Crimeia: após o referendo, volta da guerra fria?

EUA e União Europeia aplicam “terapia de choque” na Ucrânia

Não é surpresa que a esmagadora maioria de eleitores tenha votado pela anexação da Criméia à Rússia. As medidas tomadas pelo governo ucraniano – proibição da língua russa (falada pela grande maioria), “terapia de choque” ditada pelo FMI, reabilitação de movimentos que colaboraram com nazistas – estão na base desse resultado. Diante do resultado o governo Ucraniano decretou a mobilização geral dos reservistas e a constituição de uma milícia de dezenas de milhares de homens incorporando os “combatentes” da Praça Maïdan cuja maioria é ligada à direita.

A OTAN realiza manobras militares nos países vizinhos (Polônia, Romênia e Bulgária), o que leva mais cidadãos ucranianos do leste e sul do país verem na anexação à Rússia um “mal menor” acentuando o processo de esfacelamento do país.

Sanções contra a Rússia: uma nova “guerra fria”?

Após o referendo, os EUA e a União Europeia anunciaram “sanções” contra a Rússia… sanções relativamente modestas, pois é preciso “não fechar a porta para o diálogo”… Uma nova guerra fria?

Nada disso. A “guerra fria” ocorreu num contexto em que, apesar da burocracia privilegiada que dominava a União Soviética, estava baseada num sistema em que o capitalismo havia sido expropriado. Vinte anos depois da queda da URSS, não é mais o caso. A economia russa, baseada nas privatizações e pilhagens dos anos 1990 integrou-se à economia capitalista mundial em crise.

Por isso que o Reino Unido, cuja capital Londres é o centro de operações de oligarcas mafiosos russos, e também a Alemanha, que depende do gás e petróleo russos, resistem em aplicar sanções severas à Rússia.

Ao contrário de uma “guerra fria” o que está em curso é uma guerra social contra a classe operária ucraniana, parte da ofensiva contra os trabalhadores de toda a Europa.

Uma guerra social que provocará resistência. É para evitar esse risco que todos trabalham pelo esfacelamento da Ucrânia.

Egor Vladimirov, da agência TPPInform comenta que “a economia nacional ucraniana continua muito soviética e necessita de reformas. No outono de 2013, uma delegação do FMI em visita a Kiev chegou à conclusão que medidas impopulares devem ser tomadas com urgência. Entre elas, aumento do preço do gás, congelamento dos salários e aposentadorias e cortes orçamentários…”.

O baile dos hipócritas e mentirosos

“Ilegal”, “contrário ao direito internacional” declaram o governo dos EUA e a União Europeia a respeito do referendo da Crimeia. Inclusive entre a extrema esquerda, virou moda “indignar-se” contra a Rússia. Ora, o próprio Putin argumenta com o precedente do Kosovo (ex – Iugoslávia) onde, depois da intervenção da OTAN, foi separado da Sérvia e declarado “independente” em 2007 com apoio dos EUA que hoje tem uma grande base militar ali.

E as tropas russas, fantasiadas de milícias de autodefesa? “Uma invasão”, claro. Mas, nenhuma palavra sobre o desembarque em Kiev, segundo o jornal inglês Daily Mail, de 300 mercenários da agência privada norte-americana Academi (ex- -Blackwater) que exerceram seus “talentos” no Iraque e outras partes.

E em matéria de referendos a União Europeia não pode dar lições: obrigou o povo da Dinamarca a votar de novo após ter rejeitado seus tratados em 1992 além de desrespeitar o voto “não” majoritário em 2005 na França e Holanda, impondo o tratado constitucional europeu rebatizado de “tratado de Lisboa”.

E o espantalho da extrema direita que a União Europeia agita para justificar a submissão à sua política? O ministro francês Fabius diz que: “o partido Svoboda é um partido mais à direita do que outros, mas não de extrema direita”.  Esconde que esse partido celebra cada ano a memória da divisão da SS (organização nazista) ucraniana. Desde que se aceite a terapia de choque do FMI e da União Europeia, como aceitaram o Partido Svoboda e seus ministros, eles se tornaram “respeitáveis”?

Artigo originalmente publicado na edição nº 745 do jornal O Trabalho.

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