A OSI torna-se a Corrente O Trabalho do PT

As articulações políticas que irão desembocar na fundação do PT em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion em São Paulo, se deram ao
longo de 1979, com o lançamento de sua Carta de Princípios em maio e a criação em outubro da Comissão Nacional Provisória do Movimento pelo Partido dos Trabalhadores. No plano mundial, o ano de 1979 foi marcado pela eclosão da revolução no Irã, que derrubou a monarquia do Xá (imperador) Reza Pahlevi, que era um pilar do imperialismo dos EUA no Oriente Médio. Uma revolução popular, com
forte participação dos trabalhadores, sindicatos e organizações de esquerda, que será depois confiscada pelos aiatolás (1). Em 19 e 20 de
julho do mesmo ano é derrubada a ditadura Somoza na Nicarágua, como resultado da ação das massas que se apoiaram na Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), com grande impacto na América Latina. Em 20 de janeiro de 1980 a direção da Organização
Socialista Internacionalista adotou uma resolução sobre o recém fundado PT que dizia: “A OSI, como tal, em sua imprensa, em sua atividade, deve dizer muito claramente: ‘Somos a favor de todo passo no caminho da construção de um PT independente
do governo, do Estado, rompendo com a burguesia, situando-se no terreno da independência de classe do proletariado’”.
A OSI decide então entrar no PT “para ampliar o combate pela independência sindical na direção de uma Central Sindical Independente,
aspecto determinante da luta pela derrubada da ditadura militar; impulsionar o combate pela libertação da nação oprimida contra o imperialismo, por meio de uma campanha política centrada na palavra-de-ordem de Assembleia Constituinte Soberana e Democrática”
(Resolução do 4º Congresso, agosto de 1980). A evolução da situação revolucionária na Nicarágua, com a constituição pela FSLN de um governo de reconstrução nacional com setores burgueses, provocou um realinhamento de forças trotskistas no plano internacional. No
Brasil ele levou a um breve período de aproximação entre a OSI e a Convergência Socialista (CS) entre 1980 e Mas esse processo foi interrompido com a ruptura promovida pelos “morenistas” (2).

Nos primeiros anos do PT, os militantes da OSI participaram ativamente do processo de legalização do partido, visitando bairros e locais de trabalho para atingir as filiações exigidas pela legislação da época. Participaram também de todo o processo que levou à fundação da CUT em agosto de 1983. Eles ajudaram a formular os estatutos da central com os princípios de independência diante dos patrões e governos, de autonomia diante dos partidos políticos e luta pela liberdade sindical. Também ajudaram a elaborar a “Linha sindical do PT”, adotada em seu 4º Encontro Nacional (1986). Dentro do PT, a OSI buscou um trabalho comum com seu núcleo dirigente – a chamada “Articulação dos 113” – que seguia então um curso à esquerda. Foi o período da campanha pelas “Diretas Já” (1984), com o posterior boicote do PT ao colégio eleitoral da ditadura, período em que o partido crescia de forma acelerada, com sua militância organizada em núcleos de base.
Em 1983, a OSI passa a fazer parte da 4º Internacional-Comitê internacional de Reconstrução (QI-CIR), surgido após o fim da QI-CI. Em maio de 1984, em seu 7º congresso, ela muda o seu nome para Fração 4ª Internacional do PT, assumindo em 1985 o nome que tem até hoje: Corrente O Trabalho do PT (OT). A luta por uma Constituinte Soberana em 1985/86 reforçou o PT como representação política dos trabalhadores e setores oprimidos e se prolongou na luta anti-imperialista contra o pagamento da dívida externa.

Em maio de 1987, uma parte dos membros da direção de OT se dispôs a “abrir mão” da corrente e dissolvê-la na “Articulação dos 113”. A maioria dos militantes, contudo, apoiou o agrupamento formado pelos dirigentes que se opunham à dissolução de OT e de seus laços com a QI-CIR, assegurando assim a sua continuidade no seu 10º congresso (junho de 1987). Nesse período ocorre o Congresso Constituinte (1986-88) sob o governo de Sarney e OT incide nas discussões que levam tanto o PT, cuja bancada votou “não” ao texto global, como a
CUT, no seu 3º congresso em Belo Horizonte, a adotarem posição contrária à Constituição de 1988, fruto de um “pacto das elites” que bloqueava as reformas estruturais e preservava entulhos da ditadura no sistema político, além de proteger os crimes dos militares.
No plano internacional, OT associa setores do PT e da CUT à realização do Tribunal Internacional de Lima (Peru) contra a Dívida Externa em maio de 1989. Em 9 de novembro de 1989 ocorre a queda do Muro de Berlim que vai impactar o mundo todo e em particular as organizações que se reivindicam do socialismo. Suas consequências no PT e na luta pela reconstrução da 4ª Internacional serão objeto de outro artigo desta série que comemora os nossos 50 anos.

Lauro Fagundes

Notas:
1 – Aiatolá é a denominação dada a líderes do alto clero muçulmano xiita que ocupam o papel de líder supremo da República Islâmica do Irã, combinando autoridade religiosa e poder político.

2 – O Comitê Paritário (CP) foi criado no final de 1979 somando as forças do CORQUI – Comitê de Organização pela Reconstrução da 4ª Internacional, ao qual pertencia a OSI – com a Fração Bolchevique “morenista” (do nome do dirigente argentino Nahuel Moreno) e a Tendência Leninista-Trotskista (TLT). Ambas romperam com o Secretariado Unificado (SU) após a sua negativa de defender
militantes trotskistas da Brigada Simón Bolívar da repressão promovida contra eles pela FSLN na Nicarágua. O CP organizou um congresso mundial que criou a 4ª Internacional-Comitê Internacional em 1981 (QI-CI) agrupando a maioria das forças que se reivindicavam do trotskismo, mas que foi rompida em pouco tempo por Moreno, usando o pretexto de que a seção francesa (OCI) teria capitulado diante
do governo Mitterrand (PS). A CS era a organização “morenista” no Brasil.

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