50 anos do golpe: “Política do PCB bloqueou a resistência” (3)

Militante que era sargento do Exército em 1964 fala sobre a falta de reação ao golpe.

Na terceira matéria da série sobre o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil publicamos entrevista com Ovídio Ferreira Dias que em 1964 era sargento do Exército. Nove dias depois do golpe Ovídio foi preso.Hoje, com 76 anos, Ovídio milita da Corrente O Trabalho do PT e se dedica em particular à luta pela reforma agrária, na região do vale do Paraíba

O Trabalho: Quando você entrou para o exército?

Ovídio Ferreira Dias: No dia 20 de janeiro de 1956 fui convocado a servir no Exército como recruta em Campo Grande (hoje MS). Eu não era militante de esquerda. Queria ser operário em São Paulo, pelas histórias de luta dos trabalhadores que me contava um velho comunista da cidade de Monte Castelo (SP) onde morei na adolescência.

Ele me dizia que o maior homem do mundo era o operário, quem produzia a riqueza. O que me fazia pensar que os operários desfrutavam dessa riqueza.

O Trabalho: Quais eram suas atividades como militar?

Ovídio: Quando me alistei, trabalhava como borracheiro, por isso fui para a cavalaria mecanizada, no 14º Recmec. De lá fui transferido para uma unidade de material bélico onde fui promovido a cabo. Mas não deixava de sonhar em ser operário em São Paulo. Após vários pedidos, em 1958, fui transferido para o quartel de material bélico em Osasco, na Grande São Paulo. Logo que cheguei a Osasco fui procurar emprego nas fábricas. Mas os salários eram baixos eu ganhava mais. Numa greve dos trabalhadores em São Paulo, por aumento de salário e redução na jornada de trabalho, vi como foram reprimidos pela polícia, com cavalaria e cachorros. Percebi que embora o velho comunista de Monte Castelo me dissesse que os operários eram os que produziam a riqueza eles não desfrutavam dela. Segui carreira no Exército e fui promovido a sargento.

 

O Trabalho: Desenvolvia que tipo de militância dentro do exército?

Ovídio: Nas eleições presidenciais de 1960 o PCB, que tinha células de militantes no Exército, decidiu apoiar o general Lott contra Jânio Quadros. Foi nessa época que me filiei ao PCB e passei a militar numa célula junto com operários me associando ao Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, o que era permitido na época. No Exército desenvolvíamos um trabalho de discussão política e criação de uma caixa beneficente sustentada pela contribuição dos associados, para atender às necessidades básicas dos sargentos que se encontravam em dificuldades financeiras.

O Trabalho: O que se comentava sobre o governo Jango dentro dos quartéis?

Ovídio: Após a renúncia de Jânio Quadros os sargentos de São Paulo – nacionalistas, comunistas filiados ao PCB, entre outras correntes do movimento operário reuniram-se com Jango e ouviram do então presidente a promessa de fazer a reforma agrária próxima às rodovias para facilitar o escoamento dos produtos. Expressão desse movimento nos quartéis, dois sargentos do exército: Antônio Garcia Filho (RJ) e Almoré Zoque Cavaleiro (RS) se candidataram a deputado federal, mas não puderam assumir o mandato porque a lei não permitia que soldados, cabos, sargentos e subtenentes fizessem parte do Parlamento. Em 1963 participei da greve dos sargentos que conseguiu derrubar essa lei. Nesse período passei a tomar contato com os militantes do POR (Partido Operário Revolucionário), que se reivindicava do trotskismo, e pela discussão política passei a militar nessa organização.

O Trabalho: No dia do golpe onde você estava?

Ovídio: Ainda servindo em Osasco, 15 dias antes do golpe participei de uma reunião de sargentos e oficiais, entre eles o Lamarca. A reunião foi chamada por causa da situação política, porque os sinais para um golpe militar já se mostravam presentes. A reunião concluiu que tínhamos que preparar a resistência. Uma semana antes do golpe fui ao Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco para discutir a resistência. Naquele momento, a direção do sindicato, sob influência da direção do PCB, avaliava que não havia condições políticas para um golpe militar e nada fez. Depois, foram presos e espancados. Ainda antes do golpe também fizemos uma reunião com os associados da caixa beneficente para discutir a resistência. Logo após o golpe recebi uma orientação dos companheiros de farda que organizavam a resistência para me deslocar até um bairro de Osasco e fazer contato com tanques rebelados vindos de Campinas que iam em direção ao Parque da Aeronáutica em São Paulo onde havia quatro mil homens concentrados. Também participei de uma reunião de militares e lideranças sindicais do CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), dirigido pelo PCB, que discutiu o chamado a uma greve geral contra o golpe. Um dos objetivos era marchar até o Palácio do Governo de São Paulo. A greve geral não foi preparada e não saiu.

Voltei para o quartel em Osasco. Na preparação do golpe, minha companhia foi deslocada para proteger um aeroporto clandestino em Osasco, que serviria para os oficiais golpistas e seus apoiadores civis fugirem caso o golpe não desse certo. Discutimos na companhia que iríamos até lá, mas não para proteger a saída dos golpistas, e sim para prendê-los.

 

O Trabalho: Que medidas foram tomadas contra soldados, sargentos e suboficiais legalistas ou de esquerda?

Ovídio: Com a ausência de luta organizada da classe trabalhadora, por responsabilidade maior da direção do PCB, que ocupava postos chaves no movimento operário, os militares que tentaram resistir começaram a ser presos. Foi o que ocorreu comigo no dia 9 de abril dentro do quartel onde servia. Lá fiquei preso dois meses sendo interrogado. De lá me transferiram para o navio Raul Soares da Marinha onde fiquei preso até abril de 1965. De maio a setembro daquele ano fiquei no presídio de Santos de onde fui solto. No navio os presos só conseguiam conversar nos banhos de água e sol.

O Trabalho: Como retomou a militância de esquerda?

Ovídio: Depois de solto perdi o contato com o POR e demais organizações ligadas aos trabalhadores e que já estavam na clandestinidade. Passei a me reunir clandestinamente com companheiros militares que também tinham sido presos e expulsos das Forças Armadas e passamos a lutar pela anistia.

 

O Trabalho: Que lição você tirou da política do PCB?

Ovídio: Na prisão eu tinha contato com dois dirigentes do PCB. Cobramos deles a falta de resistência ao golpe, pois julgávamos que tínhamos condições de sermos vitoriosos.

Respondiam que não havia condição de resistir porque os EUA tinham uma frota no mar e que sua política era de uma coexistência pacífica entre o bloco comunista e o bloco capitalista. Quando fui militar no PT na cidade de Mogi das Cruzes (SP) vi na Corrente O Trabalho uma política internacionalista para ajudar a classe trabalhadora a colocar um fim ao sistema capitalista, o contrário da política de coexistência com esse sistema onde não é possível o socialismo num só país.

Entrevista feita por Nilton de Martins

Publicado originalmente na edição nº 745 do jornal O Trabalho

Artigo anteriorSenado retoma ofensiva pela redução da maioridade penal
Próximo artigoCrimeia: após o referendo, volta da guerra fria?