Algumas posições do (agora) Ministro da Fazenda, Nelson Barbosa

Recuperamos artigo de Markus Sokol, publicado no jornal O Trabalho de 13 de agosto de 2015, sobre a visita à Comissão Executiva Nacional do PT do, na época, Ministro do Planejamento Nelson Barbosa:

O ministro do Planejamento na Executiva do PT

“Superávit não é de esquerda nem direita, é um dever”

O ministro Nelson Barbosa, do Planejamento, esteve presente na reunião da Executiva Nacional, dia 3, onde apresentou uma análise da situação econômica e se submeteu ao questionamento de dirigentes do PT.

A relevância da disposição do ministro é que o economista compõe com Levy, no ministério da Fazenda, e Tombini, no Banco Central, o núcleo da equipe econômica do governo da coalizão presidido por Dilma. Nas últimas semanas, com o desgaste do plano de ajuste cujo eixo é o superávit fiscal primário, a imprensa especulou sobre a “ascensão” do economista mais ligado ao PT como contraponto ao banqueiro Levy.

Barbosa disse que “não estamos numa crise, mas face ao maior desafio deste governo”, a saber, “uma fase de transição: a rede de proteção social precisa se adequar à realidade fiscal”. Então, ele não propôs corrigir a rota do chefe da área, Levy, e não foi por elegância (compartilham o ministério) mas por convicção.

Para o ministro, já há sinais positivos. “A recuperação do comércio exterior apoiada na desvalorização cambial é muito positiva, mesmo se não alavanca toda a economia”, mas, acrescenta ele; “em “segundo lugar, ainda neste semestre vão se ampliar os investimentos com as concessões (privadas) na infraestrutura, a 3ª fase do Minha Casa e os investimentos da Petrobras em 2016”. Tudo confluindo para, “em terceiro lugar, lá pelos meados de 2016, se refletir na melhora do consumo das famílias”.  Um processo “sem grande custo social”, avaliou o ministro.

No debate que se seguiu, questionado, Barbosa defendeu que “o superávit fiscal primário não é de esquerda, nem de direita, é um dever” (!), tal qual dizem os banqueiros, como se não fosse uma imposição recente do FMI. Ao contrário, saudou o mecanismo, segundo ele, “necessário porque o mundo se endividou”.

À sugestão da “auditoria da dívida”, o ministro descartou, “é um debate dos anos 80”…

“É razoável perder salário”

Pretendeu que “não houve restrição de direitos” nas Medidas Provisórias votadas no 1º semestre e ignorou a questão sobre que dizer aos milhares que perderam seus empregos e aos milhares que ainda perderão, na hipótese de “melhorar” já em meados de 2016.

Um dirigente presente (docente federal) lembrou que estava em greve, pois o sindicato não aceitou o reajuste abaixo da inflação, proposta que um “governo nosso nem deveria fazer”, mas o ministro rebateu: o reajuste é sobre a inflação futura, não repõe inflação passada, pois a situação fiscal não permite. E acrescentou: “no momento em que os trabalhadores do setor privado estão tendo perdas salariais nos acordos coletivos de até 2%, é razoável também cair o do servidor público”.

O ministro justificou o superávit primário, não cogita de intervir no câmbio, sua conversa é “melhorar o ambiente de negócios, oferecer oportunidades aos investidores nacionais e internacionais”. Defende subir os juros e as tarifas dos serviços, mesmo quando admite que caem os salários, pois, como disse Barbosa, “é tudo uma questão de grau”.

Esse não é uma alternativa a Levy. Seu esquema – exportação, depois investimento privado para finalmente chegar ao consumo – não apaixona, lembra o esquema do ex-ministro da ditadura, Delfin Neto, que nunca chegava ao consumo.

Barbosa e Levy talvez sejam o guarda “bom” e o guarda “mal” da estória da delegacia de polícia.

Markus Sokol

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