Comitê pela apuração do crime lutou pela federalização da investigação
Completaram-se esse ano duas décadas da manhã cinzenta de 10 de abril de 2006, quando a violência política e antioperária ceifou precocemente a vida do nosso camarada Anderson Luís Santos.
Assassinado a tiros aos 30 anos no município de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, enquanto se deslocava para a sede do sindicato, o jovem presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Frios e Laticínios do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense (Sintrafrio) deixou um legado de firmeza de classe trabalhadora. Sua vida e luta é um exemplo a ser lembrado neste momento de comemoração dos 50 anos da Corrente O Trabalho do PT.
Sua trajetória de engajamento começou muito cedo. Ainda na juventude, militando na Juventude Revolução (JR) e no movimento estudantil secundarista da Baixada Fluminense, Anderson compreendeu a urgência do internacionalismo. Junto com seu amigo e camarada Julinho e muitos outros, organizaram as lutas dos estudantes e jovens do Rio de Janeiro.
Nesse caminho, participou da reunião de jovens negros realizada com o camarada Pierre Lambert que contribuiu decididamente para ajudar nas iniciativas da Internacional Revolucionária da Juventude (IRJ), que a Juventude Revolução participava. Articulando o combate dos jovens trabalhadores e estudantes em escala global, integrou a Corrente O Trabalho do PT, seção brasileira da 4ª Internacional, pautando sua atuação pela independência política da classe operária e pela revolução socialista.

Jovem operário, líder sindical
Operário da multinacional Nestlé, Anderson transpunha a teoria revolucionária para a prática do chão de fábrica. Eleito e reeleito presidente do Sintrafrio, além de integrar a direção da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Alimentação (CONTAC-CUT), liderou batalhas decisivas contra os abusos do patronato.
Foi sob sua liderança, os trabalhadores da Nestlé impuseram forte resistência ao banco de horas e a outras formas de flexibilização. Expandiu a organização sindical fábrica por fábrica pela Baixada Fluminense, incomodando setores acostumados ao peleguismo e ao jugo patronal.
O bárbaro assassinato, executado por homens armados que dispararam à queima-roupa, expôs o descaso do Estado: seu corpo ficou abandonado por cerca de oito horas na via pública, a poucos metros de uma delegacia de polícia. Diante da barbaridade deste crime, uma edição especial do Jornal O Trabalho de quatro páginas foi imediatamente produzida e distribuída nacionalmente, transformando-se em uma ferramenta de agitação de uma campanha de denúncia do assassinato e de exigência de punição aos culpados dirigida inicialmente ao governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.
Comitê de apuração
Entretanto, as investigações oficiais tomaram o caminho do esquecimento: as autoridades policiais e a justiça do Rio de Janeiro buscaram de todas as formas enrolar as investigações. O Comitê pela Apuração do Assassinato de Anderson Luís junto com a CUT-RJ buscou, com a ajuda de alguns parlamentares, exigir uma apuração rigorosa, tendo organizado delegações à Secretaria de Segurança Pública fluminense e inclusive ao governador, que recebeu dirigentes nacionais e estaduais da CUT e parlamentares no Palácio das Laranjeiras.
Apesar de promessas, as autoridades estaduais mantiveram o caso engavetado. O que levou à organização de uma delegação a Brasília, com dirigentes da CUT nacional e membros do comitê, para pedir a federalização da apuração do assassinato de Anderson Luís. Ela foi recebida pelo então ministro da Justiça do segundo governo Lula, Tarso Genro e pelo diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda. Eles explicaram que a polícia federal só poderia interferir no caso por solicitação expressa do governo estadual do Rio de Janeiro. Mas, interpelado pela campanha, o governador Sérgio Cabral negou consecutivamente a federalização do inquérito, enterrando as buscas e selando a impunidade dos assassinos e mandantes do crime.
O assassinato de Anderson revela a engrenagem oculta do poder local contra a organização operária. No livro “Plantados no Chão”, a jornalista Natália Viana investigou o padrão de execuções de lideranças sociais no Brasil e assinalou sobre o quadro geral dessas apurações:
“As investigações policiais sobre crimes no campo e no movimento sindical sofrem de uma desídia crônica. A impunidade não é uma falha fortuita do sistema, mas parte de sua estrutura.”
A autora enfatiza a responsabilidade dos poderes públicos e das forças locais:
“Quando um dirigente operário ou camponês é tomba, o Estado mata duas vezes: primeiro pela ausência da proteção, e depois pelo silêncio sepulcral de seus inquéritos, que intencionalmente não chegam a lugar nenhum.”

Transcorridos 20 anos, a ausência de respostas confirma que a justiça dos patrões não serve aos trabalhadores, como muitos milhões sabem bem nas periferias. Isso mostra que a luta por uma reforma radical no sistema judiciário, por uma Assembleia Constituinte Soberana, é fundamental. É preciso dar a palavra ao povo, passar o país a limpo e enfrentar todos os podres poderes no país.
Relembrar Anderson Luís nos 50 anos da corrente O Trabalho é compromisso de manter viva sua militância e seguir na luta contra o capitalismo e seu abismo de barbárie. Camarada Anderson Luís, presente!
Alexandre Linares

