Haiti: em meio ao caos, a luta de classes

Foto: CHANDAN KHANNA/AFP

Abaixo trechos da entrevista concedida por Dominique St-Eloi, coordenador da Central Nacional dos Operários Haitianos (CNOHA), aos companheiros de Guadalupe (colônia francesa no Caribe), no quadro do Comitê Internacional de Ligação e Intercâmbio (CILI).

1 – Quais as reivindicações da greve geral no Haiti?
Dominique St Eloi: Há no país falta de combustível e insegurança, com os haitianos asfixiados pela situação que se degrada a cada dia. A organização que tomou a iniciativa de propor a greve geral foi a APCH, que faz parte da Confederação dos Transportes, contra a falta de combustíveis (gasolina, gás, diesel) vendidos no mercado informal a preços exorbitantes. Com a falta de combustível os preços do transporte coletivo e do gás de cozinha quadruplicaram, para uma população que sofre um desemprego de 80%. Os que trabalham ganham salário de miséria, congelado pelo governo em 500 gourdes (4 dólares) diários, enquanto um galão de gasolina é vendido a 2.000 gourdes. Tudo aumenta no país, salvo os salários, com uma taxa de inflação de 24% (oficial) e os preços dos produtos de primeira necessidade triplicados.

O responsável por essa situação é o governo imposto e ilegal do PHTK (Partido Haitiano Tet Kalè), hoje encabeçado por Ariel Henry, nomeado pelo defunto Jovenel Moïse.

A insegurança se deve ao fato de que os casos de sequestros promovidos por bandos armados aumentaram 200% no último ano, segundo a ONU, que é cúmplice da federação de gangues que controla o Haiti. A polícia é impotente diante das gangues. A maior delas, a G 9, é sócia do regime criminoso do PHTK, que por sua vez é escravo do imperialismo dos EUA, cujo governo lhe dá apoio.

Assim, a proposta de greve geral contra a alta dos combustíveis e a insegurança foi acolhida pela CNOHA, CTSP, CNEH (centrais sindicais), organizações camponesas e populares e, depois de uma paralisação no dia 18, foi realizada em 25, 26 e 27 de outubro. Nada funcionou, o país ficou completamente paralisado. As escolas, a administração pública, os bancos, transportes e inclusive o setor informal, todo mundo ficou em casa. Ao mesmo tempo, a guerra de gangues rivais prossegue, a serviço de empresários e políticos do PHTK.

2 – E agora, qual a continuidade?
DSE: As organizações de resistência, como o Moleghaf, centrais sindicais, Konbit e outras, anunciaram novas mobilizações. Não podemos deixar que o regime criminoso do PHTK continue, por isso defendemos o fim desse governo e uma transição com eleições livres e democráticas que deem a palavra ao povo haitiano, sem ingerência externa.

3 – A imprensa divulgou que a secretária do Acordo de Montana encontrou-se com Ariel Henry em 26 de outubro, quando teria reafirmado a exigência de um governo de transição. A CNOHA faz parte desse Acordo, ao lado de outras organizações sindicais, populares e forças políticas. O que nos diz sobre isso?
DSE: A CNOHA exige a saída imediata de Ariel Henry. Sabíamos desse encontro, que Henry queria que fosse secreto, e exigimos que nada fosse negociado com ele. Ariel Henry deve deixar o poder imediatamente, pois é seu governo que bloqueia uma saída haitiana para a crise, sem qualquer interferência estrangeira, em particular dos EUA. O Acordo de Montana inclui atender as reivindicações dos trabalhadores e das pessoas dos bairros populares, que é a condição para uma solução aos problemas do país. O regime do PHTK deve retirar-se e com ele o Core Group, que tem a participação das embaixadas dos EUA, Canadá, França, Espanha, Brasil, além da ONU, OEA e União Europeia, para que um governo de transição promova eleições livres e democráticas no Haiti. É o que propõe o Acordo de Montana e o que o povo espera dele.

Porto Príncipe, 29 de outubro de 2021

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