Santiago, uma cidade que ardeu

As ruas de Santiago testemunham a ira que explodiu em 18 de outubro de 2019 e abriu uma situação que prossegue quase três meses depois. Ao caminhar pelo centro e bairros da cidade o que se vê são infindáveis pichações (a maioria “assassinos”), agências bancárias e hotéis queimados e fechados, monumentos pichados ou semidestruídos, ruas esburacadas por pedras retiradas pelos manifestantes.

Estas ações, principalmente de jovens, são a contra face da brutal repressão com a qual o governo Piñera respondeu às mobilizações a partir de 18 de outubro. Já são mais de 20 mortos, centenas de pessoas que perderam a visão por balas de borracha cientificamente miradas nos rostos dos manifestantes, milhares de presos e uma profusão de denúncias de torturas e abusos sexuais contra as mulheres.

A brutalidade da ação dos Carabineros não arrefece, ao contrário, alimenta a raiva da maioria do povo.

A ira que explodiu é contra o atual sistema político que preservou, nos últimos 30 anos, as instituições e políticas da ditadura pinochetista, a partir da “Concertación”, o acordo entre a Democracia Cristã (DC) e o Partido Socialista (PS), acompanhado pelo Partido Comunista (PC).

É contra estes 30 anos e suas consequências nas condições de vida da maioria dos chilenos, através por exemplo, das privatizações – retirando o direito à aposentadoria, saúde, educação, moradia – que o povo chileno se levantou e continua em pé.

As festas de fim de ano, as férias, o forte calor, incidiram numa diminuição das manifestações, mas a situação segue aberta. É como um tomar fôlego do movimento “dos de baixo” que promete voltar com tudo em março, numa crise que se aprofunda onde “os de cima” já não conseguem governar como antes.

Entra em cena a classe organizada
A Unidade Social (US), articulação criada em setembro de 2019, com o lema “Nos cansamos, nos unimos” e que hoje congrega mais de 200 entidades (sindicatos, partidos, movimentos), através de seu Bloco Sindical convocou e realizou no dia 12 de novembro uma greve geral que parou o país. Foi a entrada em cena da classe operária organizada, representando um avanço da situação.

O sucesso da greve de 12 de novembro aprofundou a crise do governo Piñera – na sua coalizão “Chile Vamos” -que foi obrigado a concessões para se preservar.

Três dias depois da greve geral, na calada da noite, o governo propõe e assina o Acordo de Paz, com o apoio de partidos da oposição. Paz dos cemitérios! A repressão brutal prossegue. No último dia 8 o governo invocou a Lei de Segurança do Estado contra os secundaristas (veja aqui).

O Acordo de Paz costurado num Congresso Nacional tão rechaçado quanto o governo, aprofundou a crise dos partidos de oposição que o assinaram, em especial o PS e a Frente Ampla. São poucos os partidos de oposição, o Humanista por exemplo, que podem se fazer presentes nas mobilizações. Há um rechaço generalizado e o PC, que não assinou o Acordo de Paz, mas acompanhou a Concertación, não passa ileso.

O acordo aumentou a ira contra a “casta política”, como dizem os chilenos, os partidos que o assinaram ou, mesmo sem assinar, que seguem legislando num Congresso onde o povo não se sente representado. “Temos propostas, mas elas não chegam ali”, disse uma dirigente de movimento de moradia, apontando para o prédio do Congresso, ao lado do qual um acampamento montado pela Unidade Social realizava debates políticos.

Governo dá os anéis para não perder os dedos
Desde outubro, a exigência que unifica as reivindicações é a Assembleia Constituinte Soberana para livrar a nação e os trabalhadores dos torniquetes herdados da ditadura.

O Acordo de Paz prevê um plebiscito em 26 de abril, sobre uma nova Constituição (sim ou não) e uma Convenção Constituinte (e não Assembleia) se composta de deputados 100% eleitos ou com 50% do atual Congresso. Uma Convenção com regras pré-determinadas, por exemplo, maioria de 2/3 para aprovar qualquer coisa. Trata-se de uma manobra do governo que deu o anel para não perder o dedo – sob protestos de setores do empresariado que já iniciam campanha pelo Não à nova Constituição.

Aí vem março!
Em 3 de janeiro, a Unidade Social anunciou o rompimento de relações e qualquer diálogo com o governo e prepara um calendário de ações que inclui uma nova greve geral em março.

Luís Mesina (dirigente bancário, porta-voz da Unidade Social e do movimento “No+AFP” -fundos de pensão), avalia que em março, com a determinação para a luta que segue firme a crise do governo e a situação econômica -desde outubro foram mais de 100 mil empregos perdidos – o movimento será retomado com toda força.

Apesar do rechaço ao Acordo de Paz, a mobilização tende a se agarrar no plebiscito de 26 de abril numa linha de romper o dique.

A combinação da greve geral pelas reivindicações (como Previdência Pública, Saúde, Educação, recuperação para a nação do que foi privatizado) com a intervenção no plebiscito pelo sim à nova Constituição, exigindo uma Assembleia Constituinte Soberana, pode de fato impor uma derrota ao governo, obrigando-o a entregar os dedos, cabeça, tronco e membros. O fim do regime que os chilenos não suportam mais.

Misa Boito