Karl Liebknecht: O movimento operário e a organização da juventude (1908)

O movimento proletário da juventude é um elo necessário do movimento operário moderno. A juventude proletária é a cabeça e as pernas da classe operária. As organizações livres da juventude nunca tiveram outro objetivo senão o de servir o movimento operário moderno, ser uma escola preparatória para as organizações de combate dos operários. Como todo novo movimento, as organizações de juventude precisaram lutar duramente para se fazer aceitar pela classe operária; foram necessários longos anos de duro trabalho. No entanto, elas foram vitoriosas. Em 29 de setembro de 1906, os operários, no Congresso de Mannheim (do Partido Social-Democrata da Alemanha), aprovaram por unanimidade esta resolução de apoio:

“Nós saudamos o despertar, que se manifesta por todos os lados, da juventude proletária a uma atividade independente e instamos os membros do partido a encorajar, em todos os locais onde as leis sobre as associações o permitam, a criação e o desenvolvimento de organizações da juventude”.1

Defendendo esta resolução, um orador (dr. Karl Liebknecht) declara: “Mas ali também onde as organizações de jovens não são políticas, o partido deve igualmente afirmar sua simpatia. É dever do congresso dizer também aos jovens da Alemanha do Norte: ‘Nós estamos de acordo com a atividade de vocês!’”

Essas declarações foram vivamente aplaudidas pelo congresso. A juventude e a classe operária precisam trabalhar energicamente no desenvolvimento das organizações de jovens. Esse desenvolvimento parecia assegurado. Mas dis aliter risum! (“os deuses decidiram outra coisa”).

Apenas nove semanas após o congresso de Mannheim, os representantes das direções das centrais sindicais, durante uma conferência em Berlim em 26 e 27 de novembro de 1906, tomaram posição contra a formação de organizações particulares da juventude.

“A comissão geral considera que uma organização central especial dos jovens não é útil nem para a defesa dos interesses econômicos nem para a educação da juventude, mas sim prejudicial. O partido e os sindicatos não devem trabalhar pela criação de uma organização de juventude, mas de uma organização encarregada de educar os jovens. É aos sindicatos que é preciso deixar o cuidado de organizar os jovens operários e é às direções sindicais, aos congressos sindicais, que cabe a tarefa de conduzir os jovens nos sindicatos, de ajudá-los a se manter. O próximo congresso sindical deverá se ocupar particularmente da questão dos jovens operários, da aprendizagem, e a próxima conferência do Comitê Diretor deverá apresentar as propostas relativas a esses problemas. A conferência se unificou em torno destas posições.”

Apesar dessa tomada de posição dos líderes sindicais, o congresso social-democrata realizado em Essen, em setembro do ano seguinte, no momento em que se preparava a lei sobre as associações, que deveria proibir as organizações de jovens, decide “trabalhar de uma forma mais enérgica que nunca pela criação de organizações de jovens e pedir aos membros do partido que façam compreender o sentido desta ação”.2

O voto da lei sobre as associações deu aos líderes sindicais a ocasião para trazer a público sua opinião e seus projetos. Faz-se um esforço para ler nessa lei mais do que há nela. Nós já mostramos que nossas organizações não são concernidas por essa lei.3 A única mudança trazida por ela na questão da organização dos jovens foi a extensão à Alemanha do Sul das organizações até agora aquarteladas na Alemanha do Norte. Mas os líderes sindicais saíram-se bem em levar os jovens do sul a dissolver eles próprios seu secretariado de Mannheim, fenômeno raro no movimento operário, que os jovens da Alemanha do Sul já lamentam amargamente.

Estava reservado ao congresso sindical que ocorreria de 22 a 27 de junho, em Hamburgo, aprovar a condenação à morte das outras organizações de jovens.

Como foi possível que o congresso, apesar das decisões de Mannheim e de Essen, tomasse posição contra as organizações de organizações de jovens. Não apenas essa decisão está em contradição com as que foram tomadas em Mannheim e Essen a respeito dessas organizações, mas os motivos sobre os quais se apóia estão em oposição flagrante com os princípios que os operários adotaram até hoje a respeito da educação da juventude6.

já tem uma tiragem mínima de 10 mil exemplares; a Junge Gard assegura a mesma tiragem, ou seja, no total 20 mil leitores dos jornais dos jovens na Alemanha. Que tentativas de formação da juventude alcançaram antes essas cifras? Se Legien7 criasse uma instituição cujo financiamento e trabalho fossem sustentados pelos próprios jovens e que tivesse êxito em reunir 20 mil, então ele poderia chamar as organizações de jovens de uma iniciativa fracassada!

Que se recorde o entusiasmo suscitado na juventude, na época (outubro de 1904), pela fundação da Organização Livre da Juventude em Berlim. Não pelo fato em si –muitas associações foram fundadas em Berlim!–, mas a defesa prática dos interesses dos jovens e a independência da associação, que, como um raio, impressionou a opinião e particularmente a juventude. Por isso mesmo, a juventude aderiu a ela em massa, e nossos próprios adversários reconheceram imediatamente o valor da auto-administração da juventude. É assim que, pouco tempo após sua criação, o Reich, órgão do Partido Social-Cristão, escrevia:

“Já foi reconhecido pelo sr. M. Liz-Mumm [um dos dirigentes das associações de juventude cristã], no curso de uma de nossas assembléias anteriores, que, no que concerne à independência de nossos aderentes, foram cometidos erros em um grande número de associações. Nós podemos tomar como exemplo o novo movimento.”

A defesa dos interesses dos jovens constitui o fundamento de uma educação intelectual sistemática da juventude. Partindo da situação material dos jovens, pode-se compreender a organização da sociedade atual e mostrar-lhes a via que permitirá à classe operária libertar-se do capitalismo. A juventude aprende ao mesmo tempo a reconhecer a necessidade para os operários de se desenvolver intelectualmente para poder levar até à vitória sua luta libertadora.

Mas a independência de organização e a defesa dos interesses materiais dos jovens são igualmente meios de educação. A primeira forma, nas organizações operárias, funcionários realistas, firmes de caráter; a segunda desenvolve a consciência do direito entre os jovens. Esclarecido sobre seus direitos, o jovem aprende a defendê-los. É preciso fazer penetrar no espírito do jovem proletário este princípio: não se pode jamais abandonar um direito, a não ser obrigado pela mais estrita necessidade.

A defesa dos interesses materiais dos jovens pela organização dos próprios jovens deve naturalmente ser assegurada em ligação com os sindicatos, mas a juventude deve ocupar nesse trabalho um papel preponderante. Não se trata de a organização dos jovens substituir os sindicatos; ao mesmo tempo, a independência das organizações da juventude não deve ser entendida de modo a que, deixadas totalmente a si próprias, elas vegetem. Quanto mais seus efetivos crescerem, mais elas terão necessidade de conselheiros. Mas é preciso que a democracia reine: seus dirigentes e seus conselheiros devem ser escolhidos pela própria juventude, e eles devem gozar de sua confiança. Os que não compreendem a psicologia dos jovens não estão, naturalmente, aptos a tornarem-se seus conselheiros.

Seria lamentável se a resolução de Hamburgo fosse aplicada. Haveria um prejuízo pessoal e financeiro com a operação, porque ela rapidamente se revelaria vã. Em todo caso, a classe operária não deveria suprimir as organizações existentes de jovens antes de tê-las criado, para substituí-las por instituições que se pudesse comprovar que fossem melhores. Que se evite, portanto, destruir sem consideração a obra criada pela juventude ao preço de pesados sacrifícios e impor a ela, em troca, outras instituições das quais não se compreende o valor. Não se pode desencorajar, de forma alguma, a juventude proletária, se não se deseja que os inimigos da classe operária triunfem!

É preciso satisfazer o desejo justificado da juventude de possuir uma organização independente! O jovem de hoje é o adulto de amanhã.

 

Karl Liebknecht
1º de agosto de 1908

(publicado em 1º de agosto de 1908, no “Arbeitende Jugend”)

NOTAS:

(1) Conforme ata dos debates do congresso do Partido Social-Democrata Alemão, reunido em Mannheim de 23 a 29 de setembro de 1906, publicada em Berlim, 1906.

(2) Prestação de contas das sessões do congresso do Partido Social-Democrata Alemão ocorrido em Essen de 15 a 21 de setembro de 1907, publicada em Berlim, 1907.

(3) Editorial de Juventude Operária nº 5 deste ano.

(4) Robert Schmidt, antigo construtor de instrumentos musicais, deputado social-democrata no Reichstag (Parlamento) de 1893 a 1898, depois de 1903 a 1906. Ele trabalhou de 1903 a 1911 no Secretariado Operário Central de Berlim e foi, de 1911 a 1918, secretário da seção social da Comissão Geral dos Sindicatos.

(5) Sobre uma proposta de Robert Schmidt, o 6º Congresso dos Sindicatos da Alemanha (22 a 27 de junho de 1908, em Hamburgo), rejeita a autonomia das organizações de juventude. A iniciação dos jovens trabalhadores na vida política e sindical deveria ser confiada às comissões constituídas pelo partido e aos sindicatos, nos quais os jovens estariam chamados a colaborar.

(6) Ver a prestação de contas do congresso do Partido Social-Democrata Alemão, ocorrido em Mannheim, sobre o tema: “Social-democracia e educação do povo”. Informantes: Heinrich Schultz e Clara Zetkin.

(7) Carl Legien (1861-1920), dirigente da Federação dos Sindicatos Alemães a partir de 1890; reformista, deputados social-democrata no Reichstag, socialista de extrema-direita durante a guerra, ele foi em 1919-1920 deputado na Assembléia Nacional.

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