Empresa quer que trabalhador pague a conta dos patrões
O Jornal O Trabalho teve acesso exclusivo a relatos da reunião entre diretores da empresa TIC Trens, responsável pela operação da Linha 7-Rubi em São Paulo, e funcionários. Na reunião, a empresa tentou persuadir os trabalhadores a não acionarem a justiça do trabalho e abrirem mão de receber insalubridade, direito que lhe é garantido, pois há um compromisso de repassar lucros aos acionistas. A TIC Trens possui mais de 130 processos judiciais, em sua maioria reclamações por não pagamento de insalubridade, periculosidade, horas extras, recolhimento FGTS e outros. A empresa tenta evitar novos processos e está trocando de nome, porque tem como objetivo participar de novas rodadas de privatizações do governo Tarcísio de Freitas. Diversos funcionários colocam suas vidas em risco trabalhando com escassez de EPI e sobre vasta pressão. Após a privatização, acidentes tornaram-se comuns devido à economia em manutenções fundamentais. A situação coloca em risco também cerca de 400 mil passageiros que usam a linha 7-Rubi todos os dias. Para denunciar o problema, cinco funcionários da manutenção civil procuraram o nosso jornal (omitimos os nomes por segurança dos mesmos). Abaixo compilado da entrevista que nos foi concedida. Trata-se de um relato nu e cru sobre os efeitos nefastos das privatizações.

1- Conte para nós como está a situação dos trabalhadores da TIC Trens.
Quando entramos na TIC Trens, inicialmente fomos informados de que a empresa não pagaria a periculosidade. Até então achávamos que iríamos apenas fazer pequenos serviços voltados à pintura, troca de pisos, consertos de caixa d’água em local de acesso aos passageiros. Porém, começamos a identificar diversos locais onde corremos sérios riscos como: serviços em via férrea executando criação e vedação de caixas de passagem; serviços em subestações como reparos em banheiro; limpeza de calhas; criação de passagens de dutos, entre outros, correndo sérios riscos de descarga elétrica. Após esses acontecimentos, começamos a cobrar a empresa sobre os nossos direitos de receber o adicional de periculosidade. Depois de tanto os funcionários efetuarem cobranças, a empresa se prontificou a executar um laudo pericial para verificar a real constatação do problema. Devido a vários ruídos de que esse laudo teria dado a favor dos trabalhadores, a gestão da empresa veio até os funcionários alegando que ainda faltava o laudo de periculosidade e, mesmo com o laudo aprovado, a empresa se recusaria a efetuar os pagamentos devido não ter como informar os acionistas do gasto que teria para regularizar nossa situação, e que não seria viável pagar por conta dos valores retroativos. Os funcionários tentaram mediar a situação, tentando fazer um acordo onde poderiam pagar parceladamente, ou iniciar os pagamentos a partir da aprovação do laudo. Mesmo assim, a empresa se recusou! Atualmente, a empresa vem tomando algumas atitudes que não convêm à forma correta de se ajustar. A mesma vem demitindo funcionários sem pagar os retroativos e, por diversas outras vezes, vem maltratando os funcionários no intuito de pedirem demissões. Funcionários que não tinham problemas psicológicos atualmente vêm tomando remédios controlados para poderem aguentar as pressões. Lembrando que em maio de 2026 foi aprovada a verificação do transtorno de burnout, e a empresa não se manifesta sobre essa situação. Os gestores alegam não saberem que tínhamos esses direitos, porém, todos vieram de outra concessionária que pagava esse direito. Importante dizer que a empresa está migrando o nome de TIC trens para Trilha, pois com o excesso de processos trabalhistas, não poderia participar do leilão de privatização da linha 10 e, com esse novo nome, participará normalmente como se nada estivesse acontecendo.
2 – Quais riscos vocês já sofreram dentro da empresa? Há medidas de segurança e EPI suficientes?
Riscos de atropelamento por trem na via enquanto fazemos manutenção em caixas de acesso a cabos de energia durante a noite. Falta de segurança em pontos da via por existir tráfico de drogas, comprometendo a nossa segurança ao executar certos tipos de serviço. Se a manutenção afetar o acesso de usuários a pontos de drogas, os traficantes não deixam a gente executar o serviço. Em questão de medidas de segurança, faz um ano que estou na empresa e agora é que foram falar sobre o procedimento para acessar a via. EPI, só quem pode solicitar é o supervisor; se ele não estiver presente e caso a gente precise, ficamos sem.

