Luta contra a ocupação militar da ONU com a mão dos EUA e liderada pelo Brasil
O Haiti, hoje o país mais pobre do continente, foi a primeira república negra das Américas. Liderados por um ex-escravizado, Dessalines, derrotaram as tropas de Napoleão e proclamaram sua independência em 1804, um verdadeiro processo revolucionário. Marcado por invasões e golpes de Estado, o país foi ocupado por espanhóis, franceses e estadunidenses durantes os últimos séculos. Após 222 anos de sua independência, o Haiti segue sendo atacado, em grande medida, pelo significado do movimento que originou a nação e combinou luta nacional e de libertação dos escravizados.
Em 2004, uma nova ocupação
O sequestro do presidente do Haiti, Jean Bertrand Aristide, orquestrada pelo governo estadunidense abriu espaço para a ocupação militar do país. Em 2004, a convite do presidente George W. Bush, Lula aceitou liderar das tropas. E a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti), ocupou o país sob mandato da ONU, mas a direção política seguia com os EUA, Canadá e França. A missão, com contingentes de mais de 30 países, durou até 2017, deixando mais de 30 mil mortos e um rastro de destruição e violência contra a soberania do povo haitiano.
Laboratório de golpes: bolsonarismo e UPPs
Durante esse período, o Brasil enviou cerca de 37 mil soldados e oficiais ao Haiti. Vários comandantes da Minustah, posteriormente, ocuparam cargos importantes no governo Bolsonaro. Entre eles, Augusto Heleno, associado à operação que matou 63 haitianos em Cité Soleil em 2005 e posteriormente ministro-chefe do GSI; Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo; Luiz Eduardo Ramos, que comandou tropas no Haiti e depois foi ministro da Casa Civil; Floriano Peixoto, posteriormente secretário-geral da Presidência; e Edson Pujol, comandante da Minustah entre 2013 e 2014 e depois comandante do Exército. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, ex-ministro de Bolsonaro esteve no Haiti, assim como Fernando Azevedo e Silva, ex-ministro da Defesa e Otávio Rêgo Barros, depois porta-voz do governo Bolsonaro. Em 2011, o então ministro da Defesa no governo Lula, Nelson Jobim, afirmou que a atuação do Exército brasileiro no Haiti, voltada à “manutenção da lei e da ordem”, poderia ser aplicada no país. As operações no Haiti serviram como laboratório para intervenções militares no Brasil, incluindo as ações de GLO e as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio de Janeiro.

‘Defender o Haiti é defender a nós mesmos’
Antes mesmo do envio das tropas, movimentos sociais, entidades estudantis e dirigentes sindicais e partidários se mobilizaram contra a participação brasileira e organizaram em maio de 2004 um Ato no Largo São Francisco, em SP. A campanha e a criação do comitê “Defender o Haiti é defender a nós mesmos”, numa das mais longevas campanhas impulsionadas pela corrente O Trabalho, teve ampla participação de entidades como o MST, Jubileu Sul, MNU, Conen, CMP e de dirigentes do PT e da CUT. Durante esses 13 anos foram realizadas dezenas de atividades nacionais e internacionais, no Brasil e no Haiti. Sindicalistas e parlamentares haitianos estiveram no país para denunciar a opressão e repressão das tropas contra o povo. Delegações internacionais estiveram na sede da ONU por duas vezes pedindo a retirada das tropas.

Minustah e terremoto devastam o Haiti
Em 2010, um terremoto matou cerca de 300 mil pessoas e deixou mais de 1 milhão de desabrigados. Segundo Omar R. Thomaz, professor da Unicamp que estava no Haiti no momento do terremoto, “o que vi foi a absoluta ausência de qualquer forma de ajuda. Fracasso de todo o aparato associado à ideia de ‘ajuda internacional’”. As tropas também foram responsáveis pela introdução do cólera no país, que matou mais de 7.500 pessoas e contaminou cerca de 600 mil.

As ONGs, que reinavam no país, eram alvo de sucessivas denúncias de desvios de recursos, inclusive a criada por Barack Obama, o ‘Fundo Clinton Bush’, cujas verbas nunca chegaram à população.A presença da Minustah também garantia a repressão contra os trabalhadores e o povo que se mobilizava com a superexploração do trabalho nas zonas francas e baixos salário – 3 dólares por dia – sem direito a férias ou descanso semanal.

Foram as tropas também que garantiram os resultados de sucessivas eleições fraudulentas, que mantinha no poder, de fato, EUA, França e Canadá. Hoje, fruto dessa situação, uma crise aguda atinge o Haiti e desde o assassinato do presidente Jovenel Moise, em 2016, o cargo segue vago. O país foi dominado por violentas milícias paramilitares e gangues, que atuam nos bairros populares, aumentando a tragédia vivida pelos trabalhadores e pelo povo, que enfrentam a carestia e uma onda de demissões em massa, o que tem aumentado, ainda mais, a pobreza. Esse é o “legado’ de 13 anos de ocupação por tropas da ONU, do Haiti.

Barbara Corrales

