Contra as instituições e o imperialismo
A mobilização jovem no Brasil nas eleições não é um fenômeno somente nacional, ela está em conexão com o resto do mundo. Do Brasil à Índia. Da Índia à Grécia. Da Grécia à Sérvia. Da Sérvia à França e, da França aos EUA, a juventude se colocou em marcha, compreendendo que era o seu destino que estava sendo jogado. Em todas essas manifestações a juventude se choca diretamente com as instituições políticas de seus países.
Na Europa, e m 48 horas, 12 países foram atingidos pela onda de manifestações da juventude. O continente se vê conectado pela revolta popular à política de cortes de seus governos no serviço público, previdência e o aumento do custo de vida com aluguéis, alimentação e transporte. A deterioração da vida no velho continente está ligada diretamente à política de guerra que exige dos governos austeridade para investir em armamentos, impactando negativamente na vida do povo.
O formidável caso da Sérvia
Após 2 anos de protesto contra o governo de Aleksandar Vucic, o movimento de oposição liderado pelos estudantes venceu as eleições, com a maior participação dos últimos 30 anos. Os protestos tiveram início em 2024 após a queda de uma marquise em uma estação ferroviária matando 16 pessoas. O movimento que eclodiu, protagonizado pelos estudantes, ligou a queda da marquise à falta de fiscalização e corrupção. As manifestações que foram ganhando musculatura, chegaram ao ápice de exigir eleições no país. Em setembro, Vucic dissolveu o parlamento e convocou eleições antecipadas, com a expectativa de assumir o cargo de Primeiro-Ministro, o que não aconteceu. Em resposta à tentativa de Vucic, o movimento estudantil organizou uma lista de candidatos, reunindo acadêmicos, artistas, estudantes, entre outros, com um único objetivo: derrotar o SNS – partido de Vucic. Durante o processo eleitoral, os estudantes organizaram uma rede de voluntários para fiscalização e acompanhamento, para conter a ameaça de fraude eleitoral. Ao fim, a lista estudantil teve uma estrondosa vitória, conquistando 52,6% dos votos válidos, contra 39,22% do SNS.

Na Itália
A gigantesca mobilização estudantil do dia 16 de outubro, inspirada pelas mobilizações francesas, tinha cartazes de solidariedade que diziam: “todos odeiam a polícia”. Essa foi a forma de solidariedade encontrada pelos estudantes italianos aos estudantes franceses. Ao todo, 400 mil estudantes foram às ruas em todo o país. A força concentrada do movimento, alimentou a mobilização convocada para o dia 30 de outubro dos portuários italianos contra a guerra como, também, a greve geral estudantil convocada para o dia 20 de novembro contra a militarização da vida. Tanto a greve dos portuários, quanto a greve estudantil, não acontecerão somente na Itália, mas em diversos outros países. As manifestações estudantis convocaram o ‘dia sem Meloni’, primeira-ministra da Itália e presidente do Partido Conservador. O protesto contrário às escolas-quartéis, questionava, também, o estado de deterioração dos prédios públicos e a proposta racista de Meloni de redução do número de estrangeiros nas escolas e a proibição do uso de burcas e hijabs.
Outras mobilizações
EUA: 8 milhões foram as ruas novamente nos atos No Kings, com forte presença de jovens
Índia: o levante majoritariamente jovem, denominado Movimento das Baratas, foi às ruas em outubro com centenas de milhares
Albânia – Milhares tomaram conta do país em mais de 8 dias consecutivos
Bélgica – Atos reuniram mais de 30 mil manifestantes em Bruxelas
Espanha – Greve da educação em Madrid teve adesão de 70% dos funcionários com apoio estudantil, na esteira das mobilizações pelo direito à moradia. 150 mil manifestantes estiveram reunidos no dia 14 de outubro e, no dia 15, acamparam em frente ao Ministério Regional da Educação, rumo a greve geral em 11/11
Grécia – Cerca de 10 mil marcharam pelas ruas de Atenas
Portugal – Atos contra os preços da moradia levaram diversas manifestantes às ruas. 55 pessoas foram presas até o momento
Irlanda – Protesto por moradia estudantil em Cork, a segunda principal cidade do país
Suíça – Estudantes convocam greve nacional para o dia 20 de novembro contra a militarização
França: 800 mil jovens e trabalhadores nas ruas; preparação da greve em 5/11 (ver abaixo)
Jeffei
França: “Preparar o 5 de novembro, preparar a greve”
Já passou um mês de manifestações estudantis por verbas e concurso para professores, e pela abolição do Parcoursup (seleção universitária criada pelo governo). O presidente Macron escalou uma repressão brutal e mutiladora, como no dia 17 contra 800 mil jovens e trabalhadores em todo o país, esperando intimidá-los. Mas a rejeição social à violência permitiu manifestações tranquilas no último sábado. Macron anunciou mini-medidas, muito menos dos 10 bilhões de euros (R$ 60 bilhões) para a educação exigidos. Todas organizações estudantis rechaçaram. As centrais sindicais unidas decidiram a convocação de uma greve nacional com manifestações no próximo dia 5 de novembro, combinando demandas de aumento de salários e aposentadorias sufocados pela alta de combustíveis, e recursos para o serviço público esmagado pelos cortes do Orçamento de guerra. Publicamos o editorial de Pierre Valdemienne, no semanário francês Informations Ouvrières de 28 de outubro.

“Será que eles realmente acham que podem convencer alguém?”
No domingo, 25 de outubro, em uma reviravolta inédita, o povo brasileiro reelegeu Lula, com mais de 10 milhões de votos a mais do que no primeiro turno. Em 21 dias, milhões de jovens e trabalhadores foram às ruas em centenas de cidades, em milhares de manifestações, compondo a maior mobilização popular da história do Brasil. Com o auxílio da juventude — que começou a ocupar as ruas logo no dia seguinte ao primeiro turno, sem aguardar ordens de ninguém —, as massas populares entraram em cena, desenvolvendo formas elementares de auto-organização. Para derrotar Bolsonaro, apoiado por Trump e Netanyahu, e amigo da Sra. Le Pen (em abril próximo, candidata da extrema-direita à presidente – NdT). No outro hemisfério, na Europa e, especificamente, na França, o presidente Macron e seu primeiro-ministro Lecornu fizeram de tudo — por meio de repressão, proibições, toques de recolher, Conselho de Defesa, ameaças e ”recomendações para não se manifestar” — para que a massa de trabalhadores e jovens, que havia saído às ruas em peso no sábado, 17 de outubro, com reivindicações específicas e para expressar seu esgotamento diante dessa situação insuportável, permanecesse em casa. Mas não contavam com a poderosa determinação, a profunda indignação e a vontade inabalável de não ceder em nada.
“O governo precisa ceder ou só restará a porta de saída” (Mélenchon)
Sem esquecer a grande lucidez para não cair em armadilhas, apoiando-se nos sindicatos, mas também na França Insubmissa (LFI). Como aponta Jean-Luc Mélenchon (líder e candidato à presidente da LFI) — e ele não é o único a dizer isso: “O governo precisa ceder, ou não restará nada além da porta de saída”. O fluxo ininterrupto de manifestantes que tomou as ruas com calma e serenidade por toda a França neste sábado, 24 de outubro, forçou o Executivo a atender ao pedido de organizações de estudantes do ensino médio e universitários para uma reunião destinada a tratar de suas reivindicações, nesta segunda-feira, 26 de outubro. Para preservar, a qualquer custo, os interesses daqueles a quem representam, Macron e seu governo, acuados e em situação desesperadora — mas ainda com capacidade de causar danos —, veem-se forçados a fingir que estão recuando. Após a repressão feroz, que ainda persiste, e após o questionamento de princípios democráticos elementares, como o direito de manifestação, o que se vê agora é pura artimanha e cortina de fumaça. Será que eles realmente acham que podem convencer alguém com seus anúncios, que não passam de artifícios patéticos? Basta analisar as respostas para perceber que — como afirmam as organizações de estudantes do ensino médio e universitários — o que foi oferecido é insuficiente; está muito longe do necessário. É bem provável que ninguém se deixe enganar. Isso é, sem dúvida, verdade para todos aqueles que voltarão às ruas e que estão se preparando para o dia 5 de novembro e para a greve.

