Chile: depois da vitória de Boric

O resultado das eleições presidenciais de 19 de dezembro de 2021 reafirmou a situação aberta no país com a revolta que eclodiu em outubro de 2019. O arrefecimento das mobilizações com a pandemia não significou um recuo da decisão das massas populares de construir um país onde seus direitos estejam inscritos.

Sentimento que foi confirmado nas urnas no segundo turno. Os 55,87% dos votos em Gabriel Boric (Frente Ampla em coligação com o Partido Comunista), derrotando o candidato pinochetista Kast (que obteve 44% dos votos) é um claro sinal do anseio de mudança.

O povo chileno foi submetido nos últimos 30 anos, desde o fim da ditadura Pinochet, a uma política que foi tomada como modelo para o capital financeiro. Modelo para o imperialismo, sofrimento para o povo que não tem direito à saúde e educação, à aposentadoria digna, à moradia. A isso os chilenos disseram um basta em outubro de 2019 e o reafirmaram nas urnas em dezembro de 2021.

Novo governo, nova Constituição
Neste início de ano há intensa atividade política. Como relatam nossos correspondentes, de um lado os representantes do capital financeiro buscam incidir nos rumos do governo, de outro a esperança ativa dos que crêem que ele tenha vindo para mudar os rumos do país.

Em 11 de março Boric toma posse e é o mês que a Convenção Constitucional começa a redigir a nova Carta amplamente exigida pelo povo, uma das conquistas das mobilizações de 2019, para enterrar a herdada de Pinochet.

São fortes as pressões dos setores que se beneficiaram do “modelo chileno” para que nem o novo governo, nem a Convenção Constitucional promovam as mudanças exigidas. Declarações de setores da direita buscam marcar terreno no futuro governo, com recomendações para nomeação de cargos chaves e “aconselhando” manter-se longe dos comunistas, na verdade são pressões para que o novo governo rompa com os anseios que o elegeram.

Entretanto, ao eleger Boric a maioria o fez como um claro sinal que mantém suas demandas e que quer prosseguir sua luta. Mesmo antes da posse do novo presidente, o Palácio do Governo, La Moneda, tem sido palco de manifestações de esperança em mudanças reais que mandataram Boric a fazer. Já o governo Piñera deixa o La Moneda derrotado (seu candidato amargou um quinto lugar no primeiro turno com 8% dos votos), como também a política da Concertación do Partido Democrata Cristão e Partido Socialista (cuja candidata obteve 9%).

Organizando a luta
Uma das exigências que mais tem mobilizado os trabalhadores é o fim das Administradoras de Fundos de Pensão (AFP), previdência privada instalada por Pinochet, e sua substituição por uma Previdência Pública e Solidária.

A campanha “No+AFP” já mobilizou centenas de milhares em várias cidades do país. Agora que os constituintes começarão a redigir a nova Carta, nossos correspondentes no Chile informam: “neste processo há a possibilidade de apresentar projetos de Iniciativas Populares de Norma (IPN), cuja regra é ter apoio de 15 mil assinaturas em quatro regiões do país. A direita, com os meios materiais que dispõe para ter as assinaturas deve apresentar cerca de 10. Por sua parte, os movimentos sociais recorrem aos “cabildos” (assembleias locais) e às ruas para completar a meta. A Coordenação da campanha No+AFP conseguiu, nesta semana, ultrapassar a meta para apresentar a IPN pelo fim das AFPs”.

O que farão o novo governo e os deputados constituintes é a luta de classes que definirá.

Misa Boito

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