Sonho da universidade fica mais longe

Dados recentes das principais provas para acesso ao ensino superior no país (Enem, Fuvest e Unicamp) demonstram que a pandemia aprofundou a desigualdade social, e na juventude aumentou o abismo entre os estudantes mais pobres em relação aos mais ricos. Este abismo, protagonizado por estudantes pretos e pardos de escolas públicas, teve como combustível as milhares de escolas fechadas durante a pandemia, ao passo que os governos não desenvolveram qualquer planejamento e medidas necessárias para que as aulas presenciais fossem retomadas. O resultado? Aumento da evasão escolar e diminuição vertiginosa de inscritos para prestar vestibular em 2022.

Ensino mais elitista e excludente
A redução de candidatos no Enem foi de 31% no geral, e 51% dessas desistências são de negros. Os estudantes sem aulas e com dificuldades de acompanhar remotamente, sem poder se preparar para prestar o vestibular, desistem das provas. Alguns, que ainda mantém esperanças de conseguir estudar em 2022, acabam por ter que jogar para o ano que vem o sonho de entrar na universidade. Já outros em condições de vida piores, simplesmente desistem de estudar e de ingressar no ensino superior. Claudia Costin, diretora geral do Centro de Excelência e Inovação de Políticas Educacionais da FGV, ao analisar o cenário nacional afirma que “teremos o ensino superior mais elitista e excludente dos últimos anos”. A responsabilidade deste cenário é de todos os governos, principalmente de Bolsonaro, quando negligenciaram o direito à educação à juventude e se aproveitaram da pandemia para cortar recursos no orçamento afetando bolsas, merendas, transporte, etc.

O Enem de 2020 foi o de maior abstenção da história. Abandonados pelo governo, milhares não se arriscaram indo às provas. Para que esses estudantes, que não conseguiram fazer a prova em 2020, fizessem em 2021, o STF foi acionado e obrigou o Ministério da Educação a garantir isenção da taxa de inscrição para os ausentes de 2020. Mesmo com essa medida, que tinha como objetivo garantir a presença dos estudantes no Enem, o exame que tinha 3,1 milhões de participantes confirmados, até o momento, teve queda de 53% ao se comparar com o de 2020. Ao analisar a queda de inscritos, confirma-se uma tendência ligada à realidade nacional: a maior taxa de desistência é de negros e pardos. A diminuição nacional é de 52%. Ao se comparar com 2020, que tinha cerca de 3,4 milhões de jovens negros, em 2021 o Enem terá apenas 1,6 milhões.

Direito se defende
A cada ano o número de inscrições no Enem vem decrescendo. Com esta queda, a juventude preta e pobre vai ficando cada vez mais distante do ensino superior.

Com o governo Bolsonaro a situação piorou ainda mais, principalmente, durante a pandemia. Essa situação vem também acompanhada da ação violenta das polícias, especialmente a militar, que fez crescer o assassinato de jovens negros.

Especialistas afirmam que será preciso um longo trabalho, que o MEC precisará protagonizar com um plano de ação nacional. Porém, hoje é nítido que o plano desse governo é destruir a educação, os direitos e o futuro da juventude brasileira.
Frente a essa situação, fruto de um sistema podre e de governantes a seu serviço, o caminho é seguir organizando as lutas nas ruas.

A luta para exigir a reabertura de escolas com mais bolsas, transporte e outras medidas que garantam aulas presenciais é necessária para enfrentar tamanha desigualdade que se instalou no país.

Jeffei

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