Benedita: “Questão negra no Brasil e nos EUA, tudo semelhante”

O Trabalho, em entrevista a Aurea Alves, ouviu a deputada federal Benedita da Silva como candidata designada pelo PT à prefeitura do Rio de Janeiro. Como se sabe, Marcelo Freixo do PSOL desistiu, quando Bené, como é chamada, se dispunha a ser sua vice. Mas Bené é a grande liderança popular do Rio, fundadora do PT. Criada na favela do Chapéu Mangueira foi a primeira senadora negra do Brasil, e é a autora da “lei da empregada doméstica”, que já foi sua profissão. Uma frase sua sobre o racismo em 1985 ficou famosa: “querem que eu me prostitua ou me mate”.

Agora é mãos à obra para construir a campanha de Benedita da Silva a prefeita do Rio de Janeiro.

O Trabalho – Sua candidatura repercutiu positivamente nas bases petistas. Qual a importância da militância carioca no diálogo com as comunidades para ganhar e reforçar o PT como instrumento de luta?
Bené – Durante a pandemia os militantes petistas, juntamente com lideranças comunitárias, organizaram várias redes de auxílio-solidário para as pessoas mais necessitadas das favelas e periferias resistirem no isolamento social.

Isso vem se somar a uma candidatura que representa diretamente esse povo que sofre com a pandemia e é vítima da política genocida de Bolsonaro.

Certamente, a confluência dessas frentes de trabalho e de campanha eleitoral popular vão contribuir para reaproximar o PT das bases populares e reconquistar a sua confiança.

OT – Quais as semelhanças e diferenças sobre a questão negra entre Brasil e os EUA?
Bené – Tudo é semelhante, a violência policial estrutural, a discriminação racial e a desigualdade social em que vive grande parte da população negra. Nesse ponto é que a desigualdade social brasileira é mais profunda, gerando exclusão social e fome.

A única diferença é a capacidade de reação do povo negro contra os atos de racismo e violência policial. Lá, a população negra reage em massa e nacionalmente; aqui, é uma reação mais pontual. Mas também começa a acontecer manifestações antirracistas e antifascistas nas ruas, sob o impulso das manifestações do povo dos Estados Unidos.

OT – Conhecendo bem as comunidades, como estará esse povo após a pandemia? Sua candidatura colocará em destaque a luta contra a opressão ao povo negro, tão candente no RJ? As balas sempre encontram um corpo negro, como o recente caso de João Pedro (em São Gonçalo). A frase de seu discurso sobre racismo em 1985 “querem que eu me prostitua ou me mate” segue atual?
Bené – Primeiro, um esclarecimento. A abertura das atividades econômicas e das escolas foi decisão política e não de natureza sanitária. A pandemia continua contaminando e matando no Rio de Janeiro, especialmente a população pobre e negra.

Não poderia deixar de colocar no centro da minha campanha a defesa da vida tanto diante da pandemia, quanto contra as operações policiais que mantam inocentes nas favelas.

O governo Lula e Dilma fez a inclusão social e o enfrentamento ao racismo com as políticas de geração de emprego e de cotas nas universidades públicas criando oportunidades para as populações negras e indígenas.

Tudo isso vem sendo desmontado desde o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma e agora a juventude negra percorre o caminho contrário: o caminho da desigualdade, da exclusão, do aumento da discriminação racial, da total falta de oportunidade de emprego, com todas as consequências sociais que tal processo perverso costuma criar.

OT – As eleições municipais repercutirão questões ligadas a crise: emprego, saúde, educação. Em linhas gerais, quais elementos fundamentais que sua candidatura deve tratar?
Bené – Minhas prioridades são exatamente essas: saúde, em primeiro lugar, educação e emprego. Mas para gerar emprego e renda vamos estimular a economia criativa, inclusive nas favelas, bem como as indústrias do Carnaval e do turismo, muito interligadas.

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