Declaração do Secretariado Internacional da 4ª Internacional

12 de janeiro de 2026

Depois da Palestina, a Venezuela! A barbárie e a selvageria do capitalismo se mostram para salvar um sistema agonizante e regimes em crise. Os povos, apesar dos golpes recebidos, não aceitam. Resistir, mobilizar, unir e organizar… para ajudar a agir e vencer.

A intervenção das Forças Armadas dos EUA na Venezuela, que resultou em 100 mortos entre civis e militares e centenas de feridos, o sequestro do presidente da república Nicolas Maduro e de sua esposa Cilia Flores, bem como a coletiva de imprensa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exigindo a submissão total da Venezuela aos interesses do capital financeiro estadunidense, provocaram um espanto mundial.

Em 3 de janeiro, Trump enviou uma mensagem ao mundo. Essa mensagem expressa o fato de que a crise de dominação do imperialismo estadunidense não pode mais ser resolvida, nem mesmo adiada, pelos meios habituais da política externa e das relações internacionais resultantes do pós-guerra de 1945, nem pelos meios extraordinários mobilizados há um ano pelo governo dos EUA.

– A expulsão em massa de imigrantes do seu solo – 605 mil somente no ano de 2025, o dobro do número registrado em 2024 sob o governo de Joe Biden, que já havia sido um ano recorde na última década – e a saída “voluntária” de 1,9 milhão de imigrantes deveriam liberar milhares de empregos para os nascidos nos EUA. No entanto, há mais desempregados hoje do que há um ano.

– As tarifas impostas ao mundo por Trump, e em particular à China, na tentativa de conter sua participação no mercado mundial e forçá-la a abrir ainda mais seu mercado interno ao capital estadunidense, deveriam reindustrializar os Estados Unidos e reduzir sua dívida colossal. No entanto, a indústria de transformação continuou a perder empregos e a dívida dos EUA aumentou em 2 trilhões de dólares. Quanto às exportações da China, elas certamente diminuíram para os Estados Unidos, mas bateram seu recorde mundial em 2025.

Trump não tem como resolver a crise do sistema capitalista global, cujo epicentro são os Estados Unidos. A intervenção militar contra a Venezuela ocorre após quatro anos de guerra na Ucrânia e no momento em que o genocídio do povo palestino, assumido e banalizado pelo governo estadunidense e seus representantes, visando erradicar os palestinos e estarrecendo os povos do mundo, mostra até onde o imperialismo em crise está disposto a levar a humanidade para garantir sua “posição proeminente”, segundo a fórmula da Casa Branca (“Estratégia de Segurança Nacional”, novembro de 2025).

A pretensa “luta contra o narcotráfico”, em nome da qual Trump afirma ter capturado o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro (enquanto acaba de perdoar o ex-presidente de Honduras, condenado em 2024 nos Estados Unidos a 45 anos de prisão por narcotráfico), visa ofuscar um fato simples e incontestável: apenas 15% dos estadunidenses consideram que a política econômica do governo lhes foi favorável. Uma maioria de 58% — chegando a 88% na população negra – desaprova a política de Trump.

A maioria da população viu suas despesas de consumo, saúde e moradia aumentarem em proporções insustentáveis. De acordo com um estudo das Universidades de Yale e da Pensilvânia, os cortes orçamentários decididos por Trump no sistema de saúde podem levar a 51 mil mortes prematuras a cada ano, uma morte a mais a cada dez minutos, e privar 15 milhões de pobres de seguro de saúde.

Enquanto 60% dos estadunidenses vivem no sufoco, o governo mobiliza militares da Guarda Nacional em bairros carentes de várias grandes cidades e a polícia de imigração (ICE) para combater o que Trump chamou de “inimigo interno”, provocando grandes protestos no país. Quanto mais impopular e contestada se torna o governo dos EUA, mais ele se mostra agressivo.

A profunda crise, que tem suas raízes no impasse do sistema capitalista mundial e na dramática deterioração das condições de vida, começou a vir à tona com a rejeição dos candidatos dos dois principais partidos da classe capitalista e a eleição de Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova York, sob as cores do Socialistas Democráticos da América (DSA).

Ela se manifestou na maior mobilização da história dos Estados Unidos, que reuniu 7 milhões de manifestantes nas ruas de 2.700 cidades contra Trump e sua política em 18 de outubro de 2025, e, mais recentemente, nas grandes manifestações contra o ICE após o assassinato de Renée Nicole Good em Minneapolis, expressando uma combatividade sem precedentes e a busca por uma política de ruptura que provoca uma crise dentro do Partido Republicano e do movimento MAGA (“Make America Great Again”) com a aproximação das eleições de meio de mandato (novembro de 2026).

Ela se prolonga nas manifestações que se desenvolveram nos Estados Unidos e, mais amplamente, em escala internacional, para se opor à intervenção militar estadunidense na Venezuela e rejeitar a alternativa imposta por Trump: submissão ou guerra.

Apesar das negativas do secretário de Estado, Marco Rubio, que se recusa a falar de guerra contra a Venezuela, os Estados Unidos ameaçam mobilizar novamente a força militar se o governo bolivariano não se submeter às exigências do imperialismo e ameaçam Cuba, a Colômbia, o México… Toda a América Latina está em choque. Na realidade, a mensagem de Trump tem um alcance mundial.

Mesmo que alguns representantes eminentes do capital nos EUA, como muitos dirigentes no mundo, se preocupem com o “precedente que (a intervenção na Venezuela) cria, afirmando o direito das grandes potências de intervir em suas zonas de influência contra líderes que considerem ilegítimos ou ameaçadores”, estas são, em primeiro lugar, as zonas de influência que o imperialismo estadunidense pretende dominar.

Não conseguindo impor sua vontade apenas por meio de sanções e tarifas alfandegárias, Trump planeja agora aumentar o orçamento militar em cerca de 70%, para 1,5 trilhão de dólares em 2027. Nada indica que o povo venezuelano, que começou a sair às ruas para defender sua independência e soberania, ou qualquer outro povo, aceitará se submeter às exigências dos Estados Unidos. Apenas 6% dos groenlandeses são favoráveis à anexação do território ártico pelos EUA, enquanto só 8% dos estadunidenses aprovam uma intervenção militar para assumir o seu controle.

Por outro lado, a rapidez com que os líderes dos velhos países imperialistas da Europa se alinharam com Trump – depois de aceitarem sem reclamar as tarifas e se comprometerem a aumentar seu orçamento militar para 5% do PIB – diz muito sobre o servilismo dos governos europeus em relação ao chefe estadunidense, que quer decidir o futuro da guerra na Ucrânia e, de forma mais ampla, da Europa, em seus próprios termos.

Essa subserviência lança luz sobre a natureza dos obstáculos que se erguem contra a juventude e o movimento operário europeu. Nenhuma solidariedade, nenhum apoio a esses governos que exercem sobre seu povo a mesma chantagem que Trump: submissão ou guerra; redução dos gastos públicos e das proteções sociais para financiar os orçamentos militares ou a guerra.

O inimigo está em nosso próprio país, são os nossos governos submetidos ao imperialismo dos Estados Unidos. Não pode haver ruptura com Trump sem ruptura com os governos pró-guerra na Europa. De acordo com um estudo do “Center for Strategic and International Studies” publicado em junho de 2025, a guerra na Ucrânia causou 1,4 milhão de mortos e feridos em ambos os lados em pouco mais de três anos, quase um por minuto. Será que a hecatombe deve continuar e os povos da Europa devem se preparar e “aceitar perder seus filhos”, como afirmou o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas? A 4ª Internacional reitera sua posição constante desde fevereiro de 2022: nem a Otan, nem Trump, nem Putin, nem Zelensky! Parem de fornecer armas ao regime ucraniano! Cessar-fogo!

A intervenção militar na Venezuela ilustra perfeitamente o que significam “soberania” e “liberdade” para a América de Trump, que declara abertamente querer se apoderar das reservas de petróleo. Em nome de que interesse? A produção petrolífera da Venezuela representa menos de 1% da produção mundial. Seriam necessários investimentos maciços e mais de uma década para duplicar sua produção. Muito mais ainda para explorar as imensas reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo, enquanto os Estados Unidos já são o maior produtor mundial de petróleo.

O capital estadunidense não pode tolerar a nacionalização do petróleo venezuelano e quer retomá-lo. Trata-se da crise de dominação do imperialismo que, “após anos de negligência, (pretende) reafirmar e aplicar a doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental” – ou seja, torná-lo sua zona de influência exclusiva e não “permitir que nenhuma nação se torne tão dominante a ponto de ameaçar (seus) interesses”.

Poucas horas antes da intervenção militar dos EUA, Nicolás Maduro se reuniu com uma delegação oficial chinesa em Caracas com o objetivo de reforçar os 600 acordos bilaterais entre a Venezuela e a China, que compra 80% do petróleo venezuelano.

Esse é o significado da intervenção militar na Venezuela, mas também dos bombardeios na Nigéria – o país africano que recebe mais investimentos chineses. Esse é o significado e o alcance global dos eventos de 3 de janeiro: colocar o “hemisfério ocidental” sob o domínio do capital dos Estados Unidos.

O governo do presidente estadunidense Joe Biden entregou milhares de granadas, bombas e munições ao governo israelense de Benjamin Netanyahu para massacrar crianças e famílias palestinas, à vista de todos, que puderam acompanhar todos os dias, durante mais de dois anos, ao vivo nas redes sociais, um verdadeiro genocídio. Autorizou o bloqueio de Gaza, a fome em massa e as piores atrocidades contra uma população a quem os governos de todo o mundo, apesar de alguns protestos, negaram a mínima proteção.

Trump deu continuidade e agravou a política de Biden na Palestina, com o objetivo declarado de erradicar a população palestina e expulsá-la de suas terras. Trinta e sete organizações humanitárias internacionais indispensáveis à sobrevivência dos palestinos estão agora proibidas em Gaza. A Unwra, uma agência da ONU dedicada à Palestina desde 1949, foi banida. Isso suscitou mais do que protestos puramente formais por parte dos diferentes governos? Nenhum. Então, por que parar por aí?

Foram os povos que se mobilizaram, indignados com a barbárie do capitalismo exposta na Palestina e que continua hoje na Venezuela – e sem dúvida amanhã em outros lugares. Os povos se mobilizaram, apesar da ausência dos principais dirigentes do movimento operário, que não organizaram nada para se opor ao massacre do povo palestino, escondendo-se atrás de declarações ou simplesmente recusando-se a tomar posição. Eles achavam que não podiam fazer outra coisa? Os milhões que se mobilizaram na Itália com os estivadores, na Bélgica, na Holanda, na Espanha na Inglaterra e em muitos outros países mostram, no entanto, a enorme disponibilidade dos trabalhadores e dos jovens para resistir à barbárie que se desencadeou na Palestina com o apoio, ou a cumplicidade silenciosa, daqueles que hoje se comovem, sinceramente ou não, por sua continuidade na Venezuela e no mundo.

Quem pode deter o imperialismo dos EUA, a barbárie e a marcha para o caos, senão a juventude e a classe trabalhadora, com suas organizações, para impor uma política de ruptura a fim de defender a democracia, a liberdade e a soberania? Pois mesmo com uma mão amarrada nas costas, os povos se recusam e buscam ativamente resistir, mobilizar, se unir e se organizar… para ajudar a agir e vencer.

Grandes mudanças marcarão inevitavelmente os desenvolvimentos futuros. Em quase todos os países, com expressões e formas próprias de cada um, centenas de milhares de homens e mulheres, militantes políticos, sindicalistas e democratas, amantes da liberdade e da justiça, procuram emancipar-se da tutela “tradicional” dos aparelhos burocráticos políticos ou sindicais.

Alimentados por sua própria experiência, revoltados com uma realidade insustentável, apoiados nas melhores tradições das lutas emancipatórias, provenientes da classe operária ou das profundezas do povo, imunes às divisões racistas, esses homens e mulheres se engajam. Em associações, agrupamentos diversos e em movimentos ou partidos organizados sobre uma base de ruptura sem concessões.

Foi assim que se formaram forças consequentes como a LFI na França, a DSA nos Estados Unidos, na Inglaterra… bem como no movimento sindical por iniciativa dos portuários na Itália. Agora elas têm a atenção, o acompanhamento e a simpatia de milhões de pessoas. São um dado incontornável da situação. O ódio, os insultos e as calúnias de que são vítimas são proporcionais ao lugar que ocupam. Esses processos, mesmo os mais tênues, são pontos de apoio para as possibilidades de vitória.

Convocamos os trabalhadores, o povo, os movimentos sociais, os sindicatos e as federações a condenarem firmemente a agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Da mesma forma, chamamos os povos do mundo, em particular da América Latina e do Caribe, a fazerem ouvir suas vozes em protesto. (…) Saudamos as manifestações massivas organizadas em vários países contra o ataque de Trump à Venezuela, notadamente na França, Espanha, Alemanha, Grécia, Suécia e México, bem como as 105 manifestações nos Estados Unidos organizadas pela coligação Answer, um movimento pacifista estadunidense.

Condenamos os bombardeios dos EUA sobre a Venezuela!

Libertação imediata do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores!

Repudiamos o anúncio de Trump de assumir o controle da Venezuela! A Venezuela jamais será uma colônia dos Estados Unidos!”.

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