelas nas quais os ganhos de produtividade reduziram o número de empregos, de maneira similar à substituição da indústria pelos serviços no século 20” (17).

Nada de novo, entretanto. Mil vezes nos repetiram que “se o progresso técnico destrói as antigas qualificações, ele cria simultaneamente qualificações novas” (18).

“Blá-blá-blá…” de ouro

Ora, o que constatamos? O aplicativo de mensagens instantâneas Whatsapp, que reúne um bilhão de usuários, emprega… 32 funcionários de tecnologia de informação! Ele foi comprado pelo Facebook por 16 bilhões de dólares em 2014. Na França, o aplicativo BlaBlaCar realizaria negócios no valor aproximado de 15 milhões de euros, aos quais se acrescenta uma presença em 17 países. Seu valor de mercado seria de 1,6 bilhão de euros, com… 350 empregados.

Apesar dos números encorajadores que os apóstolos da informatização procuram apresentar, Gordon Day, presidente do Instituto Estadunidense dos Engenheiros Eletrônicos, explicou recentemente que a indústria da informática pode gerar altas rendas, mas não consegue empregar muitas pessoas.

Na realidade, “a força dos robôs e da tecnologia permite certamente reduzir as taxas de emprego. Mas, mais do que ajudar aqueles que perderam o seu emprego por causa da tecnologia, as empresas utilizam o poderio de seus monopólios para aumentar o rendimento do capital” (“Financial Times”). Onde se situa o poderio dessas empresas? Não é muito difícil adivinhar: os Estados Unidos representam 41% do excedente bruto de exploração e 83% da capitalização na Bolsa da economia digital mundial.

“Abre-se então uma época de revolução social”

A despeito daqueles que veem no capitalismo um horizonte intransponível e na economia digital uma nova era de progresso para a humanidade, a informatização tornou-se inteiramente um fator de aceleração sem precedentes do parasitismo econômico e da putrefação do regime baseado na propriedade privada dos meios de produção. Em 1859, Karl Marx escreveu:

“Em certo estágio de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que não é mais do que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no interior das quais se tinham movido até então. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, essas relações transformam-se no seu entrave. Abre-se então uma época de revolução social” (19).

Não poderia ser mais bem dito.

II. Aonde vai a inovação?

No fim de 2016, a Korn Ferry, gigante mundial do recrutamento de dirigentes de empresas, interrogou 800 patrões das maiores empresas mundiais (20).

– 63% estimam que a sua vantagem competitiva provém das tecnologias;

– 44% afirmam que os empregados serão obsoletos por causa da robótica, da automação e da inteligência artificial.

Os trabalhadores não são citados entre as cinco principais fontes de criação de valor para a empresa. É óbvio: 40% dos dirigentes que fizeram parte da pesquisa reconheceram ter sofrido pressões dos acionistas para dar prioridade à tecnologia.

Mesmo se sabemos que o trabalho humano é a única mercadoria capaz de criar valor, não há nada de surpreendente nesses resultados. Marx explicou que, para elevar a sua taxa de lucro, o capital deve inevitavelmente desenvolver a produtividade do trabalho, aumentando a mais-valia relativa (leia abaixo). Alheio a qualquer outra consideração, quer seja relativa ao meio natural ou à condição dos trabalhadores, o capital tem fome e sede de lucro, e não tem nenhum outro instinto ou sentimento. A fábula da “responsabilidade social das empresas”, tão em voga, durou muito tempo. Para realizar um lucro mais elevado do que seus concorrentes, o capital precisa suscitar e acelerar o progresso técnico. Se um patrão é o primeiro a introduzir uma inovação, ele realiza um lucro suplementar que lhe permite esmagar os seus rivais.

Mas as coisas não são tão simples. O jornal patronal francês “Les Echos” (7 de dezembro de 2016) escreveu:

“As empresas têm as maiores dificuldades para se dotar de tecnologias diferentes das de seus concorrentes. As firmas tendem, ao contrário, a imitar umas às outras: têm os mesmos fornecedores, apelam aos mesmos consultores, dispõem todas de ‘benchmarks’ (21) idênticos sobre o seu setor, corrompem os funcionários de seus concorrentes, recrutam os mesmos jovens diplomados, utilizem os mesmos manuais de boas práticas etc. Logo, elas não têm a atitude apropriada para ganhar uma competição tecnológica. A estratégica tecnológica é extremamente arriscada. Para um grande número de candidatos, de início, há em geral apenas um ou dois ganhadores no fim. Google, Facebook, Amazon, Alibaba, Airbnb, Uber são exemplos de empresas que impuseram ou estão em vias de impor sua tecnologia ao mundo inteiro depois de haver matado a concorrência. As outras empresas acabam mais ou menos por desaparecer”.

Evocando um “cenário apocalíptico” em matéria de empregos, o jornal patronal prossegue:

“Se a estratégia das empresas se apoia agora na tecnologia, sabe-se desde já que a maior parte delas irá desaparecer (…). Se a inovação tecnológica não é acompanhada pela criação de produtos, e esse é o cenário que ressalta do estudo da Korn Ferry, o resultado é a concentração do mercado em uma única empresa. O modelo é o Uber. Isso conduz à destruição maciça de empregos em comparação com o número de empregos criados”.

A tendência é à concentração e aos monopólios. Ora, a constituição de monopólios no regime capitalista foi descrita há muito tempo por Lênin em “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” (1916):

“(…) o monopólio capitalista gera inevitavelmente uma tendência para a estagnação e para a decomposição. Na medida em que se fixam preços monopolistas, ainda que temporariamente, desaparecem, até certo ponto, as causas estimulantes do progresso técnico e, por conseguinte, do progresso e do avanço em geral. Assim, torna-se possível, também, no plano econômico, entravar artificialmente o progresso técnico. Exemplo: nos Estados Unidos, um certo Owen inventou uma máquina que revoluciona a produção de garrafas. O cartel alemão de fabricantes de garrafas comprou suas patentes e as guardou a sete chaves, atrasando a aplicação do novo método de produção. Naturalmente, sob o capitalismo, o monopólio não pode eliminar completa e indefinidamente do mercado mundial a concorrência (esta é, diga-se de passagem, uma das razões pelas quais a teoria do superimperialismo é absurda). A possibilidade de diminuir os gastos de produção e aumentar os lucros, por meio de aperfeiçoamentos técnicos, atua, é claro, a favor das modificações. Mas a tendência para a estagnação e a decomposição, inerente ao monopólio, continua, por sua vez, a operar e, em certos ramos da indústria e em certos países, há períodos em que consegue predominar” (22).

Essa tendência parcial da estagnação, que seria predominante por um tempo, como escreveu Lênin em 1916, tornou-se cada vez menos parcial e cada vez mais longa. E é exatamente o que diz hoje o jornal “Financial Times”:

“Se conhecemos uma estagnação da inovação, não é porque a humanidade teria se tornado menos inovadora, mas porque os interesses existentes têm maior incitação (…) a desacelerar a inovação. É o que explica o aumento das desigualdades” (23).

Sem esquecer as políticas de privatização, de desmantelamento e de destruição quase sistemática dos organismos públicos de pesquisa. É uma constatação partilhada por Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia e editorialista estrela de “The New York Times”:

“Barry Lynn e Phillip Longman, da New America Foundation, sustentam, em minha opinião de modo convincente, que o aumento da concentração das empresas poderia ser um fator importante na estagnação da demanda de mão de obra, com as empresas utilizando seus monopólios crescentes para aumentar os preços sem destinar ganhos proporcionais a seus empregados. Eu não sei o quê, monopólio ou tecnologia, explica mais a desvalorização do trabalho” (24).

A capacidade de inovação do capitalismo é questionada

A capacidade de inovação do capitalismo é questionada por seus mais sérios defensores. Qual o argumento principal? O capitalismo produz quase exclusivamente inovações incrementais, ou seja, melhorias em inovações importantes desenvolvidas há muito tempo. E inovações de menor importância do que as rupturas que conhecemos com a invenção da eletricidade, da máquina a vapor, dos motores, da relatividade geral, da mecânica quântica, do código genético… Trata-se de um problema que Peter Thiel, estrela do Vale do Silício e dirigente do Hedge Fund, resumiu em uma formulação que se tornou célebre: “Nós queríamos carros voadores e, em vez disso, temos 140 caracteres” (em referência ao Twitter). Um problema tão importante que se tornou o objeto de uma intensa polêmica no mais alto nível.

Jason Pontin dirige a “MIT Technology Review”, uma das mais sérias revistas dedicadas à inovação. É editada desde 1899 pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. Em um editorial de 2012, Pontin se interroga: “Por que não sabemos resolver os grandes problemas?”:

“Desde 1972, nenhum ser humano retornou à Lua. Ninguém viajou mais rápido do que a tripulação da Apollo 10. Desde o último voo do supersônico Concorde, em 2003, mesmo as viagens civis tornaram-se mais lentas. O alegre otimismo sobre os poderes da tecnologia se evaporou. Os problemas que nós esperamos resolver com a tecnologia, tais como a fome, a pobreza, a mudança climática, o câncer, a velhice, finalmente se revelaram inextricavelmente difíceis” (25).

“O que nos aconteceu?”, pergunta, decepcionado, o editorialista.

É uma inquietação partilhada por um de seus confrades em um artigo da “Technology Review” intitulado “Podemos ainda construir as rupturas tecnológicas de amanhã?”:

“Depois de décadas de externalização da produção em um esforço para reduzir os custos, muitas grandes empresas perderam sua perícia de engenharia e de tarefas complexas de concepção necessária para produzir em grande escala as tecnologias mais inovadoras” (26).

Outros são ainda mais categóricos, como Robert J. Gordon, professor da Northwestern University de Chicago e uma das 50 pessoas apontadas como mais influentes no mundo em 2016, segundo a agência noticiosa Bloomberg. Especialista na desaceleração do ritmo de inovações, ele é autor de inúmeros estudos sobre a estagnação, entre os quais um artigo publicado pelo jornal financeiro estadunidense “The Wall Street Journal”: “Por que a inovação não nos salvará?” (27).

O mesmo ponto de vista é defendido por Tyler Cowen, professor de economia da Universidade Manson de Virginia, nos Estados Unidos, articulista do jornal “The New York Times” e considerado um dos economistas mais influentes do mundo. Num livro intitulado A Grande Estagnação, ele explica:

“O período que vai de 1880 a 1940 trouxe numerosas inovações tecnológicas importantes. Mas, exceto pela internet, a vida no sentido material não é tão diferente da que existia em 1953. Dirigimos carros, utilizamos geladeiras e acendemos iluminações elétricas” (28).

Na realidade, defende ele, “as economias avançadas desaceleram, porque o ritmo da inovação desacelera”.

Preso no quadro estreito das relações de produção existentes, esse raciocínio procede de um pensamento mecanicista: o progresso técnico visto como um “deus ex machina” (29). Bastaria relançar a inovação para salvar o capitalismo. Ora, o que ocorre é precisamente o inverso. É o próprio capitalismo que condena a inovação, ou, mais precisamente, que bloqueia a faculdade de fazer das inovações um fator de progresso para a humanidade em seu conjunto. Em 1966, Pierre Lambert escreveu:

“Não há dúvidas de que o cérebro eletrônico, pelas funções que lhe são e lhe serão confiadas, é infinitamente mais eficaz e eficiente do que o cérebro humano. A automação é a prova viva de que o gênio humano, ao realizar o seu controle sobre todas as forças da técnica, fruto de seu trabalho, permite liberar o homem das pressões econômicas e sociais e, dessa forma, dominar a natureza e sua própria natureza social. O espírito fica confuso diante de tudo o que a era do progresso, iniciada com a introdução do trabalho inteiramente automatizado, pode ocultar. A libertação do homem da servidão da exploração, as possibilidades extraordinárias de desenvolvimento cultural e o avanço da civilização aparecem como realidades bem próximas. Mas os processos do trabalho automatizado estão atualmente sob o controle do capital” (30).

Consequência: 90% da população estadunidense não teve nenhum progresso nestes 30 últimos anos: “Todo o crescimento foi captado pelos 10% mais ricos, e o 1% mais rico captou mais da metade do crescimento. Para o estadunidense médio, o crescimento econômico se traduziu em… nada!” (31).

É o que outro economista resumiu assim:

“A força de tração da tecnologia sobre o crescimento é inexistente para o essencial da sociedade” (32)

Essas desigualdades não vêm de escolhas liberais, neoliberais ou ultraliberais. Elas resultam de processos muito mais profundos, cujas raízes se assentam nas relações de produção existentes. No “Programa de Transição” (1938), Trotsky escreveu:

“As forças produtivas da humanidade deixaram de crescer. As novas invenções e os novos progressos técnicos não conduzem mais ao crescimento da riqueza material. As crises conjunturais, nas condições da crise social de todo o sistema capitalista, sobrecarregam as massas de privações e de sofrimentos cada vez maiores. O crescimento do desemprego aprofunda, por sua vez, a crise financeira do Estado e mina os sistemas monetários estremecidos. Os governos, tanto democráticos quanto fascistas, vão de uma bancarrota a outra. A própria burguesia não encontra saída” (33).

As inovações incrementais às quais o capitalismo constrange hoje a humanidade (ainda que inovações de ruptura não possam ser totalmente excluídas em determinadas condições), por mais rápidas que sejam, não podem mais aumentar a mais-valia relativa num ritmo suficiente para assegurar a rentabilidade do capital. O imperialismo precisa agora agir de maneira mais enérgica sobre o outro e único fator que pode aumentar o lucro, aumentando a mais-valia absoluta (leia o box). Dito de outra maneira, o imperialismo precisa reduzir o valor da força de trabalho dos proletários, liquidando o conjunto das conquistas e das garantias coletivas que asseguram aos trabalhadores condições de existência suportáveis, particularmente na Europa.

As leis econômicas são implacáveis. Para tudo aquilo que torna agradável, ou pelo menos tolerável, ou ainda, em certos casos, simplesmente possível, a vida de seus cidadãos, os países do mundo ocidental, arrastando com eles o mundo inteiro, estão à beira da falência e da derrocada.

O Fórum de Davos, que, como todo ano, ocorre na Suíça, reflete a situação mundial de uma maneira evidente. O jornal patronal francês “La Tribune” (19 de janeiro de 2017) escreveu:

“Raramente os participantes do Fórum Econômico Mundial de Davos pareceram tão desestabilizados.

Muitos estadunidenses que fizeram neste ano a viagem a Davos tentavam passar despercebidos (…). É esse sentimento de incertezas, ou antes de fim de certezas, que dominou os quatro dias do Fórum Econômico Mundial.

Simbolicamente, um grande mural de refugiados apresentava, permanentemente, no grande salão de entrada do centro do congresso no qual se desenrolava a maior parte das 400 conferências, o mapa das migrações de 2016. Migrantes de guerra (Síria, mas também do Sahel, região da África imediatamente ao sul do Saara), migrantes econômicos, migrantes climáticos, amanhã talvez até mesmo ‘refugiados digitais’, segundo a expressão do presidente da Salesforce, Marc Benioff, um dos gigantes da tecnologia estadunidense. Se nada for feito, o ‘gap’ entre aqueles que sairão ganhando com a revolução tecnológica e os outros, que perderão seu emprego, será crescente. E a seguir, já se sabe, se não forem dados empregos aos jovens que se formam, será a revolução.”

A inquietação é palpável, e se compreende por quê. Trotsky resumiu perfeitamente o problema em 1937:

“Minha posição é a da 4ª Internacional, a única organização revolucionária de nossa época. Os elementos fundamentais de nossa análise da situação mundial são os seguintes: desde a última guerra [a 1ª Guerra Mundial, de 1914 a 1918, NdT], o capitalismo entrou definitivamente em uma fase de declínio e decadência. A humanidade está mais pauperizada hoje do que estava em 1913. O progresso da ciência e da tecnologia, nas condições do capitalismo decadente, significam apenas um aumento do desemprego ‘tecnológico’, a ruína das classes médias e uma concentração enorme da riqueza. A crise atual começou num nível inferior ao da última e se desenvolve mais rapidamente. O capitalismo declinante arrasta com ele a democracia burguesa: ele só poderia oferecer tal luxo no período de sua ascensão. Seria absurdo dizer que as ‘tradições’ ou o ‘caráter nacional’ particular da França ou da Inglaterra poderiam preservá-las do fascismo. O fator fundamental da história humana não é nem a ‘tradição’ nem o ‘caráter nacional’, mas o desenvolvimento das forças produtivas. Quando esse desenvolvimento se interrompe, as instituições e as tradições honradas viram poeira. Esse fato é atestado por toda a história da civilização humana.

A tecnologia moderna finalmente ultrapassou o quadro da propriedade privada dos meios de produção e as fronteiras do Estado nacional. As forças produtivas da humanidade sufocam nessas cadeias. É precisamente esse fato que determina o caráter de nossa época como época de transformações sociais, de guerras, grandes e pequenas, de revoluções e contrarrevoluções. Nosso planeta não encontrará a paz enquanto as forças produtivas e os meios de produção não se tornarem propriedade social, organizados conforme um plano científico, em escala nacional inicialmente, depois europeia e finalmente mundial. Tal reorganização é inconcebível sem a expropriação dos capitalistas, ou seja, sem revolução social” (34).


Complemento 1: Google Car, Siri… invenções financiadas pelo Departamento de Defesa dos EUA

Sabe-se que a internet nunca teria surgido sem a Darpa (A), a agência do Pentágono (Departamento de Defesa dos EUA) criada em plena Guerra Fria para estimular a inovação diante da “ameaça soviética”. Em contrapartida, muitos ignoram que o Google Car (carro sem motorista do Google) é um produto do concurso de carros autônomos Darpa Grand Challenge, ou que o Siri, o assistente vocal da Apple, foi elaborado graças a financiamentos da Darpa para a SRI International, uma “spin-off” da Universidade de Stanford (B). É evidente: para o “grande público”, essas invenções devem aparecer como os rebentos naturais de um capitalismo florescente, oferecendo aos jovens “geeks” (C) que trabalham em suas garagens um futuro de bilionários.

Na realidade, essas novas tecnologias servem antes de tudo ao complexo militar-industrial estadunidense, uma indústria que se encontra bem hoje, tendo em vista a amplitude das guerras que devastam o mundo. Contanto que haja um interesse econômico e um mercado a conquistar, essas invenções são em seguida retomadas pelos industriais para desenvolver aplicações civis. Assim, os melhores engenheiros da Fairchild Semiconductors, inventora do transistor de silício, da qual o Exército foi o primeiro cliente, partiram para fundar a Intel, gigante dos microprocessadores. Vinton Cerf, vice-presidente e “chief internet evangelist” do Google, trabalhou com a Darpa para elaborar o protocolo de base da internet (TCP/IP).

Nada mudou desde então. A startup de robótica Boston Dynamics, resgatada pelo Google em 2013, foi durante muito tempo financiada pela agência do Pentágono. O Google até mesmo empregou uma ex-diretora da Darpa, Regina Dugan, para coordenar uma equipe encarregada de projetos avançados. Os algoritmos da Palantir Technologies, startup estadunidense especialista em Big Data, cofundada há mais de dez anos por uma estrela do Vale do Silício, Peter Thiel (D), que igualmente está na origem do PayPal e é um dos primeiros investidores do Facebook, são utilizados pela NSA, o FBI e a CIA (E).

Como resume Pierre Bellanger, autor do livro “Soberania Digital” (F): “As pessoas ficam maravilhadas diante de startups que teriam nascido em garagens, mas esquecem de dizer que a garagem se encontra de fato sobre um porta-aviões!”.

Notas
A – A Defense Advanced Research Projects Agende (Darpa), ou Agência para os Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa, é a agência do Departamento de Defesa dos Estados Unidos encarregada de pesquisa-desenvolvimento de novas tecnologias destinadas ao uso militar.

B – SRI International é uma empresa estadunidense de pesquisa nas áreas científicas e tecnológicas em proveito do governo estadunidense e de empresas privadas.

C – “Geek” é um termo que designa pessoa, em geral jovem, aficionada por tecnologia (NdT).

D – Peter Thiel, liberal e apoiador de Donald Trump, publicou um manifesto que ficou célebre: “O que aconteceu com o futuro?”. Deplorando a desaceleração das inovações, é o autor da famosa formulação: “Nós queríamos carros voadores e, em vez disso, temos 140 caracteres” (em referência ao Twitter).

E – NSA: Agência de Segurança Nacional dos EUA; FBI: polícia federal estadunidense; CIA: Agência Central de Inteligência dos EUA – siglas em inglês (NdT).

F – “La Souveraineté Numérique”, Editions Stock, 2014, 264 páginas. Pierre Bellanger, nascido em 1958, é presidente da Skyrock. Nessa obra, ele descreve a hegemonia estadunidense no setor digital e os grandes abalos que decorrem disso.


Complemento 2: A mais-valia do capital

(Documentos de formação da seção francesa da 4ª Internacional, nº 2, “O que é o capitalismo?”, páginas 14-15, extratos)

O capital é uma “relação social de exploração” (…). É a relação entre uma minoria, os burgueses, que possuem os meios de produção (é a classe capitalista), e a grande massa de proletários, os trabalhadores livres, possuidores apenas da sua força de trabalho, que são obrigados a vendê-la para viver (…).

Na produção capitalista, a propriedade dos meios de produção é igualmente privada, mas tornou-se o apanágio de uma minoria, enquanto os outros produtores, os trabalhadores, são desprovidos deles. O que caracteriza o capitalismo não é, em si, a existência da propriedade privada (que existe desde que existe a produção de mercadorias), mas o fato de que essa propriedade privada é privilégio exclusivo de uma classe, a classe capitalista.

Com o seu dinheiro inicial (A), o capitalista vai então comprar uma mercadoria (M), ou antes dois tipos de mercadorias:

– imóveis, máquinas, matérias-primas (que são, elas também, os produtos de um trabalho social anterior);

– a força de trabalho proletária.

(…) O salário não retribui o trabalho, mas é a compra da força de trabalho; esta é uma mercadoria cujo valor, como todas as mercadorias, é medido pelo tempo de trabalho necessário à sua produção (no caso, à sua reprodução). O valor da força de trabalho é variável segundo a etapa do desenvolvimento, e integra, portanto, os resultados da luta de classes.

“Ao comprar a força de trabalho do operário e pagando o seu valor, o capitalista, como qualquer outro comprador, adquire o direito de consumir a mercadoria que comprou, ou de usá-la. Consome-se ou utiliza-se a força de trabalho de um homem fazendo-o trabalhar, assim como se consome ou se utiliza uma máquina fazendo-a funcionar. Pela compra do valor diário ou semanal da força de trabalho do operário, o capitalista adquiriu, portanto, o direito de se servir dessa força, de fazê-la trabalhar durante todo o dia ou toda a semana. O dia ou a semana têm naturalmente seus limites” (Karl Marx, “Salário, Preço e Lucro”).

A compra da mercadoria “força de trabalho” dá, portanto, ao capitalista o direito de utilizá-la. O valor dessa força de trabalho é determinado pela quantidade de trabalho necessário à sua manutenção (à reprodução de sua força de trabalho, que não é um “mínimo biológico”, mas depende da etapa do desenvolvimento e da luta de classes).

Mas o uso dessa força de trabalho é limitado apenas pela força e pela energia do operário nas condições históricas determinadas. O valor diário ou semanal dessa força de trabalho é, portanto, completamente diferente do exercício diário ou semanal dessa força (…).

Engels retoma esta questão central:

“O que um operário produz e o que ele custa são coisas inteiramente diferentes daquilo que uma máquina produz e o que ela custa. O valor que um operário cria em uma jornada de trabalho de 12 horas não tem absolutamente nada em comum com o valor dos meios de subsistência que ele consome nessa jornada e o repouso que a completa” (“Anti-Dühring”).

Logo, o segredo do modo de produção capitalista reside na compra de uma mercadoria particular, no sentido de que ela produz mais valor do que ela própria tem: essa mercadoria é a força de trabalho.

(…) Para nos fazer compreender bem, tomemos um exemplo – que não passa de uma abstração, porque a realidade não se recorta assim. Tomemos uma jornada de 8 horas. Imaginemos que na primeira metade da jornada (4 horas), o valor produzido pelo operário é de 250 reais: 200 do valor transmitido pelos meios de produção e 50 de valor novo criado pela força de trabalho. Esses 50 reais correspondem ao valor da força de trabalho, o que corresponde à quantidade de trabalho socialmente necessário à reprodução de sua força de trabalho (esses 50 reais são a compra de sua força de trabalho pelo salário). O capitalista não para a produção depois de 4 horas, mas de 8 horas. Ele continua, portanto, a fazer os operários trabalharem 4 horas a mais.

Nessa segunda meia jornada, 250 reais de mercadorias são então produzidas. Desse valor, 200 reais provêm dos meios de produção e 50 reais da força de trabalho. Mas, dessa vez, esses 50 reais não têm a contrapartida do salário. Daí nasce a mais-valia do capital (…).

É essa força de trabalho que gera a mais-valia. Este é um conceito específico do modo de produção capitalista (…). O trabalho assalariado é generalizado no capitalismo.

Na produção capitalista, o modo de apropriação desse excesso é a extorsão, pela classe capitalista, da mais-valia produzida pela classe operária. O salariado é do trabalho explorado. O capitalismo é a exploração do trabalho.


Complemento 3: Mais-valia absoluta e mais-valia relativa

  • Mais-valia absoluta: o capital luta para alongar a duração do dia ou da semana de trabalho, ou, se existem leis que a limitem, para pagar menos horas extras, assim como, por meio da anualização, o “forfait jour”, contornar e destruir a legislação para alongar a parte não paga do tempo de trabalho.
  • Mais-valia relativa: por meio do progresso técnico, o capital procura aumentar o ritmo e a produtividade do trabalho para produzir mais com o mesmo número ou menos operários em um mesmo tempo, substituindo os trabalhadores por máquinas, automatizando as máquinas (robotização). Ele aumenta assim a quantidade de produção e a parte de mais-valia que ela contém. Os patrões lutam para não aumentar os salários quando a produtividade do operário aumenta, ou reorganizam a produção aumentando o ritmo de trabalho mediante alguns bônus muito inferiores aos ganhos do capital. Os operários buscam, ao contrário, obter aumentos do salário base ou limites à aceleração do ritmo de trabalho.

NOTAS

1 – Pierre Lambert, “Automação e Revolução”, brochura publicada como suplemento de “Informations Ouvrières” (1º de maio de 1966). Ela foi reproduzida em “A Verdade” nº 60-61 (junho de 2008), páginas 30-44, e nos números 825, 828 e 829 de “La Lettre de La Vérité”, publicação da seção francesa da 4ª Internacional, em 13 de outubro, 2 e 10 de novembro de 2016.

2 – V.I. Lênin, “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”. Nova Palavra, 2007, páginas 122-123.

3 – Startup: expressão que designa empresa recente da área de tecnologia (NdT).

4 – Conferência do TED (Technology, Entertainment and Design), de 15 a 19 de fevereiro de 2016, em Vancouver, na qual Joe Gebbia, cofundador da plataforma de reservas entre particulares Airbnb, e Travis Kalanick, dirigente fundador do Uber, explicaram que eles “não inventaram nada” (despacho de 17 de fevereiro de 2016).

5 – Relatório Asterès, “Uber: une innovation au service de la croissance” (Uber: uma inovação a serviço do crescimento), Nicolas Bouzou e C.-A. Schwerer, janeiro de 2016.

6 – O “lean IT” é a declinação digital do “lean management”, ou “lean manufacturing”. Ele obriga o assalariado a pesquisar por si próprio a melhor maneira de intensificar o seu trabalho e torná-lo mais competitivo, por exemplo, reduzindo a duração de suas pausas diárias. Inteiramente inspirado no corporativismo e na doutrina social da Igreja, é muito frequentemente apresentado pelos patrões como uma ferramenta de bem-estar, de empoderamento e de melhoria das condições de trabalho, a fim de que “os interesses individual e coletivo se unam pela melhoria do bem comum”.

7 – A Fondation Internet Nouvelle Génération (FING), ou Fundação Internet da Nova Geração, é um centro de estudos de referência sobre as transformações digitais que desde 2000 reúne grandes empresas, startups e laboratórios de pesquisa. Seu objetivo: “Ajudar as empresas, as instituições e os territórios a antecipar as mutações ligadas às tecnologias e a seus usos” (cf. www.fing.org).

8 – “Forfait jour”: sistema, em vigor na França, que em alguns casos permite definir a duração da jornada de trabalho em dias, não em horas, possibilitando, na prática, a extensão do tempo de trabalho diário (NdT).

9 – Rede FING.org, “Novas práticas de trabalho, novos usos de diálogo”, setembro de 2015.

10 – Lei El Khomri: contrarreforma trabalhista do governo do presidente François Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls, na França (NdT).

11 – Entrevista de Magali Prost, doutora em psicologia ergonômica da Universidade de Nanterre. Site do jornal “Le Monde” (17 de março de 2016).

12 – Trechos desse relatório foram publicados no site do “Air Journal” (air-journal.fr) sob o título “Os pilotos autoempreendedores da Ryanair”, 20 de setembro de 2016.

13 – Matéria de Virginie Mangin no jornal “La Tribune” (18 de janeiro de 2015), com entrevista de Yan Wei, responsável técnico do departamento de energia da fábrica de Baoding.

14 – Citação de Emmanuel Schafroth, analista financeiro da Yahoo! Finances. Citado no artigo publicado em 2 de agosto de 2013 (“Aonde vai a economia digital? Robotização ou monopolização?”), blog do jornal francês “Le Monde” (internetactu.blog.lemonde.fr).

15 – Roland Berger Strategy Consultants, “As classes médias diante da transformação digital”, outubro de 2014, página 8.

16 – Citado por Hubert Guillaud, “Aonde vai a economia digital: rumo a uma inovação sem empregos”, internetactu.net, março de 2012.

17 – Roland Berger Strategy Consultants, “As classes médias diante da transformação digital”, outubro de 2014, página 10.

18 – Teoria da harmonia de Jean-Baptiste Say, economista francês do século 19 adepto de Adam Smith, teórico da política da oferta, tão cara a François Hollande (“Tratado de Economia Política”, 1803). Ver também os processos de “destruição criadora” do economista Joseph Schumpeter, vulgarizada em seu livro “Capitalismo, Socialismo e Democracia”, publicado em 1942.

19 – Karl Marx, “Prefácio à Crítica da Economia Política” (1859).

20 – Citado por Yves Cavarec, “Empresas sem pessoal daqui a cinco anos”, jornal francês “Les Echos”, 7 de dezembro de 2016 (lesechos.fr).

21 – “Benchmark”: processo de comparação de produtos, serviços e práticas empresariais, em geral tomando como modelo iniciativas consideradas bem-sucedidas (NdT).

22 – Lênin V.I., “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, Nova Palavra, 2007, páginas 117-118.

23 – Isabella Kaminska, no blog Alphaville do “Financial Times”. Citada por Hubert Guillaud, “Aonde vai a economia digital?”, 17 de janeiro de 2013 (internetactu.net).

24 – Citado por Hubert Guillaud, “Aonde vai a economia digital?”, 17 de janeiro de 2013 (internetactu.net).

25 – Citado por Hubert Guillaud, “Por que não sabemos resolver os grandes problemas?”, 13 de novembro de 2012 (internetactu.net).

26 – David Rotman. “Can we build to tomorrow’s breakthroughs?” (“Podemos ainda construir as rupturas tecnológicas de amanhã?”), “MIT Technology Review”, 19 de dezembro de 2011 (technologyreview.com).

27 – Robert J. Gordon, “Why innovation won’t save us?” (“Por que a inovação não nos salvará?”), “The Wall Street Journal”, 21 de dezembro de 2012 (wsj.org). Ver igualmente: http://economics.weinberg.northwestern.edu/robert-gordon/confPresentations.php.

28 – Tyler Cowen, “A grande estagnação: como a América comeu todos os frutos acessíveis da história moderna, ficou doente e vai (talvez) se restabelecer”, citado pelo blog Slate.fr, artigo “A grande estagnação econômica” (23 de março de 2011).

29 – O capital é uma relação social de exploração. A força de trabalho é a única mercadoria capaz de criar valor (leia o box). Ao economizar com a mão de obra por meio da automação, os patrões solapam a base sobre a qual se assentam os seus lucros: a exploração da força de trabalho. Daí a queda tendencial da taxa de lucro, as crises de superprodução, a característica cada vez mais caótica das fases de “impulso”, de estagnação e de crash. O imperialismo utiliza o militarismo, a dívida, a especulação, o parasitismo e a pilhagem para tentar manter a acumulação do capital.

30 – Pierre Lambert, “Automação e Revolução”, brochura publicada como suplemento de “Informations Ouvrières” (1º de maio de 1966). Reproduzida em “A Verdade” nº 60-61 (junho de 2008), páginas 30-44.

31 – Thomas Piketty, “Le Capital au XXIe Siècle” (“O Capital no Século 21”), Éditions du Seuil, 2013. Citado por Hubert Guillaud, “Economie du futur: êtes-vous techno-optimiste ou techno-sceptique?” (“Economia do futuro: você é tecno-otimista ou tecno-cético?”), 23 de junho de 2016 (internetactu.net).

32 – Daniel Cohen, citado por Hubert Guillaud, “Economie du futur: êtes-vous techno-optimiste ou techno-sceptique?” (“Economia do futuro: você é tecno-otimista ou tecno-cético?”), 23 de junho de 2016 (internetactu.net).

33 – Leon Trotsky, “Programa de Transição”, in “O Programa da Revolução”, Nova Palavra, 2009, pág. 91.

34 – Leon Trotsky, “Oeuvres”, tomo 15 (edição francesa), “Réponses à Marianne” (“Respostas a Marianne”), páginas 415-416.