Nas últimas semanas a Espanha está vivendo uma onda de manifestações em todas as regiões, de trabalhadores e jovens, que foi precipitada pelo despejo de uma senhora de 87 anos de sua residência. A questão escassez de moradias e dos altos preços dos aluguéis provocados pela especulação imobiliária vem piorando aceleradamente a situação e o episódio precipitou a revolta. Abaixo o encadeamento dos fatos:
– 23 de setembro: Maricarmen Abascal, uma mulher de 87 anos, é despejada de sua residência, apesar da tentativa de seus vizinhos.
– 26 de setembro: em reação, centenas de milhares se manifestam contra os despejos de inquilinos e exigem sua proibição. Um grande acampamento na praça Puerta del Sol em Madrid foi organizado pelo Sindicato dos Inquilinos e por jovens.
– 1º de outubro: o governo de Sánchez aprova dois decretos-lei sobre a proteção dos inquilinos
– 2 de outubro: o Parlamento se recusa a aprovar os dois decretos.
– 3 de outubro: 500 mil manifestantes exigem medidas para a habitação.
– 5 de outubro: o primeiro-ministro Pedro Sánchez anuncia a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições gerais para 29/11.
– 7 de outubro: Maricarmen Abascal falece no hospital para onde havia sido levada após seu despejo. As duas centrais sindicais UGT e CCOO convocam uma greve geral para 11 de novembro, “por melhores salários, por moradia digna e por medidas de controle de preços diante de uma inflação que corrói nosso poder de compra”.
– 9 de outubro: centenas de milhares de manifestantes voltam a sair às ruas em homenagem a Maricarmen e para exigir medidas para a redução dos aluguéis.

Que legislatura está terminando?
O anúncio da antecipação das eleições por Sánchez marca o fim de uma legislatura que, apesar de alguns avanços, como o aumento do salário-mínimo e a retomada do reajuste das aposentadorias, terminará sem dar resposta às principais reivindicações da população trabalhadora e sem cumprir boa parte das promessas do governo, como a revogação da Lei da Mordaça (que impõe severas restrições a manifestações a aumenta o poder de polícia desde 2015) e da Lei 15/97, que facilita a privatização da saúde. O governo não se opôs ao Poder Judiciário, às instituições do Estado herdadas do franquismo, aceitando as regras do jogo e as limitações impostas pelo regime da Monarquia de 1978.
Os aumentos nos preços dos combustíveis e de outros itens de primeira necessidade estão sobrecarregando a população trabalhadora. Está previsto para setembro um aumento do IPC (Índices de Preços ao Consumo) de 4,9%, enquanto as aposentadorias subiram 2,7%, o salário mínimo 3,1%, os salários acordados em convenções coletivas 3,04% e os dos funcionários públicos 1,5%. E o governo tem deixado a situação seguir seu curso sem propor nenhuma medida eficaz. Os gastos militares aumentaram 70% entre 2023 e 2025, chegando a quase 39,5 bilhões de euros em 2025!
A questão da moradia
O problema da moradia não só não melhorou, como se agravou. Os aluguéis subiram 25% desde 2023. Houve o retorno de uma situação análoga a do século XIX: de aluguéis por quarto e apartamentos superlotados. Há casos de trabalhadores que dormem nas ruas ou em seus carros. Segundo o Instituto Nacional de Estatística há na Espanha 3.837.328 apartamentos ou unidades habitacionais vazias, o que representa 14,4% do total. Imóveis destinados, em grande parte, ao aluguel turístico. Uma parte significativa pertence a grandes corporações, desde o setor bancário até a Igreja, o que popularmente são chamados de “fundos abutres”.

As eleições e a Greve Geral
O periódico espanhol Información Obrera na edição de 6 de outubro, concluiu: “Várias candidaturas serão apresentadas, buscando o voto dos trabalhadores. Mas a população trabalhadora tem reivindicações e exigências claras, e toda candidatura que queira representá-la deve incluí-las em seus compromissos: Solução para o problema da moradia: suspensão dos despejos, redução dos aluguéis, expropriação dos imóveis dos fundos predatórios; controle dos preços dos combustíveis, da eletricidade, dos alimentos e dos produtos de primeira necessidade; aumento automático dos salários e das aposentadorias de acordo com a inflação; fim do rearmamento: gastos militares redirecionados para escolas, hospitais e fins sociais. É preciso defendê-las por meio da mobilização, rumo à greve geral convocada pela UGT e pela CCOO, em resposta à proposta do sindicato dos inquilinos, e que deve ser impulsionada e preparada em todos os lugares.”
No fechamento dessa edição uma greve da educação em Madrid, com 70% de adesão, foi deflagrada por tempo indeterminado. Uma marcha dos professores foi ao encontro do acampamento contra os despejos na praça Puerta del Sol.
Tiago Maciel

