Automação e revolução

Pierre Lambert •

O lugar da automação na evolução técnica do capitalismo

A introdução da automação obriga os marxistas a escrever um capítulo suplementar ao Livro 1 do “Capital”, que viria a se juntar ao que Marx escreveu ele mesmo a respeito da cooperação, da manufatura, do maquinismo e da grande indústria. Porque a automação constitui a última etapa no longo processo de desenvolvimento da técnica comandado pela revolução capitalista e da qual é preciso começar por relembrar as etapas principais.

Depois de ter reunido os artesãos sob um mesmo teto para fazê-los trabalhar lado a lado, sem modificar sua forma de produzir (cooperação simples), o capitalismo promoveu a redução do trabalho de cada operário à execução de uma única e limitada tarefa. Esse foi o papel da manufatura, que preparou a via à mecanização, reduzindo os artesãos, antes aptos à produção completa de um objeto complexo, a nada mais que participantes de uma etapa da produção. Na fase seguinte, assistimos à progressiva substituição do homem pela máquina, o que encontra sua mais alta expressão na automação.

Na base da grande indústria encontra-se a máquina-ferramenta, que se define, segundo Marx, “como um mecanismo que, tendo recebido o movimento conveniente, executa com seus instrumentos as mesmas operações que o trabalhador executava antes com instrumentos análogos.

Numa fábrica moderna, a cooperação pela divisão do trabalho, que caracteriza a manufatura, reaparece como uma combinação de máquinas que realizam operações parciais, com o objeto do trabalho percorrendo sucessivamente uma série de operações executadas por uma cadeia de máquinas-ferramentas diferentes”.

Essa é a primeira descrição científica da cadeia de produção, destinada a conhecer seu pleno desenvolvimento no século 20. Aqui, o operário aparece como estando, daí em diante, subordinado à máquina: “A especialidade que consistia em manusear durante toda a vida uma ferramenta de uma parte parcial da produção torna-se a especialidade de servir a vida inteira a uma máquina que realiza tarefas parciais da produção. O operário deve se dobrar às exigências da máquina, seguir o movimento e o ritmo de um autômato que se ergue como força independente diante dele e que encontra na fraqueza do corpo e na força de vontade de seus auxiliares humanos uma barreira natural que o capital não deixa nunca de tentar ultrapassar. É o que está em vias de ocorrer por meio da introdução das máquinas eletrônicas no funcionamento das cadeias de produção, pois tais máquinas permitem a substituição de operários que serviam às máquinas-ferramentas por servomecanismos (22) capazes de realizar, em seu lugar, gestos que constituíam o conteúdo essencial de sua tarefa. Em sua essência, a automação consiste em fazer executar uma operação determinada por uma máquina previamente regulada ou programada que corrige, ela própria, os erros de funcionamento. Uma máquina automatizada, portanto, é capaz de armazenar informações, interpretá-las, deduzir instruções e assegurar a execução.

Essa evolução técnica se insere, ela própria, no quadro do processo contraditório de desenvolvimento capitalista. A automação apresenta para a burguesia problemas que ela não pode resolver, porque ela vai colocar brutalmente a nu as contradições do sistema social atual, sabotando as bases da mais-valia e se chocando com os limites de um mercado mundial exíguo.

Verificação da constatação revolucionária do programa da 4a Internacional, as forças produtivas vão despedaçar o quadro da propriedade. A incapacidade do capitalismo de se subordinar ao desenvolvimento da técnica no quadro de seu próprio sistema é o fundamento objetivo da perspectiva da revolução proletária.

Limitemo-nos a indicar as maneiras pelas quais essa técnica potencialmente progressiva apresenta-se hoje como um arma de guerra nas mãos da burguesia.

A desqualificação profissional e o desemprego permanente

A introdução da automação traz consigo, de início, a ameaça precisa do pior tipo de desemprego que um operário pode conhecer, que está ligado à desqualificação. O que está em questão, aqui, com efeito, não é o desemprego ligado às crises periódicas do capitalismo, mas aquele que nasce da desaparição pura e simples da especialidade aprendida pelo operário na época de sua formação profissional.

Um relatório recente da OCDE resume a experiência estadunidense observando que a automação golpeia inicialmente os operários pertencentes às camadas médias e inferiores da escala contratual, pois são as tarefas mais simples, ligadas à produção de massa, que são as mais fáceis de automatizar e que oferecem as melhores perspectivas de rebaixamento de custos”.

Para fornecer uma ordem de grandeza sobre a amplitude do fenômeno, citemos um relatório da ONU que estimava que, na indústria do petróleo, 12 trabalhadores eram suficientes para fazer funcionar uma refinaria média que, antes da automação, empregava 800. Na indústria automobilística estadunidense, a automação permite a 200 operários produzirem diariamente 4 mil veículos, enquanto os processos clássicos exigiriam, ainda hoje, 1.800. Mas a automação não limita seus efeitos a essas categorias de trabalhadores. O estudo que publicamos demonstra que todas as categorias, incluindo os operários mais qualificados, e inclusive a parcela inferior dos quadros gerenciais, são empurrados para o processo de desqualificação.

As consequências da automação

Será um erro estimar que os efeitos da automação limitem-se unicamente a uma certa categoria de trabalho, o trabalho industrial. De fato, todas as categorias de empregados – trabalhadores manuais, trabalhadores de escritórios, funcionários públicos, técnicos e administradores, altos quadros – são diretamente afetados.

Em um estudo publicado pela revista da embaixada dos Estados Unidos na França, “Informações e Documentos” (15 de novembro de 1964), as conseqüências do estabelecimentoda automação estão presentes em toda uma série de profissões:

O inimigo dos tipógrafos é o aparelho eletrônico que aciona o teclado das máquinas impressoras modernas. Esse aparelho pode reduzir em dois terços o efetivo de um ateliê de impressão.

Nos Estados Unidos, foram contados, no início de 1964, 17 mil locais com computadores, sendo que o governo utilizava 1.250 em seus trabalhos. Resultado:

A administração dos antigos combatentes dos Estados Unidos recorreu a máquinas de calcular com o único fim de eliminar 14.000 de seus 17.000 funcionários.

Uma companhia de transportes aéreos dotou seus escritórios de um sistema único de computadores para monitorar o estado do tráfego, registrar os lugares dos passageiros e até lembrar aos empregados mais distraídos de confirmar o número de telefone de seus clientes.

No telecentro das fábricas Westinghouse, dois computadores Univag controlam 360 escritórios, fábricas e entrepostos, preparam as faturas e asseguram, eles próprios, a contabilidade; esses dois computadores repassam os pedidos e controlam automaticamente os estoques, dando as ordens às fábricas da companhia. Minuto por minuto, a memória eletrônica controla toda a marcha da empresa.

O computador eletrônico, por meio de um procedimento dito de simulação, assumiu não somente o trabalho dos trabalhadores e empregados qualificados, mas igualmente o dos técnicos e quadros administrativos.

Em vez de construir fábricas-piloto, elas são simplesmente simuladas por um computador. A metalúrgica Jones e Lang simula o funcionamento de um novo alto-forno para estimar o seu comportamento; 30 horas de funcionamento podem ser simuladas pelo computador em 30 segundos.

Não podendo citar os numerosos exemplos publicados neste estudo, contentamo-nos em assinalar a constatação das evidências a respeito.

Fica cada vez mais evidente que a automação não afeta somente a maioria trabalhadora não qualificada ou semi-qualificada. De fato, ela já está se introduzindo nos setores mais elevados da hierarquia do trabalho e do comércio.”

John Snyder, presidente da US Industry Inc., um dos pioneiros da automação, construtor de computadores e robôs industriais, não hesita em afirmar:

É inteiramente possível que chegue um dia em que as máquinas farão um pouco de tudo e produzirão a quase totalidade das mercadorias e serviços, incluindo a tomada de decisões.”

Mas, na hierarquia do trabalho, os que são chamados a tomar as “decisões” são os quadros em todos os escalões, o que abre a perspectiva – desde já em andamento – de desqualificação dos quadros.

Os bajuladores interessados do neocapitalismo, que se multiplicam em todos os setores de opinião à “direita” e à “esquerda”, como o professor da Sorbonne Raymond Aron (23) – que sabe o que fala – e os ignorantes não menos interessados do tipo de Mallet (24) do PSU (25), nos profetizam que o capitalismo, havendo superado suas contradições, levou a cauducar os ensinamentos de Marx. Não está evidente que o “proletariado” tende a desaparecer, em benefício de uma ascensão na hierarquia social dos proletários de colarinho branco? Qual será o futuro dos trabalhadores do “setor terciário”?

De fato, a automação começa a produzir seus efeitos sobre o grupo dos ‘colarinhos brancos’. Ela não parece poupar quem quer que seja. Pode-se pensar, não sem otimismo, que o setor de serviços sempre em expansão absorverá o excedente da mão-de-obra. Mas é necessário levar em conta a expansão rápida, sempre pronta a preencher as inumeráveis funções confiadas a cada setor da distribuição… Há algum tempo, o Macy´s, maior magazine de Nova York, experimentou uma máquina que vendia 37 roupas diferentes, apresentadas cada uma em 10 tamanhos. A máquina aceitava pagamentos por cartões de banco ou dinheiro e devolvia o troco, não sem revelar as tentativas de fraudes.

Nenhum setor do trabalho está ao abrigo das conseqüências nefastas da automação, enquanto essa etapa sensacional da técnica ficar sob o controle do capital. Serão atingidos tanto os operários industriais quanto os funcionários de escritório, os servidores públicos e os trabalhadores dos correios e das ferrovias.

Um computador da General Eletric em construção permite aos trens circular a 130 quilômetros por hora em intervalos não superiores a 90 segundos. O computador permite movimentar, controlar as distâncias e pôr em funcionamento todas as funções de controle.”

Todas as categorias de trabalho, operários não qualificados, operários qualificados ou técnicos, engenheiros, gerentes, empregados em todos os níveis sofrerão os efeitos da automação se, repetimos, a aplicação dos procedimentos da técnica mais moderna continuar à disposição do capital.

Refuto o mito, declarou John Snyder, segundo o qual as vítimas da automação podem ser requalificadas e encontrar um novo emprego que exija melhor formação, com melhor remuneração. Muitos trabalhadores não podem ser requalificados por causa de sua idade ou mesmo de suas deformações profissionais. Além do mais, não se pode requalificar pessoas contra a sua vontade, como não se podem criar empregos por um passe de mágica.

E a conclusão surge brutalmente, clara, atirada sobre a cabeça dos trabalhadores de todas as categorias, da juventude trabalhadora e intelectual.

Seria necessário criar, de hoje até 1970, 36,5 milhões de novos empregos: o crescimento demográfico produzirá 12,5 milhões de jovens para o trabalho, enquanto o aumento da produtividade do trabalhador eliminará, principalmente por causa da automação, 24 milhões de empregos.”

Essa estima foi feita considerando o nível que a automação havia atingido em 1964. Mas a implantação da automação não parou. Os computadores são atualmente alugados. Até o ano de 1955-1956, um computador clássico era alugado por 20 mil a 30 mil dólares ao mês (ou seja, de 10 a 15 milhões de francos antigos). Atualmente (1964), um computador é alugado por 2 mil a 3 mil dólares por mês (ou seja, de 1 a 1,5 milhão de francos antigos) . Em 1966-1967, a locação mensal no mercado de computadores não vai passar de 150 a 350 dólares (75 mil a 175 mil francos). As necessidades da concorrência conduzirão inexoravelmente ao uso de computadores.

A juventude, primeira vítima

O estudo que editamos, relativo aos efeitos da automação nas indústrias Renault, seria suficiente para provar que esse sistema não é especificamente estadunidense. De forma limitada, mas não menos real, o que se desenvolve na fortaleza do imperialismo mundial, centro da “civilização capitalista”, os Estados Unidos, permite revelar mais claramente, junto às demais nações capitalistas, tendências que já não podem mais ser ocultadas. Um estudo consagrado ao desemprego dos jovens foi publicado pela revista do grande banco estadunidense First National City Bank of New York (janeiro, 1965). Constatando que a taxa de desemprego da população ativa variou entre 5,4% no primeiro semestre e 5% no segundo, o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, em discurso pronunciado diante do “Business Council” (dezembro, 1964), assinalou:

A taxa de desemprego dos jovens entre 13 e 19 anos é quase três vezes mais elevada, 14,5%. Para os jovens que não são de raça branca, essa taxa atinge um nível quase inacreditável, próximo dos 30%!

Essa taxa “inacreditável” de desemprego dos jovens sofrerá aceleração ano após ano. Os magnatas dos bancos buscam explicar o fato:

Deixando de lado a questão de se o desejo de trabalhar e o estímulo pelo trabalho são ou não satisfatórios, resta o fato de que parcela significativa de desempregados possui uma formação profissional muito deficiente e que não sabem ler e escrever o suficiente para que os empregadores aceitem incluí-los em suas folhas de pagamento.

Toda a filosofia do patronato está aqui concentrada: “deixando de lado” a concepção do patrão estadunidense (ou francês) de que o desempregado é sempre um “vagabundo”, é preciso admitir que as condições do trabalho desqualificado estão criando, nos países mais civilizados, um novo “analfabetismo”. De fato, nos Estados Unidos, a taxa de jovens quase-iletrados que, após deixarem a escola primária, chegam aos 25-30 anos sem jamais terem conseguido um emprego, cresce consideravelmente. Uma escolaridade adaptada que assegure a formação de operários qualificados torna-se indispensável. O exército de reserva de desempregados quase permanentes, a massa de subqualificados, exige “conhecimentos” quase nulos. É necessário saber ler e escrever quando o computador é capaz de resolver todos os problemas? Mas a persistência de um desemprego permanente e parcial da ordem de alguns milhões de trabalhadores, no entanto, gera consideráveis problemas sociais. Esses milhões de jovens sem emprego escondem um potencial de revolta do qual a burguesia tem plena consciência. Os magnatas do capital, no entanto, encontraram uma solução. Qual? A revista bancária nos mostra:

No contexto da ‘campanha contra a miséria’, centros de formação profissional para jovens desempregados organizam-se em instalações militares e deles participa um certo número de chefes de grandes empresas. Outros centros de jovens estão ainda sendo criados nas principais cidades, a fim de complementarem a formação profissional, oferecendo oportunidades de trabalho em tempo parcial.

Na aurora do capitalismo, no período chamado de acumulação primitiva, visando dispor de uma massa de mão-de-obra barata, a burguesia confinava os trabalhadores em “workhouses” (“casas de trabalho”). Condenados a um verdadeiro trabalho forçado em troca de um pedaço de pão, os trabalhadores preferiam qualquer coisa a ter que permanecer nesses campos de trabalhos forçados. “Qualquer coisa” significa dizer que aceitavam, em troca de baixos salários, sem garantias nem direitos, vender “livremente” sua força de trabalho aos patrões! Os trabalhadores lutaram, conquistaram direitos, garantias, a jornada de trabalho de 8 horas diárias. Em todos os países, foram centenas, milhares de combatentes operários, intelectuais, jovens operários e estudantes a caírem nas frentes da luta de classes. Nessas batalhas, os proletários e as camadas de intelectuais que se colocaram a serviço do proletariado fizerem progredir a cultura e a civilização.

Hoje, o capitalismo decadente, no impasse, deixa como única saída aos jovens os “campos de trabalho” que permitem aos patrões dispor de uma mão-de-obra barata.

Vale ressaltar”, escreve-se nesse estudo, “que, apesar do inchaço recente das folhas de pagamento nas indústrias de transformação, o nível de emprego para os trabalhadores produtivos está bem abaixo dos níveis existentes por volta de 1955. Os sindicatos operários fortemente organizados conseguiram um aumento contínuo de salários e vantagens suplementares. Obrigaram, portanto, os dirigentes das indústrias a aumentarem a automação a fim de contrabalançar os pesados encargos sociais.

A direção geral do escritório central da Previdência Social da região parisiense confirma completamente que “o objetivo da automação é reduzir o custo de produção.”

“Reduzir o custo de produção” significa diminuir a fração do capital embutida nos salários para aumentar a mais-valia, a taxa de exploração do trabalho. Diminuir a fração do capital embutida nos salários para aumentar a produtividade e o rendimento, lançando no desemprego os jovens e os trabalhadores “excedentes”: esse é o programa do capital em todos os países.

Desde já, compreendemos que, para a burguesia e seu Estado, a cultura e o ensino devem ser desvalorizados. Para disciplinar a juventude e enviá-la aos campos de reeducação sob controle dos militares e dos chefes de empresa, a educação dos jovens poderá ficar a cargo dos computadores.

Esse computador, o Class, já foi construído nos Estados Unidos:

Ele permitirá acelerar o processo de educação e remediar a falta de educadores. Esse computador ocupa-se individualmente de cada aluno. Fornece-lhe todo o conhecimento necessário, questiona, registra suas respostas e o conduz, passo-a-passo, em seu próprio ritmo, pelo programa completo. O Class faz, inclusive, um relatório detalhado do comportamento do ‘aluno’.

O motor da produção em regime capitalista é o lucro obtido com a venda das mercadorias no mercado. Os capitalistas, em concorrência entre eles, esforçam-se por ampliar sua posição no mercado. Tudo se resume à exploração do trabalho, ou seja, ao crescimento da mais-valia, fonte dos investimentos e do lucro. Os investimentos de capitais são direcionados aos países com baixos salários. Mas o sistema de relações sociais nos países subdesenvolvidos, nos quais a imensa maioria da população é submetida a um tipo de relação de caráter semi-servil, não permite o surgimento de um poder de compra capaz de absorver um volume de mercadorias e de capitais em crescimento contínuo nos países imperialistas. Isso explica porque assistimos, em detrimento da multiplicidade de conferências e discursos consagrados a ajudar aos países subdesenvolvidos, os capitais serem, cada vez mais, direcionados para os países capitalistas desenvolvidos.

Mas esse fenômeno também é visível no interior de um país capitalista desenvolvido. O investimento de capitais visando ao lucro pressupõe a busca por baixos salários. Não existe outra explicação para o mecanismo de transferência de empresas das regiões industriais com forte concentração operária para as regiões ditas sub-equipadas, nas quais a mão-de-obra é mais barata. Direcionar os trabalhadores para regiões com baixos salários, eis o objetivo velado, por exemplo, do 5º Plano na França, que pretende assegurar, voluntariamente ou à força, uma mobilidade da mão-de-obra. Voluntariamente, ou através de coação, como no caso dos mineiros de Decazeville – onde as minas foram fechadas –, dos metalúrgicos de Forges e dos artesãos do Mediterrâneo, levados a abandonarem suas casas, hábitos e salários para fazer parte dessa massa de mão-de-obra móvel, que aceitando qualquer coisa em troca de um pedaço de pão: o processo está em marcha.

Pela força, a juventude será confinada em “campos de trabalho e de reeducação” organizados pelo Ministério da Juventude, sob o comando dos CRS e dos militares.

Num relatório endereçado ao presidente Kennedy, em 1962, a Comissão Consultiva das Relações Patrão-Assalariados destaca que a automação “exige a mobilidade da mão-de-obra, mas essa fica prejudicada pela rejeição em deixar a residência, muito embora as relações pessoais, o trabalho de alguns membros da família, os custos da mudança, as perdas eventuais e a insegurança numa nova localidade sejam de fato o motivo para isso(“Problemas Econômicos”, 30 de outubro de 1962).

Para o patronato, os jovens, assim como para o Shylock de Shakespeare, são um objeto de cobiça: “Tendo pouca responsabilidade, escreve a revista bancária, e sentindo-se menos vinculados ao lar ou a um emprego de longa data, os jovens podem fornecer à população ativa essa mobilidade e essa adaptabilidade tão necessárias”.

O caráter de classe da automação

Não há dúvidas de que o cérebro eletrônico, pelas funções que lhe são e serão confiadas, é infinitamente mais eficaz e eficiente do que o cérebro humano. A automação é a prova viva de que o gênio humano, ao realizar seu controle sobre todas as forças da técnica, fruto de seu trabalho, permite liberar o homem das pressões econômicas e sociais e, dessa forma, dominar a natureza e sua própria natureza social. O espírito fica confuso diante de tudo o que a era do progresso, iniciada com a introdução do trabalho inteiramente automatizado, pode ocultar. A liberação/libertação do homem da servidão da exploração, as possibilidades extraordinárias de desenvolvimento cultural e o avanço da civilização aparecem como realidades bem próximas.

Mas os processos do trabalho automatizado estão atualmente sob controle do capital. As conseqüências da automação para os trabalhadores são apontadas num relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento). Operários, técnicos e gerentes levaram uma vida para adquirir uma especialização. Agora, encontrarão muita dificuldade para se adaptar às modificações brutais do mercado de trabalho e serão reduzidos a uma vida miserável. Seus filhos também serão duramente afetados. A automação destruiu as antigas especialidades. É possível que uma pequena minoria de analistas, de programadores e de técnicos em eletrônica vejam sua condição melhorar, mas a oprimida maioria dos trabalhadores de todas categorias assistirão sua sorte se deteriorar e o futuro se fechar.

As máquinas eletrônicas poderiam livrar mestres e alunos do trabalho necessário à assimilação dos hoje indispensáveis conhecimentos de base, permitindo o florescimento da época da verdadeira cultura total. Mas, nas mãos do capital, o ensino automatizado será usado para segmentar ainda mais o conhecimento e ensinar ao trabalhador apenas aqueles movimentos indispensáveis à produção das mercadorias, ou seja, à obtenção do lucro.

O surgimento da automação deve introduzir profundas modificações na organização do trabalho e nas relações que se estabelecem, na indústria, entre o capital e o operário. A indústria automatizada não pode tolerar conflitos trabalhistas, pois qualquer interrupção na produção acarreta imediatamente consideráveis perdas para o capital. Se este se encontra aparentemente numa situação bastante vulnerável, visto que uma greve de um pequeno grupo de homens é suficiente para imobilizar tudo, a própria natureza da produção lhe oferece uma série de vantagens para criar a disciplina totalitária indispensável ao bom funcionamento da indústria. Não se encontra mais diante de uma vasta concentração operária; necessita apenas de um número mais reduzido de operários desqualificados, trabalhando de maneira isolada, em condições psicológicas e mentais extremamente penosas. A automação deu um novo passo rumo à degradação do trabalho. O trabalhador tem apenas que monitorar alguns botões e monitores sobre uma placa luminosa. Esse trabalho é realizado em salas de controle isoladas e demanda uma tensão nervosa extrema, que provoca no operário “uma debilidade intelectual e psíquica, uma irritabilidade, bem como outros distúrbios funcionais análogos” (relatório OCDE). Por meio da máquina eletrônica, a dominação do capital exerce sobre o operário uma pressão de poder extremo.

Introdução da automação na França

O estudo que publicamos sobre a implantação da automação nas indústrias Renault demonstra que os novos processos de trabalho, largamente utilizados nos Estados Unidos, já estão sendo adotados na França. Os organismos da classe operária, CGT, CGT-FO, FEN (26), PCF e SFIO (27), guardam um prudente silêncio sobre esse conjunto de problemas. Não se trata do acaso. Partidários da colaboração entre as classes (coexistência pacífica), os organismos dirigentes sabem que as necessidades da concorrência internacional exigem a introdução de processos produtivos automatizados na França. Isso explica porque a CGT, CGT-FO, CFDT e FEN não dão nenhuma informação sobre essas questões vitais. A prestação de contas de uma conferência foi publicada pelo periódico “Nova Fábrica” (“Usine Nouvelle”), órgão de grandes trustes da metalurgia. Hallopeau, vice-presidente da Federação Nacional das Indústrias Eletrônicas (patronal), declarou:

A utilização da automação é, no contexto da concorrência, uma necessidade vital de sobrevivência. As operações suscetíveis de serem automatizadas cobrem todo o processo de trabalho: concepção, administração, produção, pesquisa científica, consumo, medicina, vôos espaciais, distribuição. O único produto que a automação substitui é o trabalho humano.

Hallopeau confirma inteiramente as deduções a que chegou John Snyder:

Os otimistas facilmente comparam esse fenômeno (a automação) à revolução industrial, afirma Snyder, mas é um erro. Em última análise, essa revolução (do século passado)gerava empregos, enquanto que a nova tecnologia torna obsoletas não apenas nossas máquinas clássicas, mas também os homens ditos ‘modernos’. Atualmente, usamos máquinas tão sofisticadas que chegam a suprimir os empregos.”

Uma série de oradores dirigentes do patronato francês tomou a palavra naquela conferência. Os senhores Chalvet, alto funcionário, e Dupont de Saint-Cyr, representante do banco Crédit Lyonnais, fazem suas conclusões no mesmo sentido:

Estamos todos condenados à automação, e essa condenação é definitiva…”

O balanço da automação é positivo, apesar da magnitude dos investimentos que se registram no passivo desse tipo de operação…”

Dela resulta uma ‘economia’ de gestão da ordem de 25%. Em dois anos, os custos gerados com a implantação da automação são amortizados e a produtividade é imediatamente duplicada.

À luz de quatro estudos feitos – na Inglaterra, em uma empresa de médio porte da indústria alimentícia; na França, em um dos quatro bancos estatais de depósitos (28) (não há indicação de qual banco se trata); na Suécia, em um grupo de companhias de seguros; e, na Alemanha, num determinado número de firmas dos setores industriais e comerciais –, a OCDE publicou recentemente um longo relatório sobre as conseqüências administrativas e humanas da automação do trabalho burocrático. Alguns ensinamentos (já obsoletos) dessa pesquisa realizada com base em dados de 1963 foram publicados pelo boletim Sicob (21 de outubro de 1965). Lê-se:

No grande banco francês a que nos referimos, a situação do emprego permanece incerta. Houve uma pequena redução de pessoal nos setores nos quais as atividades passaram a ser feitas por computador, e são esperadas novas e mais importantes reduções.

Um elemento importante precisa ser assinalado. Na primeira etapa da implementação da automação, a antiga estrutura de produção foi mantida. Percebe-se um momentâneo crescimento da mão-de-obra, mas o estudo aponta:

Não saberíamos afirmar com certeza se essa situação persistirá ou não. Por exemplo, com o desenvolvimento de sistemas de computadores ‘integrados’, cada vez mais os dados originais gerados serão registrados em cartões ou fitas magnéticas(29), eliminando-se, dessa forma, grande parte do trabalho administrativo corrente. Da mesma maneira, parece que um dos progressos técnicos mais prováveis de acontecer na atualidade seja uma melhoria nos processos de introdução de dados, de tal forma que, em grande medida, a perfuração e outros trabalhos preparatórios possam ser descartados.

Dessa forma, caem por terra as assertivas dos “sociólogos” de diversas tendências que tentam acalentar ilusões nas massas. Ninguém pode negar que a automação traz o desemprego como conseqüência. E, desde já, ela vem gerando a desqualificação.

Os estudos mencionados aqui permitem pensar, afirma o boletim Sicob, e as constatações feitas na França e na Suécia comprovam, que os computadores aceleram essa tendência. O trabalho administrativo já vem sendo cada vez mais simplificado, normalizado, organizado. Os empregados executam, em proporção crescente, cada vez mais trabalhos semi-qualificados(essa tendência à desqualificação acelera-se consideravelmente com a automação). Sem dúvida, surgiram novos tipos de qualificação incluindo técnicos em computadores, programadores e operadores, mas o número é relativamente reduzido e, como mostram os números do estudo francês, sua aparição não se iguala de maneira alguma à diminuição em outros segmentos no volume de empregados qualificados. (É possível prever) que o escritório completamente automatizado agrupe uma proporção amplamente majoritária de trabalhadores não qualificados.”

Essas observações, deduzidas de uma pesquisa feita num grande banco francês, confirmam inteiramente os resultados do estudo sobre as conseqüências da automação nas indústrias Renault.

Não é, de forma alguma, por acaso, que seja ao redor da questão da integração dos sindicatos ao Estado que ocorrem hoje e ocorrerão amanhã os principais combates entre a burguesia e a classe operária. Se olharmos mais de perto, veremos que, de fato, é por necessidadeque a burguesia se viu obrigada a colocar esse problema na ordem do dia da luta política. Essa necessidade não nasceu somente em virtude do acirramento da concorrência interimperialista no mercado mundial, mas também da naturezaparticular das mudanças técnicas que vão caracterizar de maneira crescente a fase atual do capitalismo em decomposição.

Tanto em virtude dos sobressaltos econômicos e sociais – que a implantação dessas novas técnicas quase obrigatoriamente provocam –, quanto pelas modificações que o seu funcinamento normal acarretam na natureza das relações de trabalho nas fábricas, essas mudanças técnicas – conhecidas sob o nome genérico de automação – exigem a absoluta submissão da classe operária. Antes de tentar introduzir a automação em grande escala, a burguesia precisa se assegurar, previamente, de ter as mãos livres, livres para solucionar sem a intervenção da classe operária as numerosas dificuldades que irão surgir da aplicação de técnicas que significam a desqualificação de milhões de operários, servidores públicos, técnicos e gerentes, e que abrem até mesmo a perspectiva de desemprego permanente para numerosos dentre eles; mãos livres para impor aos que conservarão um emprego uma disciplina de ferro, equivalente a uma quase servidão.

Estas observações esclarecem, desde já, a disputa decisiva do período que se abre. Tanto é necessário para a burguesia submeter a classe operária, desagregando suas organizações, seus direitos, suas garantias e suas liberdades arrancadas por uma luta de classes secular, quanto é necessário para a classe operária defender-se custe o que custar. Essa é a condição para ela evitar ser rebaixada ao status de ser social pauperizado, sem direitos nem liberdades, sofrendo sem meios de organizar a resistência ao jugo do capital. O que está em jogo é o direito a viver, é o direito ao trabalho, é o direito ao ensino, é o direito à cultura.

Coloca-se uma última questão, já sublinhada neste prefácio. Por que os aparelhos burocráticos recusam-se não somente a mobilizar os trabalhadores, mas, simplesmente, a dar-lhes conhecimento, ainda que seja desse estudo a respeito da implantação da automação nas fábricas Renault que nós publicamos? Esta brochura circulou na fábrica. Ela é conhecida por toda uma série de dirigentes sindicais do mais alto nível das federações e confederações. A despeito dos enormes meios de propaganda (jornais, panfletos) dos quais as federações e confederações dispõem, nem a CGT, nem a CGT-FO, tal como a FEN e a CFDT, fizeram a menor alusão a esse estudo. Os documentos reunidos neste prefácio permitem dar uma resposta.

O capitalismo francês só pode tentar resistir a seus rivais mais poderosos por meio da introdução da automação. A automação implica na reestruturação completa das formas tradicionais da economia capitalista. Ela induz à concentração, ao fechamento das empresas não-rentáveis. Ela exige que sejam assegurados a deportação de mão-de-obra (batizada de “mobilidade”), a desqualificação e a reconstituição do exército de reserva de desempregados permanentes. Abaixar o preço da remuneração, quer dizer, diminuir a fração do capital empregada para pagar os salários, visando a fazer crescer a mais-valia, fonte dos investimentos, tal é o seu objetivo.

Mas o capital e seu Estado só podem tentar colocar em prática a automação se os dispositivos do 5º Plano (30) forem impostos. E só será possível ao capital e seu estado ter a expectativa de atingir os objetivos do 5º Plano se as relações de trabalho entre o capital e o proletariado (e a juventude) forem reestruturadas. A reforma Fouchet (31) e a reforma adminsitrativa, os conselhos e comissões do Plano, os comitês de desenvolvimento regional (Coder) (32) e o comitê do distrito parisiense, a reforma nos comitês de empresa, os comitês e comissões de estudo de remuneração integram essa reestruturação das relações de trabalho rumo a um modelo policial. Amanhã, o futuro Senado corporativista (33) que De Gaulle quer organizar coroará o edifício social no qual o Estado e seus representantes, ministros e prefeitos, decidirão todas as medidas de superexploração necessárias ao capital. Os dirigentes sindicais de todos os escalões dessa “mobilização da nação”, para utilizar uma expressão cara aos dirigentes da CFDT, serão encarregados de impor aos trabalhadores a lei policial do lucro.

A reposta à questão que colocamos decorre então logicamente da política dos aparelhos que participam de todos os organismos instituídos por De Gaulle (planos Coder, distrito, reforma Fouchet etc.) e se recusam a questionar uma orientação que está de acordo com os interesses do captial A existência de organizações independentes do Estado e a existência de direitos, garantias e liberdades arrancadas pela luta de classes são atualmente incompatíveis com a sobrevivência do regime capitalista. A burguesia pretende liquidar as conquistas do proletariado e integrar ao Estado os sindicatos e as organizações operárias.

Os aparelhos facilitam, com a política de participação e a tática de lutas isoladas, a desagregação da classe operária, condição indispensável à aplicação do 5º Plano. Os dirigentes da CGT-FO e da FEN, que ligaram seu destino à renovação da sociedade burguesa, mostram-se totalmente impotentes para abrir uma verdadeira perscpectiva de luta contra a “decadência profissional”. É por isso que preferem anestesiar a classe operária, recusando a informá-la sobre as conseqüências da implantação da automação, em vez de preparar o combate.

Resta, portanto, naturalmente aos militantes a favor da “luta de classes”, aos marxistas, e à vanguarda agrupada ao redor da Organização Comunista Internacionalista (OCI, 4a Internacional) e de “Revoltas” (“Revoltes”) dar o alerta e fornecer uma primeira análise do significado social da nova tecnologia.

Paris, 1º de maio de 1966

(brochura editada por “Informations ouvrières” – “Informações Operárias”)

Traduzida no Brasil para a edição 60/61 da revista A Verdade.

NOTAS

1 – Organização Comunista internacionalista (OCI) pela Reconstrução da 4ª Internacional, organização cuja sucessora é a atual Corrente Comunista Internacionalista (CCI), seção francesa da 4ª Internacional, corrente do Partido dos Trabalhadores da França.

2 – Ernest Mandel, “La Crise” (1974-1978).

3 – “Lutte des classes et mondialisation” (“Luta de Classes e Globalização”), Selio, edição em francês. Ver em particular o capítulo intitulado“Retour sur 50 ans d’histoire mondiale: mythes et réalités des ‘30 glorieuses’ et des 20 années qui suivirent” (“Volta a 50 anos de história mundial: mitos e realidades dos ‘30 gloriosos’ e dos 20 que os seguiram”), in Etudes complémentaires.

4 – “A Verdade” n° 7, 1993.

5 – O discurso de Richard Nixon pode ser consultado (em francês) na internet no seguinte endereço: http://www.ena.lu/discours-richard-nixon-nouvelle-politique-economique-etats-unis-15-aout-1971-010002714.html

6 – Wall Street é a rua na qual fica a Bolsa de Valores de Nova York, a principal do mundo. Assim, faz-se referência ao fato de que o presidente dos EUA, cuja residência é a Casa Branca, é representante do mercado financeiro (NdT).

7 – O acordo de Yalta (cidade na Ucrânia), fechado em 11 de fevereiro de 1945, instaura uma divisão do planeta entre os grandes do mundo: Roosevelt (Estados Unidos), Stálin (URSS) e Churchill (Reino Unido). Ele é seguido pelo acordo de Potsdam (na Alemanha), no qual Harry Truman substitui Roosevelt, que acabara de morrer. O acordo de Potsdam consagra a supremacia absoluta das Estados Unidos na partilha do mundo. Foi durante a Conferência de Potsdam que Truman recebeu a notícia do sucesso total da primeira explosão experimental de um engenho atômico.

8 – Alusão à Guerra de Independência de Bangladesh, antes chamada de Paquistão Oriental, território atribuído pelo Império Britânico ao Paquistão por ocasião da sangrenta divisão da Índia, em 1947. Essa guerra de independência, que estava ainda em curso no momento da declaração da OCI (terminou em dezembro de 1971), fez centena de milhares de mortos do lado dos bengaleses.

9 – Os acordos de Bretton Woods fixaram as grandes linhas do sistema financeiro internacional do pós-guerra. Foram assinados em 22 de julho de 1944, no Mount Washington Hotel, em Bretton Woods, Estados Unidos, após três semanas de debates entre 730 delegados representando o conjunto das 44 nações aliadas. Ao final, esses acordos consagraram a supremacia absoluta do dólar nas relações comerciais e financeiras internacionais e foram criados dois organismos internacionais: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

10 – Onça troy é uma unidade de medida que equivale a 31,1 gramas (NdT).

11 – Política do Big Stick: literalmente, Política do Grande Porrete. Alusão ao governo de Teodore Roosevelt, no início do século 20 (NdT).

12 – Europa dos Seis: referência à Comunidade Econômica Européia (CEE) – precursora da União Européia –, que agrupava seis países: Alemanha Ocidental, França, Bélgica, Holanda, Itália e Luxemburgo (NdT).

13 – Georges Pompidou (1911-1974), ex-chefe de Gabinete do general De Gaulle e ex-diretor-geral do banco Rothschild, foi ministro de abril de 1962 a abril de 1969, data na qual o povo francês rejeitou maciçamente, por referendo, o projeto corporativista de regionalização. Foi presidente da República de 15 de junho de 1969 até sua morte, em 2 de abril de 1974.

Valery Giscard d’Estaing (nascido em 1926), diversas vezes ministro da Economia e das Finanças, foi presidente da República de maio de 1974 a 9 de maio de 1981, quando o povo francês votou majoritariamente para eleger François Mitterrand. É o redator do projeto da Constituição Européia, rejeitado por 54,67% dos franceses no referendo de 29 de maio de 2005.

14 – Edward Heath (1916-2005), conservador britânico, tornou-se primeiro-ministro em 1970. Após numerosas medidas antioperárias, os conflitos multiplicaram-se e a greve dos mineiros de 1972 levou à sua derrota, que veio se materializar em 1974 com a vitória dos trabalhistas nas eleições.

15 – Jacques Chaban-Delmas (1915-2000), general do Exército francês e ministro da Defesa durante os acontecimentos de 13 de maio de 1958 na Argélia. Primeiro-ministro de 1962 a 1972, lança o projeto corporativista chamado “Nova Sociedade”. Cede seu lugar de prefeito de Bordeaux a Alain Juppé em junho de 1995.

16 – Franco: moeda francesa (NdT).

17 – Dos nomes de Edgar Faure (1908-1988) e Olivier Ghichard (1920-2004), que foram respectivamente ministros da Educação e delegado do Plano de Organização do Governo de De Gaulle-Pompidou, de 1968 a 1969. A lei Faure, de 1968, introduziu notadamente a autonomização das universidades e a criação no seu seio de Conselhos de Administração, estrutura de participação na gestão. Guichard foi um dos idealizadores do projeto corporativista de regionalização rejeitado pelo povo francês no referendo de 1969.

18 – CET: Colégio de Ensino Técnico. Foram substituídos a partir de 1976 pelos LEPs (Colégios de Ensino Profissional)

19 – Raimond Marcellin (1914-2004) foi ministro do Interior de 31 maio de 1968 a 1974.

20 – Plano Rogers, do nome do secretário de Estado dos EUA na época, William Rogers (1913-2001). Esse plano, exigindo a retirada de Israel dos territórios ocupados após a chamada “Guerra dos Seis Dias” de 1967, legitima a existência de Israel e reduz a questão nacional palestina simplesmente à solução da questão dos refugiados. Ademais, significa o fim da presença armada dos palestinos nos territórios árabes. Isso fortalece o rei Hussein, da Jordânia, que lança, em particular em setembro de 1970, uma ofensiva (denominada Setembro Negro) contra o povo palestino, deixando milhares de mortos, mas sem vencer a resistência palestina.

21 – Ruhr: região de produção de carvão na Alemanha (NdT).

22 – Servomecanismo é um sistema que regula automaticamente o funcionamento de um dispositivo e lhe imprime variações de acordo com um programa previamente estabelecido. Os servo-mecanismos introduziram, portanto, a noção de programação (informática).

23 – Raymond Aron (1905 – 1983), filósofo, sociólogo e editorialista francês, membro do partido do general De Gaulle, influenciou principalmente a sociologia após 1945. Antimarxista convicto, negava a existência da luta de classes. Foi o principal articulador do Congresso pela Liberdade da Cultura (dissolvido em 1975), organismo financiado pelo imperialismo estadunidense, que por sua vez financiaria trabalhos sociológicos voltados essencialmente para o corporativismo (ver notadamente “Corporativismo contra a Democracia Política”, de Michel Eliard, Selio, 2007, em francês).

24 – Serge Mallet, sociólogo, antigo membro do PCF (Partido Comunista Francês), foi um dos dirigentes e teóricos do PSU (nota abaixo) nos primeiros anos. No início da década de 1960, desenvolveu teorias alardeando a emergência de “uma nova classe operária”, dos “operários de camisa branca” das novas indústrias (eletrônica, aeronáutica, informática nascente etc.) focados num trabalho mais intelectual e levados a suplantar, em razão do desenvolvimento da automação e das atividades de serviços, os trabalhadores manuais (qualificados ou não) dos setores industriais “tradicionais”. Segundo ele, seria preciso reconsiderar as formas de lutas sociais, pois essa nova classe operária, dotada de um padrão de vida mais elevado (ou seja, “aburguesada”), aspirava à participação na gestão da empresa.

25 – Partido Socialista Unificado (PSU): partido fundado em 1960, fruto de diferentes dissidências do PCF e da SFIO (ver nota 27) e de correntes “católicas sociais”, ao lado da criação da central sindical CFDT em 1964, herdeira declarada da central cristã CFTC. O ideal desse partido era a autogestão, forma “moderna” da doutrina social da Igreja, pregando a associação capital-trabalho e a preservação do “interesse comum” no seio das empresas. As principais correntes desse partido vão aderir ao PS entre 1971 e 1974. O PSU se auto-dissolverá em 1989.

26 – A Federação da Educação Nacional (FEN) era a federação que agrupava, até 1992, os sindicatos de todas as categorias de servidores da Educação nacional, professores ou não. Em 1947, quando houve uma cisão na CGT, a FEN decidiu manter sua unidade e sua autonomia (resolução Bonissel-Valiére, do Sindicato Nacional dos Educadores).

27 – A SFIO (seção francesa da Internacional Operária) era a seção francesa da 2ª Internacional Socialista, nascida em 1905, com a unificação do Partido Socialista da França, de Jules Guesde e Edouard Vaillant, e do Partido Socialista Francês, de Jean Jaurès. A SFIO se dissolveu em 1969 no atual Partido Socialista.

28 – Na época em que Pierre Lambert escreveu este texto, os quatro principais bancos de depósitos da França, a saber Société Générale, Crédit Lyonnais, Comptoir National d’Escompte de Paris e La Banque Nationale pour le Commerce et l’Industrie (os dois últimos fundiram-se em 1976 para formar o BNP) eram estatais desde 1945. Eles foram todos privatizados entre os anos 1980-1990.

29 – No momento em que Pierre Lambert escrevia, os principais armazenadores de dados eram os cartões perfurados e as fitas magnéticas. Mesmo se as fitas ainda são utilizadas (essencialmente para o arquivo e back-up das informações), novos meios de armazenagem surgiram a partir da década de 1970, como os discos rígidos, disquetes, CD-Rom, servidores, discos ópticos etc.

30 – O 5º Plano é um plano econômico aplicado de 1966 a 1970 pelo governo De Gaulle-Pompidou. Com relação aos precedentes (existentes desde 1946), esse plano marca uma etapa importante no desenvolvimento do corporativismo. Por um lado, incluía em sua elaboração o Parlamento, e em sua execução, as regiões. Por outro, buscava instituir uma “política de renda” que submetia os salários ao “crescimento da produtividade nacional”. Como isto era conduzido pelo Estado em função das necessidades gerais do capital financeiro, a “política de rendas” era a submissão de toda discussão e negociação salarial a esse objetivo.

31 – Christian Fouchet (1911-1974), nessa época ministro da Educação, tinha dirigido antes o comitê encarregado de estudar a união política européia, então chamada de “Plano Fouchet”. Trata-se de uma primeira tentativa de integração das instituições nacionais dos países membros da Comunidade Econômica Européia, antecessora da União Européia, no quadro de instituições políticas européias supranacionais, prevendo-se notadamente a criação de um Conselho Europeu, de um Parlamento Europeu e de uma Comissão Política Européia.

32 – Os Coder eram estruturas de tipo corporativista instituídas por De Gaulle no quadro da reforma administrativa de 1964, para aplicar uma política de organização do território decidida pelo governo, associando nela notadamente os sindicatos.

33 – Projeto de De Gaulle, no quadro das instituições da 5ª República, visando transformar o Senado em estrutura econômica e social, integrando os representantes dos organismos profissionais e os sindicatos. O Senado corporativo foi um dos aspectos do projeto submetido a referendo em 1969 e rejeitado maciçamente, provocando a saída de De Gaulle.

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