Necessário enfrentamento às manifestações da direita
Na Espanha, manifestações contra os imigrantes têm ocorrido desde que marroquinos entraram em Ceuta (enclave espanhol no Marrocos) no final de julho. Partidos de direita e extrema-direita, como o Vox, às alimentam. Mas contramanifestações, em defesa dos direitos dos imigrantes, ocorrem paralelamente em vários locais do país. Muitas enfrentando frente a frente bandos que entoam cânticos racistas e saudosos do regime franquista.
Nos últimos dias de julho milhares de marroquinos entraram em Ceuta, 141 foram mortos pelas forças de segurança ou bandos protegidos pelas mesmas. Há tantos outros feridos e desaparecidos e centenas seguem detidos, e milhares jogados à fome. Muitos são menores de idade. Em Melilla, o outro enclave no norte da África, houve mais de 100 mortos em evento parecido em 2022. Hoje, todas as instituições do Estado espanhol, unânimes – desde o rei até o presidente Pedro Sanchez – já manifestaram sua vontade de conservar os enclaves coloniais.
Eis a ponta de um iceberg: 80 mil pessoas já morreram afogadas no Mar Mediterrâneo nos últimos 20 anos tentando chegar à Europa. É a destruição da África pelas garras imperialistas que provoca – e continuará provocando – essa tragédia humana.

Há uma política contra os migrantes, contra a classe trabalhadora
Essas manifestações na Espanha não são acaso. Elas se respaldam nas políticas dos governos europeus, que endurecem as medidas contra imigrantes e atacam os direitos dos trabalhadores. Medidas cada vez mais restritivas, que vêm na esteira da política brutal de Trump nos EUA, com o ICE. Aliás Trump, que defende a adoção de seu modelo para a Europa, declarou poucas semanas atrás: “Se não estivermos no poder, nosso país enfrentará uma invasão de tal magnitude que o que aconteceu na Espanha parecerá insignificante e menor”.
É uma política de divisão da classe trabalhadora, para com mais facilidade atacá-la. O editorial do periódico espanhol Información Obrera, de 9 de setembro, afirmou:
“A campanha contra os imigrantes não é só racismo. Ela responde a uma necessidade do capital, que precisa dividir a classe trabalhadora para impor seus planos de guerra e de destruição das conquistassociais, como a saúde, a educação e as aposentadorias — planos que somente a classe trabalhadora, unida, pode derrotar. Em segundo lugar, a perseguição aos migrantes permite que o capital disponha de uma reserva de mão de obra barata, sem direitos que a protejam contra a exploração. Aqueles que lançam a campanha contra os migrantes se apoiam na saturação dos serviços públicos. Defender o direito à emigração está intrinsecamente ligado à exigência de restabelecer os serviços públicos, que estão sendo desmantelados e cada vez mais privatizados. É necessário estabelecer uma prioridade de gastos com educação, saúde e infraestruturas, enquanto todos os governos da Europa anunciam cortes para gastar mais em armas. Esse é o perigo e o inimigo.”
Mobilizar e seguir nas ruas
Para a Espanha, Ceuta se tornou um laboratório para os bandos de extrema-direita. A esses bandos, que se mobilizam para agredir e insultar imigrantes, respaldados por leis, poderosos e vistas grossas da polícia, é preciso ampliar as respostas. Assim como exigir do governo direitos e medidas de proteção social a todos.
Em 2 de setembro manifestantes contra o racismo e pelos direitos dos imigrantes foram às ruas em várias cidades. Isso mostra a disposição em unir forças nessa questão, cara à classe trabalhadora. Mas é preciso mais. Como também afirmou o Información Obrera, sobre as manifestações em defesa dos imigrantes “Infelizmente, foram poucas as organizações que ousaram convocar, mas esse é o caminho, a via para se opor à política de guerra, que exige das organizações operárias e populares uma atitude decidida em defesa das liberdades e dos direitos para todos, diante da ambiguidade do governo.”
Tiago Maciel

